in

Outro desastre: um olavista-bolsonarista na Educação

E assim vai acontecendo o que temíamos: o bolsonarismo está ocupando o governo Bolsonaro. Depois do místico autocrata Ernesto Araújo, temos mais um olavista, agora como ministro da Educação: o colombiano Ricardo Vélez-Rodríguez, filosofista (quer dizer, ideólogo), meio “cientista de religião”, ou seja, não muito afeito à ciência propriamente dita, ligado à Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Sim, mais um cruzado no primeiro escalão, um dinossauro anticomunista na vibe da guerra fria para travar a “guerra cultural” da “nova direita” reacionária.

Examinemos o pensamento do sujeito. Vamos transcrever um post desse novo ministro olavista-bolsonarista da Educação de Bolsonaro, publicado recentemente no seu blog pessoal.

UM ROTEIRO PARA O MEC

Ricardo Vélez-Rodríguez, Rocinante, Quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Amigos, escrevo como docente que, através das vozes de algumas pessoas ligadas à educação e à cultura (dentre as quais se destaca o professor e amigo Olavo de Carvalho), fui indicado para a possível escolha, pelo Senhor Presidente eleito Jair Bolsonaro, como ministro da Educação.

Aceitei a indicação movido unicamente por um motivo: tornar realidade, no terreno do MEC, a proposta de governo externada pelo candidato Jair Bolsonaro, de “Mais Brasil, menos Brasília”. Acho que o nosso Presidente eleito ganhou definitivo apoio da sociedade brasileira no pleito eleitoral recente, em decorrência de um fator decisivo: ele foi o único candidato que soube traduzir os anseios da classe média, que externou a insatisfação de todos os brasileiros com os rumos que os governos petistas imprimiram ao país ao ensejar uma tresloucada oposição de raças, credos, nós contra eles, como se não pudêssemos, os habitantes deste país, sedimentar alguns consensos básicos em relação ao nosso futuro. Jair Messias Bolsonaro foi eleito em razão deste fato: traduziu, com coragem e simplicidade, os anseios da maioria dos eleitores. A sua campanha, carente de tempo na mídia e de recursos, ameaçava não decolar. Decolou, e, mais ainda, ganhou as praças e ruas, através de meios singelos de comunicação como o Smartphone e a Internet, coisas que o brasileiro comum utiliza no seu dia a dia desta quadra digital da nossa sociedade tecnológica.

Como professor e intelectual que pensa nos paradoxos estratégicos do Brasil, apostei desde o início no candidato Bolsonaro. Achei a sua proposta de escutar o que as pessoas comuns pensam uma saída real para a insatisfação e a agonia que as sufocavam, nesses tempos difíceis em que se desenhava, ameaçadora, a hegemonia vermelha dos petistas e coligados. Graças a Deus o nosso candidato saiu vencedor, numa campanha agressiva em que foram desfraldadas inúmeras iniciativas de falseamento das propostas e de fake news, e em que pese o fato de que ele próprio tivesse de pagar um preço alto com a facada de que foi vítima em Juiz de Fora, desferida por um complô do crime organizado com os radicais de sempre.

Enxergo, para o MEC, uma tarefa essencial: recolocar o sistema de ensino básico e fundamental a serviço das pessoas e não como opção burocrática sobranceira aos interesses dos cidadãos, para perpetuar uma casta que se enquistou no poder e que pretendia fazer, das Instituições Republicanas, instrumentos para a sua hegemonia política. Ora, essa tarefa de refundação passa por um passo muito simples: enquadrar o MEC no contexto da valorização da educação para a vida e a cidadania a partir dos municípios, que é onde os cidadãos realmente vivem. Acontece que a proliferação de leis e regulamentos sufocou, nas últimas décadas, a vida cidadã, tornando os brasileiros reféns de um sistema de ensino alheio às suas vidas e afinado com a tentativa de impor, à sociedade, uma doutrinação de índole cientificista e enquistada na ideologia marxista, travestida de “revolução cultural gramsciana”, com toda a coorte de invenções deletérias em matéria pedagógica como a educação de gênero, a dialética do “nós contra eles” e uma reescrita da história em função dos interesses dos denominados “intelectuais orgânicos”, destinada a desmontar os valores tradicionais da nossa sociedade, no que tange à preservação da vida, da família, da religião, da cidadania, em soma, do patriotismo.

