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Pequeno tratado sobre a corrupção política

É possível distinguir a corrupção tradicional da política (praticada pelos atores políticos para se eleger, se reeleger, eleger um parente ou camarada do seu grupo ou se locupletar) da corrupção com propósitos políticos (que tem como objetivo financiar um projeto de poder, ainda que seus agentes também possam usar os seus frutos para fazer a mesma coisa que os atores políticos tradicionais). Em outras palavras, é possível distinguir a corrupção endêmica na política (inclusive na política democrática) e a corrupção dita sistêmica, centralizada, coordenada por uma organização para chegar ao governo (inclusive por meios democráticos), tomar o poder e nele se manter  indefinidamente. Eis um pequeno tratado que reúne artigos publicados sobre o tema nos últimos dois anos.

Sobre a corrupção com propósitos políticos

O assunto é um pouco árduo mas seu tratamento é necessário para ultrapassar a cortina de fumaça que está sendo lançada para esconder a natureza da corrupção petista.

A corrupção com propósitos políticos não é a soma das pequenas corrupções individuais, como querem agora – como estratégia de defesa – fazer crer os que praticam a corrupção como método para permanecer no governo tempo suficiente para tomar o poder ou conquistar uma hegemonia de longa duração sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido.

Pequenas corrupções individuais sempre existirão em sociedades dominadas por Estados e por mais endêmicas e por mais frequentes e volumosas que sejam em uma determinada sociedade, não se compõem sistemicamente sem ação política, deliberada, de montar esquemas de poder. Quando há corrupção sistêmica é sinal de que há banditismo de Estado.

A cultura da corrupção pode ser endêmica, na razão inversa da cultura cívica (ou do que se chamou de capital social). Na Somália é muito mais endêmica do que na Dinamarca. Isso, é claro, depende fundamentalmente da estrutura e da dinâmica da sociedade, mas também do padrão de relação entre Estado e sociedade (que pode destruir em maior ou menor escala capital social). Entre os Yanomamis não pode haver corrupção (tal como a conceituamos hodiernamente), pois não há um tronco gerador de programas verticalizadores da rede social capaz de destruir massivamente capital social (e nenhum desses conceitos se aplica, no caso, sem grandes deslizamentos epistemológicos).

Corrupções no Estado também são inevitáveis na medida em que a ação de agentes estatais sem restrições efetivas possibilitará transgressões a qualquer norma, fraudes e delitos de todo tipo. O controle interno, intra-governamental ou mesmo intra-estatal, por exemplo, do poder legislativo ou judiciário sobre o poder executivo e vice-versa, assim como o chamado controle social, jamais constituirão proteção totalmente eficaz contra isso (enquanto houver Estado, é claro). A despeito dos discursos pios sobre ética na política e dos discursos nominalistas sobre o equilíbrio dos poderes e blá-blá-blá, é da natureza da política praticada pelo Estado – ou melhor, sob Estados – o erro, o desvio, a apropriação e, inevitavelmente, a corrupção. Na corte de Dario, na Ecclesia de Péricles ou na Inglaterra após a execução de Carlos I, havia corrupção.

A pequena corrupção disseminada nas sociedades que são domínios de Estados (o suborno do guarda de trânsito ou o “gato” de energia em uma favela) e a grande corrupção praticada tradicionalmente por agentes estatais, em autocracias ou democracias (a comissão cobrada em contratos ou a criação artificial de dificuldades para vender facilidades: por exemplo, para desembaraçar trâmites burocráticos), são diferentes da corrupção com propósitos políticos. As primeiras têm, em geral, propósitos de enriquecimento individual ou grupal e de manutenção de caciquias locais ou regionais e são autorreguladas por uma espécie de “mercado negro” da política. Já a corrupção com propósitos políticos é heterorregulada por uma força organizada cuja racionalidade é diferente daquela que preside a cultura endêmica da corrupção no Estado e na sociedade, traduzida frequentemente pelas expressões: garantir o meu (ou o nosso), levar vantagem, fazer o pé-de-meia, jogar o jogo que todo mundo joga (embora não seja imune a esses efeitos colaterais).

