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Os que se guiam pelas anacrônicas ideias de esquerda e direita não entenderam nada do que está em jogo

Esqueçam essa história de esquerda x direita. Não haverá uma frente de centro-esquerda, nem uma frente de centro-direita, nem um frentão abarcando um arco impossível que vai da centro-esquerda à centro-direita (supostamente para isolar a extrema-esquerda e a extrema direita).

Essas categorias só confundem em vez de esclarecer.

A esquerda realmente existente (ou seja, o conjunto dos agentes que se dizem “de esquerda”) é hegemonizada pelo PT – que não toma a democracia como um valor.

A direita realmente existente (ou seja, o conjunto dos agentes que se dizem “de direita”) vai se alinhar majoritariamente a Bolsonaro – que também não toma a democracia como um valor.

O importante aqui não é se estes conjuntos de agentes se dizem de esquerda ou de direita e sim se defendem a democracia como o principal valor da vida pública – e ambos não defendem.

Precisamos – os democratas – fortalecer o campo democrático para impedir uma polarização entre dois candidatos do campo autocrático (pouco importa que estes se digam “de esquerda” ou “de direita”) pois isso capturará a disputa no campo autocrático alijando os democratas da cena pública. Por isso, o candidato dos democratas será qualquer um do campo democrático capaz de cumprir esse papel (gostemos ou não dele).

Mas como saber quem está no campo autocrático – perguntam os que têm um candidato (ou candidata) in pectore e querem colocá-lo (ou colocá-la) no campo democrático?

Bem, é simples fazer essa identificação em alguns casos, em outros nem tanto. Por exemplo, no caso do PT (e seus aliados do PCdoB, do PSOL e de outras organizações menores) é muito simples. Não interessa o que o partido declara, dizendo-se a favor da democracia (pois todo mundo se diz, até mesmo Goebbels e Stalin diziam que estavam implantando a “verdadeira democracia”). Bastaria, porém, um critério para desqualificar o PT como player válido do jogo democrático: ver quais são os regimes que ele apoia. O partido apoia a ditadura venezuelana, a ditadura cubana e a ditadura angolana e namora com a ditadura russa? Então está fora do campo democrático. Ponto final.

Vale o mesmo para Boulos (PSOL) e Manuela (PCdoB) – que não passam de linhas auxiliares do PT. A ditadura em Cuba é um regime militar. A ditadura na Coréia é um regime militar. Mas, nestes casos, PT, PSOL, PCdoB e congêneres – como estão no campo autocrático – não denunciam, até elogiam esses regimes militares. Mais na cara do que isso, impossível.

No caso do Bolsonaro (e dos bolsonaristas) também é muito simples. O candidato e seus fanáticos apoiaram a ditadura chilena de Pinochet e apoiaram a ditadura militar no Brasil (ou, vale para os mais novos, não acham que houve ditadura no Brasil – algo semelhante a negar o Holocausto)? Então o candidato populista-autoritário, representante da famiglia Bolsonaro de profissionais da política (embora negue, achando que somos idiotas a ponto de não ver que ele acumula sete mandatos consecutivos e colocou toda a família para viver da política) e sua turbamulta vil de seguidores estão fora do campo democrático. Ponto final novamente.

Nos casos de Ciro, Marina e Joaquim é mais difícil, mas uma simples análise é capaz de colocá-los no seu devido lugar: o campo autocrático. Estão no campo autocrático todos os iliberais (no sentido político do termo, não no sentido econômico, dos que seguem as doutrinas do liberalismo-econômico).

Ciro é um nacionalista-autoritário, um estatista, quer dizer, um iliberal em termos políticos. Logo, está no campo autocrático. Defendeu Lula o quanto pode, inclusive prometendo constituir um comando ilegal para arrancá-lo pela força da cadeia (caso ele fosse preso).

