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Por que a novela Lula não acabou: uma análise do ponto de vista das redes

Certas consciências ainda assombradas pelos demônios do esquerdismo que as habitaram na juventude – ou seja, das ideias-implante autocráticas que continuam rodando como um programa em segundo plano no subsolo das suas cabeças – querem sulcar a versão de que existe o petismo e o antipetismo e que elas, racionais e esclarecidas, estariam fora disso. Não há, entretanto, essa categoria “antipetismo”.

Há, de fato, um bolsonarismo, que é antipetista e antidemocrático. Mas a imensa maioria das pessoas que se opõem ao lulopetismo não é bolsonarista, não é antidemocrática. Essas pessoas – somos nós – não se enquadram nessa falsa categoria (que é falsa porque não existe nenhuma organicidade interna que permita a inclusão de quem não concorda com Lula e com o PT no mesmo conjunto). As pessoas não são burras. Elas pensam e concluem que o PT é uma calamidade para o Brasil. Elas preferem a democracia (e rejeitam, com a mesma convicção, o lulopetismo e o bolsonarismo).

Ao criarem a categoria “antipetismo” para nela enquadrar os que não estão de acordo com o projeto autocratizante da esquerda petista (ou hegemonizada pelo PT), até mesmo marxistas como Pablo Ortellado fazem apenas a mágica de sumir com a crítica democrática. Ora, os democratas não são antipetistas porque são anticomunistas (como os bolsonaristas e olavistas), conservadores nos costumes (meio ridículos, como o autor os pinta) ou moralistas e sim porque o PT é antidemocrático. Trata-se de uma análise para falsificar a realidade.

Conservadores, liberais-conservadores, liberais-econômicos e liberais-políticos (quer dizer, democratas) discordam do lulopetismo por motivos diversos. Existem até mesmo adeptos de doutrinas minoritárias, hoje quase vestigiais – como os anarquistas (não-marxistas) e os libertários e libertarianistas (anarco-capitalistas ou não) – que se opõem ao lulopetismo.

De modo geral, porém, quase todos os outros seguidores e admiradores de doutrinas políticas estatistas, aderiram ao lulopetismo, que é apenas a forma brasileira do neopopulismo reflorescente na América Latina. Praticamente todos os grupos de base marxista (o que se chama, na prática, de esquerda) estão com o lulopetismo, não porque todos concordem com o PT e sim porque todos acham que Lula é um atalho providencial, quer dizer, é o caminho para saltar o fosso entre seus reduzidos clusters e a sociedade.

Sem Lula, a esquerda jamais teria chegado ao governo no Brasil. E a esquerda não-petista sabe-o bem: uma prova disso é que partidos que foram expulsos do PT ou que saíram do PT porque divergiram da sua linha de atuação pontificaram como os mais exaltados na reduzida manifestação militante em torno do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, para resistir à ordem de prisão de Lula. Ou seja, até a esquerda que rejeita o PT, quer o Lula como símbolo, como ídolo, como mito, capaz de mesmerizar as massas.

Até aqui temos uma interpretação política. Mas dando um passo adiante na análise é preciso ver por que, em termos sociais (stricto sensu), isso acontece.

OLHANDO O QUE ESTÁ ACONTECENDO DO PONTO DE VISTA DAS REDES

Um líder populista, com alta gravitatem, cria uma espécie de buraco negro no campo social. Deforma de tal maneira a configuração do campo que é capaz não apenas de centralizar as redes sociais existentes (não as mídias sociais, como Facebook e Twitter e sim as redes de pessoas interagindo por qualquer meio), mas de sugar inclusive as hierarquias: organizações e partidos que divergiram do PT (como PSOL, PCO), velhas caciquias (como as de Sarney, Jader, Eunício, Jovair e de todos que lamentaram a injustiça da prisão de Lula), tribunais (como parte do STF) e, inclusive, igrejas (como se vê pelo discurso dos bispos e outros prelados católicos presentes na “missa negra” do 7 de abril de 2018 em São Bernardo). Tudo é consumido pelo buraco negro da manipuladura.

Eis uma imagem da deformação no campo (em foto de Francisco Proner, de 18 anos, feita na frente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC no dia 7 de abril de 2018), sobre a qual Renato Jannuzzi colocou a legenda: “Esta é melhor foto que eu vi até hoje que captura um instantâneo da deformação do campo social causada pela alta gravitatem de uma pessoa. Em comparação com uma rede neural, não existe sinapse com este padrão. Não tem um neurônio que, a partir dele, o cérebro responda!”

Não se pense que este efeito deformador não poderá se transmitir para outras regiões do campo, alterando subterraneamente os fluxos interativos da convivência social.

Lembra a rainha Daenerys Targaryen, na cena final da terceira temporada de Game of Thrones: esse tipo de deformação do campo é própria da autocracia, quer dizer, leva à guerra (não à política):

O fenômeno é comum em autocracias: na foto abaixo, o ditador norte-coreano Kim Jong Un sorri enquanto uma multidão o rodeia durante visita a uma fábrica têxtil em Pyongyang, em 20/12/2014.