A corrupção praticada na ditadura cubana, por exemplo, comandada diretamente pelo poder centralizado dos irmãos Castro, não é nada disso (ainda que haja corrupção endêmica na base da sociedade cubana). Há tráfico de drogas em todas as sociedades latino-americanas e há ligações criminosas desse tráfico com funcionários estatais (inclusive com o poder judiciário), mas isso é diferente de tráfico organizado pelo próprio comitê central de um partido fundido ao Estado. Fidel, para tentar esconder o esquema criminoso do banditismo de Estado da ditadura cubana, assassinou o herói da revolução Arnaldo Ochoa Sanchez (veja abaixo a imagem), designado por ele para operar o tráfico de drogas articulado pelo próprio regime.

Como não se pode amarrar a boca do boi que debulha, mesmo quando a corrupção é praticada pelo banditismo de Estado, ela alimenta a corrupção tradicional da política estatal e os bandidos comuns que fazem negócios com o Estado (e aqui entra boa parte do empresariado) e retroalimenta a corrupção endêmica que existe na sociedade. Mas isso não significa que a corrupção sistêmica praticada pelas forças políticas que almejam tomar ou manter o poder seja a resultante da corrupção tradicional dos agentes estatais ou da (ou somada à) corrupção endêmica disseminada na sociedade.

A corrupção dos chefes bolivarianos da Venezuela se aproveita da corrupção tradicional dos líderes governamentais daquele país e reforça a corrupção endêmica da sociedade venezuelana, mas não é causada por estas últimas. Houve uma “mudança de estado” para que a corrupção pudesse ser usada como método de governo e não apenas como desvio das funções governamentais ou aproveitamento, com objetivos privados, das condições favoráveis à corrupção proporcionadas por posições de poder. Diosdado Cabello (seguindo a trilha de Fidel Castro e do PCC) não é um narcotraficante que se infiltrou no poder e sim o titular de um poder que usa o narcotráfico a favor da implementação do projeto de uma força política de se eternizar no poder. Isso é inédito. É um outro tipo de corrupção. É a corrupção com propósitos políticos. É a corrupção praticada não por bandidos que tomaram o Estado para fazer o mesmo que seus antecessores tradicionalmente faziam e sim a corrupção própria do banditismo de Estado.

Mutatis mutandis, o mesmo se pode dizer da corrupção inédita introduzida pelo lulopetismo no Brasil. Não é que não havia todo tipo de corrupção de agentes estatais no Brasil , desde Cabral e as capitanias hereditárias. Não é que não haja, há séculos, corrupção endêmica na sociedade brasileira. É que agora a corrupção é praticada com propósitos políticos por uma organização privada que chegou ao governo eleitoralmente como etapa de transição para uma tomada do poder (e para a manutenção do poder em suas mãos por tempo indeterminado).

Corrupção política

A revolução pela corrupção

Algumas pessoas acham que os bandidos que nos governaram durante a última década cometeram tantos crimes porque essa seria a única maneira de favorecer o povo. Alguns acham, inclusive, que a revolução pela corrupção é uma nova via de transformação social (já que o jogo instalado pelas elites, “há 500 anos”, é este mesmo, então não há como não jogar o jogo, sujando as mãos em prol de um objetivo generoso maior).

Sim, tem gente que acredita realmente nisso. É claro que o argumento permite qualquer descalabro. Para atingir tão nobre objetivo (uma nova sociedade mais igualitária) por que não – se for realmente necessário – reprimir, prender, exilar, torturar e matar? Não foi o que fez Cuba (um farol na luta contra o imperialismo, o capitalismo, o neoliberalismo)? Não é isso que está fazendo a república bolivariana da Venezuela (vanguarda do socialismo do século 21)?