Na linha dos pre-candidatos ao cargo de ministro da Educação foram aparecendo, ao longo das últimas semanas, propostas identificadas, uma delas, com a perpetuação da atual burocracia gramsciana que elaborou, no INEP, as complicadas provas do ENEM, entendidas mais como instrumentos de ideologização do que como meios sensatos para auferir a capacitação dos jovens no sistema de ensino.

Outra proposta apareceu, afinada com as empresas financeiras que, através dos fundos de pensão internacionais, enxergam a educação brasileira como terreno onde se possam cultivar propostas altamente lucrativas para esses fundos, mas que, na realidade, ao longo das últimas décadas, produziram um efeito pernicioso, qual seja o enriquecimento de alguns donos de instituições de ensino, às custas da baixa qualidade em que foram sendo submergidas as instituições docentes, com a perspectiva sombria de esses fundos baterem asas quando o trabalho de enxugamento da máquina lucrativa tiver decaído. Convenhamos que, em termos de patriotismo, essas saídas geram mais problemas do que soluções.

Aposto, para o MEC, numa política que retome as sadias propostas dos educadores da geração de Anísio Teixeira, que enxergavam o sistema de ensino básico e fundamental como um serviço a ser oferecido pelos municípios, que iriam, aos poucos, formulando as leis que tornariam exequíveis as funções docentes. As instâncias federal e estaduais entrariam simplesmente como variáveis auxiliadoras dos municípios que carecessem de recursos e como coadunadoras das políticas que, efetivadas de baixo para cima, revelariam a feição variada do nosso tecido social no terreno da educação, sem soluções mirabolantes pensadas de cima para baixo, mas com os pés bem fincados na realidade dos conglomerados urbanos onde os cidadãos realmente moram.

Essa proposta de uma educação construída de baixo para cima foi simplesmente ignorada pela política estatizante com que Getúlio Vargas, ao ensejo do Estado Novo, pensou as instituições republicanas, incluída nela a educação, no contexto de uma proposta tecnocrática formulada de cima para baixo, alheando os cidadãos, que passaram a desempenhar o papel de fichas de um tabuleiro de xadrez em que quem mandava era a instância da União, sobreposta aos municípios e aos Estados.

“Menos Brasília e mais Brasil”, inclusive no MEC. Essa seria a minha proposta, que pretende seguir a caminhada patriótica empreendida pelo nosso Presidente eleito.

Postado por Ricardo Vélez-Rodríguez às 03:32

Bem, ele mesmo confirma que foi indicado por Olavo de Carvalho. Provavelmente com a intermediação, novamente, do tal Filipe Martins (ver foto que ilustra este artigo), que “ajudou” o novo governo com o serviço porco de indicar Ernesto Araújo para as Relações Exteriores (foi o primeiro desastre, agora temos o segundo). Vélez-Rodrigues, o novo ministro olavista-bolsonarista da Educação, também vai lutar – ombro a ombro com Ernesto Araújo – contra os que querem desmontar os valores da sociedade, “no que tange à preservação da vida, da família, da religião… em soma, do patriotismo”. É um cruzado. É o Brasil voltando à idade média.

Lendo o post do Vélez-Rodrigues vemos que esse novo ministro olavista da educação bolsonarista é contra “uma doutrinação de índole cientificista”. Como é certo que ele não defende a visão de Paul Feyerabend e queira proteger a sociedade da ciência tomada como religião, só se pode concluir que Vélez-Rodrigues opõe religião à ciência e defende uma doutrinação de índole, dita, “filosófica” (como faz Olavo de Carvalho). Em termos de modo de pensar é uma volta à cultura patriarcal contra o modo científico, próprio de uma cultura neomatrística (ver Maturana) que só pôde emergir com a democracia.

Bernardo Mello Franco escreveu hoje, em O Globo, no artigo O olavismo no poder:

“O olavismo passou de piada a doutrina oficial de governo. Parece ser a hora de adaptar um lema de outros tempos: “Chega de intermediários, Olavo para presidente!”.” 

Mas já havia escrito, no dia 23/09/2018, antes, portanto, do primeiro turno:

“Você vai votar em Bolsonaro? Prepara-se para eleger um aiatolavo. O “filósofo da Virgínia” vai mandar e desmandar. Será como votar em Ahmadinejad sabendo que quem vai reinar é Ali Khamenei”.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Deixe uma resposta

Loading…

Deixe seu comentário

Inconsistências e absurdos da lei Escola Sem Partido

Apertem os cintos: estamos voltando a jato para os tempos da guerra fria