Marina – a chamada Sub-Marina, posto que só aparece quando sente cheiro de urna (ao contrário do que declara) – sobreviveu nas franjas do neopopulismo lulopetista. Mesmo depois do escândalo do mensalão, não teve a coragem de sair do PT. Os representantes do seu partido – a falsa Rede, pois de rede mesmo nada tem – no Congresso, como Molon e Randolfe, durante todo o ano de 2016, defenderam mais o PT do que os próprios petistas (e ela nunca veio a público desautorizá-los). Declarou recentemente que governará com pessoas do PT. Ou ela está disposta a jurar que, se eleita, não vai nomear ninguém do PT? E, durante a campanha, vai declarar que Lula não é um preso político e sim um político preso, corretamente, pela ação da justiça, porque saqueou o país? Não? Então nenhum democrata pode apoiá-la.

Joaquim é um caso ainda mais difícil, mas aos poucos vai se revelando. Em primeiro lugar, se filiou ao PSB, partido estatista e cujos líderes, em sua maioria, são contra o liberalismo e as reformas. Por que Joaquim Barbosa procurou esse partido para se filiar? Ele concorda com isso? Se não, como será candidato com uma plataforma que contraria o que pensam os dirigentes do PSB? Como é meio analfabeto democrático, achou que pegaria bem se declarar contra o ultraliberalismo. Recentemente disse:

“Não sou favorável a posições ultraliberais num país social e estruturalmente tão frágil e desequilibrado como o Brasil, com desigualdades profundas e historicamente enraizadas. Basta um rápido olhar para o chamado Brasil profundo ou para a periferia das nossas grandes metrópoles para se convencer da inadequação à nossa ‘engenharia social’ dessas soluções meramente livrescas, puramente especulativas. Evidentemente, elas não são solução para a grande miserabilidade que é a nossa marca de origem e que nós, aparentemente, insistimos em ignorar”.

Ora, o que ele está defendendo é mais protagonismo estatal contra a ideia de menos Estado dos liberais-econômicos. Mas não é isso que está em discussão e sim se ele é um democrata, ou seja, se defende o liberalismo-político. A fórmula encontrada – criticar um imaginário ultraliberalismo – é apenas para não ser confundido com um liberal e não perder votos da esquerda: tal como Marina, Joaquim é um novo abutre no pedaço, disputando os órfãos – ou os restos mortais – do lulismo.

Joaquim também e apresentado como um candidato “novo”, posto que não ocupou posto eletivo (parlamentar ou executivo), mas isso não significa que não tenha exercido cargos de governo (foi funcionário do Itamarati) e no Estado (foi procurador e juiz): ou seja, pertenceu ao establishment durante boa parte da sua vida (e não se incomodou com isso). Como outros que disputam uma vaga em 2018, ele viveu na “pirâmide” e trabalhou e repousou à sua sombra durante bom tempo (e, ao que se saiba, não reclamou do sistema – nem denunciou a sua corrupção endêmica). Mas agora está tentando se identificar com a Lava Jato, operação com grande aceitação popular. Quem sabe para conseguir apoio dos procuradores da milícia legal chamada às vezes de “liga da justiça”. Mas se estes jacobinos virarem joaquinos, teremos um outro problema para a democracia.

A questão é que, como venho sustentando há, pelo menos, 30 anos, as noções de esquerda e direita são impotentes do ponto de vista analítico porquanto tomam a política como questão de ‘lado’ e não como questão de ‘modo’ (que é o que ela é realmente: modo de regulação de conflitos). Não adianta para nada saber se um candidato é de esquerda ou de direita, ou seja, saber de que lado ele está e sim saber de que modo ele pretende fazer política.

A ANEMIA ANALÍTICA DA DICOTOMIA ESQUERDA X DIREITA

Recentemente Bolívar Lamounier, em artigo publicado (em 22/04/2018) em O Estado de São Paulo, intitulado O outubro de nossas preocupações, abordou o assunto de maneira correta:

“Temos aí uma dúzia e meia de candidatos ou quase candidatos, todos por enquanto muito débeis, nenhum que arrebate os corações e as mentes. O aspecto mais curioso – para não dizer patético – é a óptica pela qual os analistas e observadores tentam decifrar esse caleidoscópio. A maioria se contorce para tentar encaixá-los na dicotomia esquerda x direita. Poucos se dão conta de que esse esquema já deu o que tinha para dar. Os augures (adivinhos) da Antiguidade provavelmente chegariam mais perto da realidade, pois se contentavam em examinar o voo de certas aves ou as entranhas de certos animais, e aí diziam qualquer coisa, o que lhes viesse à mente. Os príncipes ficavam contentes e iam ou não à guerra conforme a “previsão” que lhes era passada.