Quando cobrados que este não é um comportamento ético, os defensores do banditismo de Estado como via revolucionária têm duas respostas:

a) não foi o PT que inventou a corrupção, foram as elites, desde Cabral; e

b) a ética do povo não pode ser igual à ética hipócrita das elites (pois o que é certo e errado depende dos interesses de classe).

Isso explica o vale-tudo – inclusive eleitoral – para enfrentar as elites (mas só as que estão do outro lado, do lado do mal, pois as elites do lado do bem deixam de ser elites e passam a ser aliadas do povo no momento em que se contrapõem às elites do lado do mal). Isso valeu para Sarney, Collor, Jader, Renan, Cunha e grande parte dos coronéis e neo-coronéis aliados na última década do lulopetismo: todos eles teriam sido aliados táticos na via da revolução pela corrupção. Mais adiante, quando for possível, a partir do governo, tomar realmente o poder, eles serão abandonados e sacrificados. Por enquanto, porém, o dinheiro do crime é absolutamente necessário para tomar o poder e fazer a revolução “por dentro” e por isso tais práticas corruptas das elites aliadas são necessárias para abastecer o caixa revolucionário: esta é a definição de revolução pela corrupção!

Serão preservados, entretanto, os dirigentes revolucionários que se tornaram elites (como o da foto abaixo): pois eles estão apenas disfarçando (se passando por elites para poder se infiltrar melhor nas classes dominantes e clonar seus métodos) e, no futuro – assim pensam esses tolos – abandonarão todos os privilégios e vestirão macacões verde-oliva com a estrela vermelha no peito (sim, toda ditadura é militar: vejam que os Castro, até hoje, mais de meio século depois, ainda se vestem assim).

Lula pescando Dagobah

Muito antes da chamada esquerda os fascistas já haviam adotado a via eleitoral como caminho de tomada do poder. A estratégia era simples. Conquistar governos eleitoralmente para então, a partir daí, financiar estruturas paralelas de tomada do poder (de vez que a legalidade vigente não permitia que isso fosse feito “por dentro” da institucionalidade existente). Foi para financiar tais estruturas paralelas que a corrupção tornou-se necessária, não a corrupção no varejo praticada em todas as épocas e lugares pela ganância dos atores políticos e sim a corrupção sistêmica, a corrupção como método de governo (não para governar e sim para alterar autocraticamente a ordem vigente substituindo-a por estruturas paralelas ou sobrepondo tais estruturas às antigas como novos entes estatais). Foi assim que a esquerda adotou a corrupção. Ela não a inventou, mas foi compelida por razões estratégicas (clonadas do fascismo) a adotá-la, generalizá-la, sistematizá-la, transformá-la numa metodologia. É essa nova via da esquerda para o poder pode ser chamada de “a revolução pela corrupção”.

Por que é necessária a corrupção sistêmica

Assim como não entendem a diferença entre a corrupção tradicional dos agentes estatais e a corrupção endêmica existente em sociedades sob domínio de Estados e a corrupção sistêmica praticada como método com propósitos políticos por grupos privados que querem conquistar ou manter o poder, as pessoas também não entendem facilmente a diferença entre chegar ao governo eleitoralmente e tomar o poder.

Todos os autocratas sabem a diferença e é por isso que não estão interessados apenas em ser eleitos para chefiar governos (e ficar lá um período, saindo ao final de seus mandatos) e sim em tomar o poder. Os autocratas do século 21 (da nova onda que vem instalando ditaduras, protoditaduras e manipuladuras a partir do final dos anos 90, usando as eleições contra a democracia) sabem perfeitamente que chegar ao governo pelo voto é só a etapa inaugural do processo de tomada do poder. Mesmo tendo chegado ao governo, eles sabem que não podem tomar o poder:

1) Enquanto não subordinarem todos os demais poderes (o legislativo, o judiciário e o ministério público) ao poder executivo.

2) Enquanto não implantarem o controle partidário-governamental dos meios de comunicação e da Internet (mesmo que disfarçado sob os nomes de “social” ou “civil”).

