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Paulo Coelho narra a tortura que sofreu na ditadura militar

Sou amigo de Paulo Coelho. Nem por isso sempre concordo com suas opiniões políticas. Por exemplo, discordei da suas aproximações com José Dirceu (que a ele foi levado por outro escritor lulista: Fernando Morais) e também de sua posição contra o impeachment. Em 1989, ele próprio me disse, não votou em Lula no primeiro turno e sim em Roberto Freire.

Em outros campos, às vezes concordamos, às vezes discordamos. Estabelecemos relações há quase 20 anos. Nosso ponto de contato foi uma expressão que ele usou naquela época: “o caminho das pessoas comuns”. Depois desenvolvi isso a meu modo e de um modo que não sei se ele concordaria. Não gosto de magia e de outras intervenções anti-ecológicas, mesmo que imaginárias ou operadas no mundo dos sonhos ou da formação (yetzirah) para tentar alterar disposições no mundo produzido (assiyah).

Também não gosto dessas conversas de “guerreiro da luz”, de “combater o bom combate”, de “coroa, cetro, bastão, cajado, espada” e outros símbolos guerreiros da cultura patriarcal. Penso que a tradição espiritualista é um complexo mítico-sacerdotal-hierárquico-autocrático (uma espécie de Complexo Darth Vader) e que o ocultismo é uma maneira mais de ocultar do que de descobrir o oculto: para usar uma passagem evangélica (Mt 5:15), “não se acende uma candeia para colocá-la debaixo de um cesto; ao contrário, coloca-se no velador e, assim, ilumina a todos os que estão na casa”.

Mas, como disse, em muitos pontos concordávamos, em nossas intensas conversas, sobretudo na década de 90. Acho que foi por minha influência que ele, Paulo, saiu do eixo que tinha escolhido – a magia – para escrever um livro sobre a profecia do Norte de Canaã: o Monte Cinco (1996). Não posso garantir, mas na primeira edição do livro eu ainda aparecia nas referências, com um texto sobre O Precedente Sumeriano, um rascunho que lhe entreguei pessoalmente um ano antes.

Fizemos várias coisas juntos, inclusive uma célebre conferência, em 1991, no Largo de São Francisco, com uma única mesa: ele (Paulo), Carlos Byington (o analista junguiano recentemente falecido, uma figuraça) e eu (que organizei a aventura).

Já tem tempo que não conversamos. Fiquei de visitá-lo na Europa, em 2006, porém não apareci. Mas a relação humana, creio, perdura. Agora Paulo dá um bom depoimento sobre sua experiência com a ditadura que, segundo Bolsonaro, os bolsonaristas e os militares i-liberais que aparelharam seu governo, não houve (!). Ora, se não tivesse havido, nada do que Paulo conta  em artigo publicado ontem no The Washington Post, teria acontecido. E Paulo Coelho, como sabemos, pode ser tudo, menos comunista ou terrorista. E mesmo que fosse, isso não seria justificativa para quem estava sob a guarda do Estado.

Leiam o artigo.

Paulo Coelho: fui torturado pela ditadura do Brasil. É isso que Jair Bolsonaro que celebrar?

Paulo Coelho, The Washington Post (29/03/2019)

[Read in English: I was tortured by Brazil’s dictatorship. Is that what Bolsonaro wants to celebrate? https://goo.gl/Zzwc1i]

28 de maio de 1974: um grupo de homens armados invade meu apartamento. Começam a revirar gavetas e armários – não sei o que estão procurando, sou apenas um compositor de rock. Um deles, mais gentil, pede que os acompanhe “apenas para esclarecer algumas coisas”. O vizinho vê tudo aquilo e avisa minha família, que entra em desespero. Todo mundo sabia o que o Brasil vivia naquele momento, mesmo que nada fosse publicado nos jornais.

Sou levado para o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), fichado e fotografado. Pergunto o que fiz, ele diz que ali quem pergunta são eles. Um tenente me faz umas perguntas tolas, e me deixa ir embora. Oficialmente já não sou mais preso: o governo não é mais responsável por mim. Quando saio, o homem que me levara ao DOPS sugere que tomemos um café juntos. Em seguida, escolhe um táxi e abre gentilmente a porta. Entro e peço para que vá até a casa de meus pais – espero que não saibam o que aconteceu.