Os termos esquerda e direita, como se recorda, provêm da Revolução Francesa; surgiram como indicativos das posições ocupadas na Assembleia Nacional pelos jacobinos e girondinos. Assumiram, desde então, pelo mundo inteiro, inúmeros significados, adaptando-se aos interesses políticos das forças em confronto em cada país.

Tentar entendê-los por meio de uma análise rigorosa de seus conteúdos é perda de tempo, pois eles variam no tempo e de país para país. Funcionam como totens tribais. Esquerda é o totem dos que se arrogam uma maior sensibilidade social, um conhecimento mais preciso dos meios necessários para aliviar o sofrimento dos pobres e o caminho que leva ao paraíso terrestre – a “sociedade sem classes”. Direita são aqueles que, arrogando-se também os dois primeiros pontos, descartam o terceiro como uma fantasia (ou uma falcatrua intelectual) e conferem importância decisiva à estabilidade social, à segurança, à lei e à ordem. Desde o advento das pesquisas de opinião por amostragem, após a 2.ª Guerra Mundial, inúmeros levantamentos foram feitos sobre essa questão.

Em dezenas de países, instados a informar o que entendiam pelos termos esquerda e direita, a maioria dos eleitores nem sequer conseguia oferecer definições genéricas como as que enunciei acima. Tanto nos países mais escolarizados do norte da Europa quanto naqueles, como o Brasil, onde a maioria é quase analfabeta, o porcentual que conseguia tal proeza sempre ficou entre 15% e 20%.

Não creio que algum pesquisador sério conteste essa afirmação. Portanto, na eleição de outubro, é fácil adivinhar que pelo menos uma dúzia dos candidatos tratará simplesmente de encontrar um “nicho” discursivo desocupado onde se possam abrigar: à direita, à esquerda, acima ou abaixo, como disse certa vez o prefeito Kassab ao lançar um novo partido, o PSD.

Considerando, pois, a anemia analítica da dicotomia esquerda x direita, haverá a esta altura algo útil que possamos dizer sobre a eleição e seus efeitos econômicos putativos? Creio que sim. Ao menos por ora, penso que o problema não é o perfil – de esquerda, centro ou direita – dos candidatos mais cotados, mas a dinâmica que vai predominar na campanha: polarização entre um “esquerdista” e um “direitista” exaltados ou uma tendência “centrista”, com a maioria do eleitorado convergindo para um ou mais candidatos de perfil moderado.”

É isso mesmo. Não sei se diria “perfil moderado”, mas vale diante da polarização esquerda x direita (e a consequente radicalização ou sectarização do debate e das campanhas) que aprisiona a disputa no campo autocrático. Precisamos de alguém que quebre tal polarização.

Mas quem? – todos perguntam. Ora, ainda não se pode dizer. A eleição não é hoje (abril) e sim em outubro. Ninguém é obrigado a escolher agora. E a maioria da população não tem candidato.

Sim, cerca de 65% do eleitorado não têm candidato. Então dizer que fulano tem 30% dos votos ou beltrano tem 20% não significa muita coisa na medida em que essas porcentagens são calculadas sobre o montante dos 35% que já declararam sua opção, não da totalidade dos pesquisados. Existem analistas que fazem terrorismo com esses números, assim como com a especulação de que Lula transferirá a maior parte das suas intenções de voto (que não são 30%, mas menos de 30% sobre 35%) para qualquer um indicado por ele (o que também é falso). O mesmo vale para Bolsonaro (que não tem 20%, mas 20% sobre 35%).

O que as pesquisas revelam até agora, honestamente falando (calculando as porcentagens sobre o total dos pesquisados), é o seguinte: Lula tem 10% das intenções (e qualquer indicado seu menos de 1%) e Bolsonaro tem 7%. O resto é enganação de “analistas” interessados ou torcedores.


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