3) Enquanto não fizerem maioria em todas as instituições do Estado (degenerando tais instituições de sorte a subordiná-las à lógica do Estado aparelhado pelo partido) e em parte das instituições da sociedade (transformando os movimentos sociais, as ONGs e outras entidades em correias-de-transmissão do partido do governo e as escolas e universidades em fazendas-coletivas de reprodução de militantes e em antros de intelectuais subservientes defensores ou agentes ativos do partido do governo).

4) Enquanto não tiverem o controle do movimento sindical e associativo-corporativo em geral (sobretudo instituindo a ausência de controle estatal sobre seus recursos).

5) Enquanto não tiverem conquistado uma parte do empresariado protegendo-a do mercado e atraindo-a com créditos baratos (falsificando os juros de mercado) e com todo tipo de concessional loans.

6) Enquanto não perverterem o sistema representativo em uma partidocracia (que dispensa na prática o jogo parlamentar democrático: por exemplo, instituindo o voto em lista fechada e pré-ordenada, a fidelidade partidária e o financiamento exclusivamente estatal de campanha).

7) Enquanto não puderem convocar plebiscitos e referendos imperativos a partir do executivo (bypassando a institucionalidade vigente, deprimindo o sistema imunológico da democracia e neutralizando seus pesos e contrapesos com uma ligação direta entre o líder e as massas).

8) Enquanto não criarem forças militarizadas (guardas nacionais de caráter pretoriano) subordinadas ao controle do governo central (e não como entes de Estado) e, em alguns casos, milícias para-militares.

Resumindo: enquanto não estabelecerem uma hegemonia de longa duração sobre a sociedade a partir do Estado controlado pelo partido.

Ora, respeitando o processo político legal não é possível fazer tudo isso. É por isso que os autocratas, chegando ao governo, são compelidos a instaurar o banditismo de Estado (fonte da corrupção sistêmica). O objetivo não é enriquecer seus agentes (embora isso seja inevitável) e sim tomar o poder (ou conquistar hegemonia).

Até aí tudo faz sentido. Mas a maneira como o PT fez isso, parasitando a corrupção endêmica para instalar a corrupção sistêmica, deixou-o vulnerável à fiscalização das instituições do Estado democrático de direito e à crítica da sociedade. Houve um erro brutal de avaliação por parte dos dirigentes petistas.

Não é difícil entender a estratégia de poder arquitetada por um conjunto de dirigentes partidários que constituíam a direção de fato ou real do PT desde a década de 1980. Essa estratégia teve como ponto de partida a constatação (errada) de que as elites que dominaram o país por vários séculos (“há 500 anos”, como repete Lula) sempre lançaram mão de extorsão, suborno, propina, comissão, caixa 2 e expedientes semelhantes para conquistar o poder e nele se manter e que, portanto, tudo isso era uma espécie de imperativo da realpolitik. O erro não foi a constatação de que as elites praticaram a corrupção (o que elas sempre fizeram mesmo) e sim de que elas teriam feito isso voluntariamente de forma sistêmica, em nome de uma causa ou propósito explícito e coordenado de modo centralizado. Ora, isso é falso, simplesmente porque tal não era necessário na medida em que o sistema era a própria corrupção institucionalizada e a corrupção dos chefes políticos – cada qual visando seus próprios interesses egotistas – fazia parte desse “mercado negro” político que se autorregulava perversamente. A avaliação errada gerou um novo comportamento adaptativo e por isso o mensalão, o petrolão e congêneres que já foram ou ainda serão descobertos, são inéditos como forma organizativa (ou seja: “nunca antes neste país” aconteceram).

