Llosa Populismo

, ,

Populismo: o novo inimigo da democracia liberal

O artigo de Mario Vargas Llosa sobre o populismo, em El País, é antigo: de março de 2017. Algumas de suas esperanças não se concretizaram (como a eleição de Guilhermo Lasso, no segundo turno do Equador) e outras avaliações revelaram-se incorretas (como o caráter anti-populista da luta contra a corrupção no Brasil). Além disso, Llosa confunde o nativismo com o populismo, como já mostrou Takis S. Pappas (2016), no artigo Os diferentes adversários da democracia liberal (publicado no Journal of Democracy, Volume 27, Número 4, Outubro de 2016). Pappas identifica corretamente três correntes políticas que se opõem à democracia: os antidemocratas, os nativistas e os populistas, sem confundi-las.

Pappas esclarece que os populistas não são antidemocratas – no sentido de que não se colocam contra os processos eleitorais em curso (o que é uma redução da democracia, mas vá-lá) – porém são iliberais. Como ele diz:

“O populismo, que é a contraparte e a negação do liberalismo político, é, de longe, o adversário mais ameaçador. Como demonstram pesquisas empíricas, ele prospera onde as instituições políticas — especialmente o Estado de direito e as salvaguardas de direitos de minorias — são fracas e onde a polarização e tendências majoritárias são fortes. Em tais ambientes, partidos populistas devem conseguir conquistar o poder via eleições e até mesmo se reeleger. O populismo é uma ameaça porque possui uma característica contagiante — o aparecimento e ascensão de um partido populista costuma conduzir outros partidos de um país a uma direção populista — e porque o populismo pode levar à decadência de instituições liberais e à consolidação de um sistema político iliberal. O contínuo sucesso do populismo em países como a Grécia, a Hungria e, mais recentemente, a Polônia serve de alerta a toda a Europa”.

De qualquer modo, vale a pena transcrever o artigo. É mais um na série de textos importantes sobre o populismo, que começou com A praga do populismo, de Enrique Krauze (2006), passou pelo Manual do populismo, de Moisés Naím (2017), até chegar ao meu Decifrando a via neopopulista (2017).

Cito o meu próprio artigo porque ele faz outra distinção importante entre o populismo, vamos dizer, clássico, e o neopopulismo latino-americano. Sim, não são exatamente a mesma coisa: correntes populistas, como o chavismo, o evoismo, o correismo, o sandinismo de segunda geração, o lulopetismo – e todos os bolivarianismos (chamados de “socialismo do século 21”)  – revelam-se também, a partir de algum momento, antidemocráticas, mas não no sentido de que recusam o jogo eleitoral e sim no sentido de que usam as eleições contra a democracia, transformando os regimes que parasitam em ditaduras (como estamos vendo acontecer na Venezuela).

Agora vem o do Mario Vargas Llosa, reproduzido abaixo na íntegra.

O novo inimigo

Mario Vargas Llosa, El País, 05/03/2017

O principal inimigo da democracia liberal – da liberdade – já não é o comunismo, mas o populismo. O primeiro deixou de ser quando a União Soviética desapareceu, por sua incapacidade de resolver os problemas econômicos e sociais mais elementares, e quando (pelos mesmos motivos) a China se transformou num regime capitalista autoritário. Os países comunistas que sobrevivem – Cuba, Coreia do Norte e Venezuela – encontram-se num estado tão calamitoso que dificilmente poderiam ser um modelo, como parecia ser o caso da URSS, para tirar uma sociedade da pobreza e do subdesenvolvimento. O comunismo é agora uma ideologia residual, e os seus seguidores, grupos e grupelhos, estão à margem da vida política das nações.

Mas, ao contrário do que muitos de nós pensávamos – que o desaparecimento do comunismo reforçaria a democracia liberal e a estenderia pelo mundo –, surgiu a ameaça populista. Não se trata de uma ideologia, e sim de uma epidemia viral – no sentido mais tóxico da palavra – que ataca igualmente os países desenvolvidos e os atrasados, adotando máscaras diversas para cada caso, do esquerdismo no Terceiro Mundo ao direitismo no Primeiro. Nem sequer os países de tradições democráticas mais arraigadas, como Grã-Bretanha, França, Holanda e Estados Unidos, estão vacinados contra essa doença. Provas disso são o triunfo do Brexit [a saída do Reino Unido da União Europeia], a presidência de Donald Trump, a liderança da formação de Geert Wilders – o Partido da Liberdade (PVV) – nas pesquisas para as próximas eleições holandesas e da Frente Nacional de Marine Le Pen nas francesas.

O que é o populismo? Acima de tudo, uma política irresponsável e demagógica de governantes que não hesitam em sacrificar o futuro de uma sociedade por um presente efêmero. Por exemplo, estatizando empresas, congelando os preços e aumentando os salários, como fez no Peru o presidente Alan García durante seu primeiro mandato, gerando uma bonança momentânea que disparou sua popularidade. Depois viria uma hiperinflação que esteve a ponto de destruir a estrutura produtiva de um país, empobrecido por tais políticas de maneira brutal. (Aprendida a lição à custa do povo peruano, Alan García desenvolveu uma política bastante sensata no segundo mandato).