No caminho, o táxi é fechado por dois carros; de dentro de um deles sai um homem com uma arma na mão e me puxa para fora. Caio no chão, sinto o cano da arma na minha nuca. Olho um hotel diante de mim e penso: “não posso morrer tão cedo.” Entro em uma espécie de catatonia: não sinto medo, não sinto nada. Conheço as histórias de outros amigos que desapareceram; sou um desaparecido, e minha última visão será a de um hotel. Ele me levanta, me coloca no chão do seu carro, e pede que eu coloque um capuz.

O carro roda por talvez meia hora. Devem estar escolhendo um lugar para me executarem – mas continuo sem sentir nada, estou conformado com meu destino. O carro para. Sou retirado e espancado enquanto ando por aquilo que parece ser um corredor. Grito, mas sei que ninguém está ouvindo, porque eles também estão gritando. Terrorista, dizem. Merece morrer. Está lutando contra seu país. Vai morrer devagar, mas antes vai sofrer muito. Paradoxalmente, meu instinto de sobrevivência começa a retornar aos poucos.

Sou levado para a sala de torturas, com uma soleira. Tropeço na soleira porque não consigo ver nada: peço que não me empurrem, mas recebo um soco pelas costas e caio. Mandam que tire a roupa. Começa o interrogatório com perguntas que não sei responder. Pedem para que delate gente de quem nunca ouvi falar. Dizem que não quero cooperar, jogam água no chão e colocam algo no meus pés, e posso ver por debaixo do capuz que é uma máquina com eletrodos que são fixados nos meus genitais.

Entendo que, além das pancadas que não sei de onde vêm (e portanto não posso nem sequer contrair o corpo para amortecer o impacto), vou começar a levar choques. Eu digo que não precisam fazer isso, confesso o que quiser, assino onde mandarem. Mas eles não se contentam. Então, desesperado, começo a arranhar minha pele, tirar pedaços de mim mesmo. Os torturadores devem ter se assustado quando me veem coberto de sangue; pouco depois me deixam em paz. Dizem que posso tirar o capuz quando escutar a porta bater. Tiro o capuz e vejo que estou em uma sala a prova de som, com marcas de tiros nas paredes. Por isso a soleira.

No dia seguinte, outra sessão de tortura, com as mesmas perguntas. Repito que assino o que desejarem, confesso o que quiserem, apenas me digam o que devo confessar. Eles ignoram meus pedidos. Depois de não sei quanto tempo e quantas sessões (o tempo no inferno não se conta em horas), batem na porta e pedem para que coloque o capuz. O sujeito me pega pelo braço e diz, constrangido: não é minha culpa. Sou levado para uma sala pequena, toda pintada de negro, com um ar-condicionado fortíssimo. Apagam a luz. Só escuridão, frio, e uma sirene que toca sem parar. Começo a enlouquecer, a ter visões de cavalos. Bato na porta da “geladeira” (descobri mais tarde que esse era o nome), mas ninguém abre. Desmaio. Acordo e desmaio várias vezes, e em uma delas penso: melhor apanhar do que ficar aqui dentro.

Quando acordo estou de novo na sala. Luz sempre acesa, sem poder contar dias e noites. Fico ali o que parece uma eternidade. Anos depois, minha irmã me conta que meus pais não dormiam mais; minha mãe chorava o tempo todo, meu pai se trancou em um mutismo e não falava.

Já não sou mais interrogado. Prisão solitária. Um belo dia, alguém joga minhas roupas no chão e pede que eu me vista. Me visto e coloco o capuz. Sou levado até um carro e posto na mala. Giram por um tempo que parece infinito, até que param – vou morrer agora? Mandam-me tirar o capuz e sair da mala. Estou em uma praça com crianças, não sei em que parte do Rio.

Vou para a casa de meus pais. Minha mãe envelheceu, meu pai diz que não devo mais sair na rua. Procuro os amigos, procuro o cantor, e ninguém responde ao meus telefonemas. Estou só: se fui preso devo ter alguma culpa, devem pensar. É arriscado ser visto ao lado de um preso. Saí da prisão mas ela me acompanha. A redenção vem quando duas pessoas que sequer eram próximas de mim me oferecem emprego. Meus pais nunca se recuperaram.

Décadas depois, os arquivos da ditadura são abertos e meu biógrafo consegue todo o material. Pergunto por que fui preso: uma denúncia, ele diz. Quer saber quem o denunciou? Não quero. Não vai mudar o passado.

E são essas décadas de chumbo que o Presidente Jair Bolsonaro – depois de mencionar no Congresso um dos piores torturadores como seu ídolo – quer festejar nesse dia 31 de março.


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Um post impecável de Ricardo Noblat sobre a farsa dos militares

Está em curso, no Brasil, um movimento revolucionário (para trás) contra a democracia