Corrupção Caixa 2 x Caixa 3

As tentativas de esconder a corrupção sistêmica (caixa 3) dentro da corrupção endêmica mais comum na política (caixa 2)

Mensalão, petrolão e outros esquemas que foram descobertos não têm nada a ver com Caixa 2 de campanha. Eles são, na verdade, Caixa 3, ou seja, recursos para financiar um esquema paralelo – criminoso e antidemocrático – de poder. O Caixa 3 existe não apenas nem principalmente para ganhar eleições e sim para falsificar a democracia. Vejamos, a título de exemplo (e por hipótese), o que pode ser feito com o dinheiro do Caixa 3:

1 – Pode-se montar estruturas ilegais de poder, organizações políticas, sociais e até empresariais privadas que vão então financiar atividades criminosas (que podem ter como escopo desde espionagem, fabricação de dossiês contra adversários, patrocínio de veículos de comunicação para difundir e replicar falsas versões, aluguel de pessoas para escrever a favor do governo e detratar as oposições, realização de reuniões clandestinas, montagem de aparelhos políticos – com imóveis, móveis, veículos e equipamentos – em nome de laranjas, pagamento de cabos eleitorais, suborno de facilitadores e pagamentos de agentes para ganhar ou recrutar e treinar militantes para os círculos do Partido Interno, ameaçar ou neutralizar pessoas (inclusive funcionários estatais) que se tornam obstáculos à consecução dos planos criminosos ou antidemocráticos, até o fomento de pesquisas para violar sistemas de arrecadação, fiscalização, informação, eleição etc., a montagem de milícias e sabe-se lá mais o quê). O dinheiro do Caixa 3 pode ficar escondido por tempo indeterminado em contas bancárias no exterior.

2 – Pode-se comprar representantes eleitos, falsificando a correlação de forças emanada das urnas. Essa violação da democracia representativa é a mais grave, pois comete uma fraude contra a vontade popular. Com ela se perverte o jogo democrático de formação de alianças. A substituição de base-aliada por base-alugada torna desnecessário o esforço político legítimo de convencimento e persuasão (que é o core do regime democrático). Os atenienses do século de Péricles diriam que é um atentado aos deuses da Polis, no caso à deusa Peitho (a persuação deificada e por menos do que isso Sócrates foi condenado).

3 – Uma pequena parte do Caixa 3 pode virar Caixa 2, quando for estratégico eleger pessoas do próprio partido ou de partidos aliados.

O Caixa 3 existe, fundamentalmente, para financiar a estratégia de conquista de hegemonia sobre a sociedade. Não existe para eleger pessoas (o que seria Caixa 2) ou para manter um partido no governo (por um ou dois mandatos) e sim para tomar o poder (e permanecer no governo indefinidamente). É claro que um partido que almeja tomar o poder usando a democracia (em doses homeopáticas), precisa ficar por longo tempo no governo: o tempo necessário para derruir o sistema de pesos e contrapesos da democracia, degenerando as instituições (para deprimir seu sistema imunológico).

É por isso que se fez tanto esforço para reduzir tudo à Caixa 2. E é por isso que foi urdida uma formidável orquestração de esforços defendendo a proibição de doação eleitoral de empresas. É um truque para confundir mensalão, petrolão e outros esquemas estratégicos de Caixa 3 com Caixa 2 de campanha. Foi para esconder a existência do Caixa 3.

Foi uma cortina de fumaça para tentar esconder a destinação real do dinheiro da corrupção sistêmica promovida pelo PT. Transformar o assunto da corrupção em financiamento ilegal de campanha (Caixa 2) é apenas uma manobra para desviar a atenção do que realmente está acontecendo. A destinação dos recursos roubados pelo esquema de corrupção que foi montado em todo lugar pelo partido que ficou no governo de 2003 a meados de 2016 não era (ou não é), a não ser eventualmente ou em um ou outro caso, financiar campanhas eleitorais. O objetivo é financiar um esquema paralelo de poder (quer dizer, de tomada de poder a partir do governo) para conquistar uma hegemonia de longa duração sobre a sociedade brasileira a partir do Estado aparelhado pelo partido. Isso não é Caixa 2 e sim Caixa 3.

O problema central não é a corrupção e sim a autocratização

É difícil entender tudo isso em razão da nossa cultura autoritária-moralista. Do ponto de vista da democracia, o problema central não é a corrupção. O problema central é a autocratização.