Um ingrediente central do populismo é o nacionalismo, fonte, depois da religião, das guerras mais mortíferas que se abateram sobre a humanidade. Trump promete aos eleitores que a “América será grande de novo” e que “voltará a ganhar guerras”; os EUA já não serão explorados pela China, pela Europa ou por qualquer país, porque agora seus interesses prevalecerão sobre os de todas as nações. Os partidários do Brexit – eu estava em Londres e ouvi, estupefato, a saraivada de mentiras chauvinistas e xenofóbicas propalada na TV por pessoas como Boris Johnson e Nigel Farage, o líder do Partido da Independência do Reino Unido (UKIP) durante a campanha – ganharam o referendo proclamando que, ao sair da UE, o Reino Unido teria de volta a soberania e a liberdade, agora submetidas aos burocratas de Bruxelas.

Inseparável do nacionalismo é o racismo, que se manifesta sobretudo buscando bodes expiatórios, culpando-os de tudo o que dá errado no país. Atualmente, os imigrantes negros e os muçulmanos são as vítimas do populismo no Ocidente. Os mexicanos, por exemplo, foram acusados pelo presidente Trump de serem estupradores, ladrões e narcotraficantes. Já os árabes e africanos são acusados por Geert Wilders na Holanda e Marine Le Pen na França, ou mesmo por Viktor Orbán na Hungria e Beata Szydlo na Polônia, de roubar o trabalho dos nativos, abusar da seguridade social e degradar a educação pública, entre outras coisas.

Na América Latina, os Governos de Rafael Correa no Equador, do comandante Daniel Ortega na Nicarágua e de Evo Morales na Bolívia se orgulham de serem anti-imperialistas e socialistas, mas, na verdade, são a própria encarnação do populismo. Os três são cautelosos na hora de aplicar as receitas comunistas de nacionalizações em massa, coletivismo e estatismo econômico, pois, com melhor olfato que o do iletrado Nicolás Maduro, sabem que tais políticas provocam desastres. Apoiam Cuba e Venezuela em voz alta, mas não as imitam. Praticam, mais propriamente, o mercantilismo de Putin (ou seja, o capitalismo corrupto dos cúmplices), estabelecendo alianças mafiosas com empresários servis, que são favorecidos com privilégios e monopólios, desde que sejam submissos ao poder e paguem as comissões adequadas. Todos eles consideram, como o ultraconservador Trump, que a imprensa livre é o pior inimigo do progresso e criaram sistemas de controle, direto ou indireto, para solapá-la. Nisso Correa foi mais longe que qualquer outro: aprovou a lei de imprensa mais antidemocrática da história da América Latina. Trump ainda não aprovou a sua, pois a liberdade de imprensa é um direito profundamente arraigado nos EUA, e um ato dessa natureza provocaria uma enorme reação negativa das instituições e da população. Mas não se pode descartar que, mais cedo ou mais tarde, ele tome medidas que – como na Nicarágua sandinista e na Bolívia de Morales – restrinjam e desnaturalizem a liberdade de expressão.

O populismo tem uma tradição muito antiga, embora nunca tenha alcançado a magnitude atual. Uma das maiores dificuldades para combatê-lo é que apela aos instintos mais puros dos seres humanos: o espírito tribal, a desconfiança e o medo do outro – seja de raça, língua ou religião diferente –, além da xenofobia, do patriotismo exagerado, da ignorância. Observamos isso de maneira dramática nos EUA de hoje. A divisão política no país nunca foi tão grande, e a linha divisória jamais foi tão clara: de um lado, toda a América culta, cosmopolita, educada, moderna; do outro, a mais primitiva, isolada, provinciana, que vê com desconfiança ou pânico a abertura de fronteiras, a revolução das comunicações, a globalização. O populismo frenético de Trump a convenceu de que é possível parar o tempo, retroceder a esse mundo supostamente feliz e previsível, sem riscos para os brancos e cristãos, que foram os EUA dos anos cinquenta e sessenta. Despertar dessa ilusão será traumático e, infelizmente, não só para o país de Washington e Lincoln, mas também para o resto do mundo.

Pode-se combater o populismo? Claro que sim. É o caso dos brasileiros que fazem uma formidável mobilização contra a corrupção. Dos norte-americanos que resistem às políticas demenciais de Trump. Dos equatorianos que acabam de impor uma derrota aos planos de Correa, votando por um segundo turno que poderia dar a vitória a Guillermo Lasso, um democrata genuíno. E dos bolivianos que derrotaram Morales no referendo com o qual pretendia se reeleger por séculos. Também dão exemplo os venezuelanos que, apesar da selvagem repressão da ditadura narcopopulista de Maduro, continuam lutando pela liberdade. Mas a derrota definitiva do populismo, como aconteceu com o comunismo, será fruto da realidade, do fracasso traumático de políticas irresponsáveis que agravarão todos os problemas sociais e econômicos dos países ingênuos que se renderam ao seu feitiço.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Deixe uma resposta

Loading…

Deixe seu comentário