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Persiste no Brasil a crença em um salvador da pátria

Alguns dados da pesquisa Ideia Big Data, feita por telefone de 20 a 24 de abril de 2018, são preocupantes para a democracia. Não revelam muito mais do que já se sabia – inclusive por quem acompanha os levantamentos do Latinobarômetro. Em teoria, a maioria acha que a democracia é o melhor regime, mas quando confrontada com a opção de escolher um líder forte, que resolva os problemas, ou o funcionamento das instituições atuais do Estado democrático de direito, a coisa complica. Porque as pessoas pensam que a manutenção das instituições equivale à manutenção do estado atual da política. E instituições são coisas abstratas demais para a maioria.

É claro que essas pesquisas devem ser vistas com cuidado. As respostas dos entrevistados refletem sua insatisfação com a política atual (sobretudo em meio a uma algazarra midiática moralista e punitivista que passa a impressão de que todos os políticos são corruptos) e não com a democracia como modo político de administração do Estado. Perguntadas se prefeririam democracia ou tirania, praticamente todas as pessoas optariam pela primeira. Mas o problema é que a democracia como ideia não vale – em enquetes desse tipo – diante de questões muito práticas (como a satisfação ou insatisfação com a política atual).

Nenhum autocrata que tenha alcançado o poder, pela força ou pelo voto, proclamou que instauraria uma tirania: todos dizem defender a democracia, a “verdadeira democracia” e não “isso que está aí”. Mesmo Stalin e Goebbels declaravam-se favoráveis à democracia, como lembrou John Dewey no seu memorável artigo de 1937, A democracia é radical:

“Os governantes da Rússia Soviética anunciam que, com a adoção da nova constituição, pela primeira vez na história, eles criaram uma democracia. Quase ao mesmo tempo, Goebbels anuncia que o nazi-socialismo alemão é a única forma possível de democracia para o futuro. Possivelmente, há uma certa vaga aclamação  daqueles que acreditam em democracia nessas manifestações. Trata-se de algo que, após um período em que se desprezava e se ria da democracia, é agora aclamado.”

A questão é que nenhuma autocratização da democracia ocorre de uma vez: é sempre um processo, relativamente lento, de derruição de “pequenas” liberdades civis. O que é relevante saber é até que ponto as pessoas estão dispostas a abrir mão de parte de suas liberdades civis e de seus direitos políticos em nome da solução top down do que identificam como problemas, promovida por um líder autoritário que se apresente como salvador da pátria. É com isso que devemos – os democratas – nos preocupar.

No Brasil, 52% trocariam instituições fortes por um salvador da pátria

Um terço dos entrevistados pela Ideia Big Data está descontente com a democracia no Brasil

A sondagem foi feita por telefone entre os dias 20 e 24 de abril com 2005 pessoas de 93 cidades dos 27 estados brasileiros. A margem de erro é de 1,95% para mais ou para menos.

Apesar de a outra metade dos entrevistados se posicionarem de maneira contrária à ideia, os números revelam uma tendência do brasileiro de acreditar nesse tipo de discurso. O caso mais emblemático da  história recente é Getúlio Vargas, o “pai dos pobres” que comandou o país em dois momentos – a primeira vez durante 15 anos ininterruptos e, depois, por 3 anos e meio após eleições diretas.

Roberto Romano, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas, afirma que a vitória desse tipo de retórica não terminou com o suicídio de Vargas em 24 de agosto de 1954. Segundo ele, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, João Goulart, os militares, Fernando Collor de Mello e até Luiz Inácio Lula da Silva se valeram, em graus mais ou menos profundos, dessa categoria de discurso para conquistar votos ou seguidores.

“Em momentos de crise econômica, política ou religiosa, essas lideranças oferecem a esperança muitas vezes enganosa de segurança do cotidiano”, afirma. Não é por acaso que as pesquisas de intenção de voto recentes apontam um bom desempenho de candidatos mais personalistas e defensores de propostas mais palátaveis para o grande eleitorado embora de resultado incerto.

Nesse sentido, a pesquisa também revela um elevado grau de descontentamento com o estado das coisas. Apesar de 88% dos entrevistados considerarem a democracia a melhor forma de governo, um terço deles admitiu que está insatisfeito ou muito insatisfeito com o sistema hoje no Brasil. 39%, por outro lado, declarou satisfação com a democracia brasileira atual e 29% afirmou ser indiferente ao assunto.

Para 64% dos ouvidos pela Ideia Big Data, a biografia dos candidatos a algum cargo público é mais importante do que as ideias que ele apresenta. Só 4% considera o partido relevante na hora de escolher em quem votar — mais um sinal do personalismo na política brasileira.

Por outro lado, a pesquisa mostra um paradoxo no posicionamento dos entrevistados. Apesar de 52% abrirem mão da independência de instituições fortes, apenas 21% concordam que a imprensa deveria ser regulada de alguma forma. Veja os dados:


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