O problema do stalinismo – que na sua fase mais aguda do terror de Estado (1921-1953) na União Soviética ceifou a vida de mais de 10 milhões de pessoas (a maioria das quais inocentes), não era a corrupção, embora corrupção houvesse (como sempre há, em maior ou menor medida) nos meios políticos do partido e do Estado. Stalin não era corrupto, ladrão. Não queria enriquecer, viver como um nababo, se aposentar numa ilha paradisíaca. Ele queria o poder absoluto.

O problema do maoismo que, em tempos de paz, foi responsável por 70 milhões de mortes, não era a corrupção, embora alguma corrupção houvesse no partido e no Estado. Mao não era corrupto, ladrão. Tal como Stalin, queria reformar a sociedade e produzir um homem novo.

O problema do fascismo italiano não era a corrupção, embora também houvesse muita corrupção no Partido Nacional Fascista e no Estado fascista erigido por Mussolini. Mas ele não era propriamente um ladrão, um salteador. Também queria, como Stalin ou, depois, Mao, conduzir um grande projeto de reforma da humanidade.

O problema do fascismo alemão – o nazismo de Hitler – não era a corrupção. Hitler era um cara pessoalmente honesto, não se tem notícia de ele ter batido a carteira de alguém ou assaltado os cofres públicos para enriquecer.

O problema do regime liderado pelo líder comunista do Khmer Vermelho, no Camboja, Pol Pot, que exterminou mais de 3 milhões de pessoas – numa crueldade, considerada a escala e a proporção da população por ele violada, jamais vista na história – não era a corrupção.

O problema dos socialismos autocráticos coreano do norte e cubano não é a corrupção. Kim Il-sung e seu filho Kim Jong-il e seu neto Kim Jong-un, assim como os irmãos Castro (Fidel e Raul) não são ladrões. Eles são – como os demais já citados neste post – apenas ditadores.

Corrupção existe na política desde que existe política. Péricles, um dos principais protagonistas da democracia ateniense, foi acusado várias vezes (e provavelmente não sem alguma razão) de corrupção, assim como sua amante Aspásia. Mas ele era um democrata, não um autocrata.

Autocratas honestos são um perigo incalculavelmente maior do que democratas desonestos. Só quem não acha isso são pessoas de mentalidade autoritária, que querem regimes puros e perfeitos.  Via de regra os argumentos para golpes autoritários se baseiam na necessidade de acabar com a corrupção deslavada e colocar ordem na casa, punindo os corruptos. Mas as pessoas que têm pouca intimidade com a democracia não entendem que um Leônidas (comandante espartano) honesto – verdadeiro varão de Plutarco – é uma ameaça incomparavelmente mais grave para a democracia do que um Péricles (principal protagonista da democracia ateniense) corrupto. Assim como não entendem que se o PT não fosse corrupto (não apenas no sentido de praticar a corrupção sistêmica e sim no sentido corrente da palavra, de ser integrado por políticos individualmente corruptos), seria um perigo mil vezes maior do que foi (e está sendo).

Pois não há democracia pura e, se houvesse, deveríamos fugir dela como o diabo da cruz. Não há regime político perfeito e, se houvesse, deveríamos nos distanciar dele o máximo que pudéssemos (valeria até pegar essa viagem só de ida para Marte). Quem gosta de pureza e perfeição são os que querem impor ao mundo uma ordem top down, os que querem consertar a natureza humana, reformar a sociedade, produzir um homem novo.

Por isso, uma parte da indignação com a corrupção (aquela parte insuflada por ideias e comportamentos autoritários) é mais nefasta à humanidade do que a própria corrupção.

Por certo, a corrupção não é uma coisa boa ou elogiável. Mas é preciso distinguir a corrupção endêmica (existente em todas as épocas e em qualquer parte, na sociedade e na política) da corrupção cujo objetivo é financiar processos de autocratização para corrigir os desmandos e restaurar alguma ordem pregressa que supostamente foi conspurcada pelos elementos maus que devem ser punidos, pelas maçãs podres que devem ser descartadas, pelas ovelhas negras que devem ser separadas do rebanho dos bons.

Não há rebanho dos bons. Se você já está em um rebanho, nada pode ser bom. Bom, para a democracia, é tudo aquilo que aumenta os graus de liberdade (incompatível, portanto, com estar em rebanhos).

Quando a sociedade consegue dizer ao Estado (e ao sistema político) como ele deve se comportar, a corrupção (política) diminui. Sociedades abertas, onde há mais liberdade, conseguem coibir, trazer à luz e punir legalmente os crimes de corrupção (não só nos meios políticos, mas também nas empresas e nas organizações civis). Em sociedades fechadas, onde há superavits de ordem e dinâmicas intensas de comando-e-controle (a partir do Estado), nem se consegue perceber a corrupção (que passa a ser normal nos estamentos governantes, considerada então uma especie de “direito” da nomenklatura). Mas esta corrupção sistêmica (ou seja, a que ocorre como parte do metabolismo das ditaduras) não é da mesma natureza da velha e não totalmente evitável corrupção endêmica que acontece quando atores políticos tentam levar vantagem pessoal ou grupal em alguma transação escusa, não raro se associando para delinquir e assim obter (para si ou para os seus) algum tipo de benefício indevido.

O assunto não sai da pauta no Brasil em razão dos escândalos sucessivos do Mensalão-Petrolão. Como sabem os que estão presos, o objetivo nunca foi financiar campanhas eleitorais. A cleptocracia instalada no Brasil não é a continuidade da corrupção endêmica própria da política que é praticada em quase todo lugar e em todas as épocas. Não, ela não tem como objetivo organizar caixa 2 e sim caixa 3. O objetivo era financiar um Estado paralelo, estrutura absolutamente necessária à implementação da nova estratégia da esquerda autocrática contemporânea – e do PT – de tomar o poder a partir da conquista eleitoral de governos. É necessário, como vimos, muito dinheiro para financiar tudo isso.

Mas o problema maior da corrupção usada para tudo isso não é a corrupção em si e sim a sua finalidade autocrática. Se a finalidade fosse apenas a de enriquecer seus agentes, seria uma coisa até certo ponto banal e mais velha do que a Sé de Braga. No entanto, se a finalidade é enfrear o processo de democratização, reduzindo os graus de liberdade das pessoas, então, aí sim: é muito grave!

Algumas pessoas lerão este pequeno tratado e não conseguirão se conter de retrucar com platitudes como: “pois é, mas toda corrupção é ruim, as duas coisas (tanto a corrupção endêmica, quando a corrupção sistêmica) devem ser condenadas ou não devem ser toleradas pela democracia, devem ser, ambas, rigorosamente punidas et coetera“. É quase inevitável esse tipo de reação: afinal, durante milênios nossas cabeças vêm sendo atulhadas de lixo autocrático. Queremos ver onde está o mal para persegui-lo, queremos capturar os malvados para puni-los. Achamos que o mal nasce das más inclinações dos indivíduos (que têm má índole mesmo ou que não tiveram a educação adequada).

Mas é aí que está o problema. Mesmo se identificássemos, perseguíssemos e eliminássemos todos os corruptos atuais, a corrupção continuaria. Assim como as penas de prisão e de morte não evitam o aparecimento de crimes punidos com a prisão e a morte, novos corruptos aparecerão logo após abatermos os velhos. Isso não significa que devemos relaxar a vigilância, ou deixar de aplicar as leis para coibir e punir a corrupção e sim que há algo de mais profundamente errado com um sistema que produz continuamente corruptos há milênios. No entanto, quando estamos diante da ameaça de ereção de regimes que são capazes de metabolizar a corrupção egotista de indivíduos e grupos em dinâmica de funcionamento do próprio sistema, então é bom acender o alerta vermelho. Ora, as ditaduras, as protoditaduras e os regimes democrático-formais parasitados por governos neopopulistas manipuladores são esses regimes. Por isso, o problema central não é a corrupção e sim a autocratização.


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