Em termos eleitorais, os 20% que o PT não quer perder (e por isso não pode perder Lula) podem ser ou não ser tão relevantes Mas em termos de rede são mais do que suficientes para desencadear fenômenos interativos capazes de mudar o comportamento dos agentes do sistema. Bastaria, aliás, muito menos do que isso, bastariam 10% – dependendo de onde estão e de como se comportam esses 10%. Se estão clusterizados, com poucos atalhos, em regiões de pobreza (por exemplo, nos bolsões do Bolsa Família), sua potência detonadora de dinâmicas inusitadas, modificadoras dos comportamentos dos agentes na rede será menor. Se estão disseminados em vários clusters de alta visibilidade – como os meios artísticos e culturais, as universidades, os meios de comunicação, as ONGs, os sindicatos, centrais e associações profissionais, os ditos movimentos sociais, as grandes bancas de advocacia e em certas instituições estatais (como o Ministério Público, o judiciário e os governos estaduais e municipais) – sua capacidade de influenciar setores mais amplos será maior. A rigor, dependendo da configuração geral do campo, até mesmo 1% poderia ser significativo.

Pois bem. Até agora, pelo menos, apesar de Lula já estar preso (não se sabe até quando), a influência do lulismo não decresceu nos clusters mencionados acima. Pelo contrário, aumentou. E a força gravitacional de Lula é ainda capaz de mover corpos decisivos que viabilizem sua soltura (ou sua prisão domiciliar, o que pode ser quase a mesma coisa). Esses corpos, porém, não serão apenas ou principalmente de militantes petistas ou de outros partidos aliados-subordinados, não serão de esquerdistas e sim de políticos e juízes tradicionais, alguns até anti-esquerdistas. O lulopetismo, como sabemos, faz política (a realpolitk) não com seus aderentes e aliados, mas com seus adversários e inimigos, explorando interesses cruzados, convergentes, divergentes e, inclusive, colidentes dos que, por alguma razão, preferem manter o establishment do que entrar na aventura incerta de alterá-lo (correndo o risco de fortalecer forças disruptivas e abertamente autocratizantes, como o bolsonarismo – e não se trata aqui do oportunista eleitoreiro Bolsonaro, que sempre integrou o sistema, mas da turbamulta vil de seus fanáticos).

As propostas de frente contra o fascismo (de direita) veiculadas por dirigentes petistas podem acabar atraindo parte dos conservadores, dos liberais-conservadores, dos liberais-econômicos e até mesmo de democratas-formais, diante do perigo maior. É claro que não há propriamente um fascismo a ser enfrentado agora e até mesmo um dirigente do PSTU, Gustavo Lopes Machado, mostrou isso em recente artigo (de 02/04/2018) intitulado Não é avanço do fascismo que está acontecendo no Brasil. Mais intelectualizado do que a média dos grupos esquerdistas, o PSTU entendeu que se trata apenas de uma política do PT para continuar mantendo sua hegemonia sobre a esquerda.

Mas os caciques da velha política e seus aliados nos aparatos judiciais do Estado não são vulneráveis a análises desse tipo. Eles querem poder continuar praticando a política e auferindo suas benesses do modo como sempre fizeram. Lula, para eles, é a garantia de que nada vai mudar, posto que sua “lógica” é a mesma. É um grande coronel capaz de agasalhar sob suas asas os pequenos e médios coronéis regionais e locais. Como na Arábia Saudita, os chefetes locais querem continuar sendo senhores nos seus pedaços (e por isso foram a base inicial da base – a Al Qaeda – e financiaram o jihadismo sunita de Osama Bin Laden: contra as forças centrífugas da globalização).

Ou seja, a novela Lula não acabou porque o sistema precisa de um polarizador. Lula é funcional para mantê-lo. Como declarou um cacique regional de Goiás, do PTB, “só ele pode colocar ordem na casa”. Sabemos bem de que “ordem” ele estava falando.

Voltemos, porém, à análise de rede.

Para se manter tal como está configurada, a rede precisa de uma forte deformação no campo. E não há nenhuma força capaz de mudar essa configuração dentro de próprio sistema. Um candidato do PSDB ou do MDB, eleito em 2018, não será capaz de fazê-lo porque sua forças de apoio ainda se alimentam do sistema. Um candidato alternativo mais próximo do chamado centro democrático (seja lá o que for), não será capaz de fazê-lo, seja por falta de tempo (tempo cronológico mesmo, kronos e tempo-de-fazer, kairós), seja em razão da sua impotência para atrair forças sociais significativas (não existe uma liderança carismática emergente para criar um buraco branco que neutralize o buraco negro – mesmo porque não é assim que explosões criativas ou bombas-gama acontecem – e na base do convencimento racional é impossível, no curto prazo, conquistar multidões eleitorais significativas).

Para mudar a morfologia e a dinâmica que ainda prevalecem, somente a emergência de outra dinâmica, bottom up, que parta da sociedade (e não do Estado); ou seja, somente as ruas, pelos motivos que já foram expostos no artigo O que são as ruas. Só as ruas podem mudar a configuração do campo, anulando os creodos que já estão sulcados, alterando subterraneamente a trajetória dos fluxos interativos que tornam o futuro dependente de passado.

Por isso são tão importantes agora as manifestações sociais contra as manobras para soltar Lula. Não tem nada a ver com o fato de Lula ser corrupto (como pensam os moralistas – até porque a prisão de Lula vai fazer renascer cruzadas antidemocráticas de limpeza do mundo contra todos os corruptos e o que mais se ouvirá daqui pra frente é a pergunta: “E o Aécio, por que está solto?”).

Isso não tem nada a ver com anti-lulismo (ou anti-petismo): Lula é perigoso não porque roubou: se fosse honesto seria mil vezes pior. Ele é perigoso porque está deformando o campo social de um modo que impede qualquer mudança e porque o lulopetismo não morreu com a prisão de Lula. Até porque a organização política criminosa que ele chefia permanece praticamente intacta, só tendo no momento dois dirigentes do seu núcleo duro presos em regime fechado: ele próprio, Lula e João Vaccari. É perigoso porque o lulopetismo pode voltar ao governo para concluir o seu projeto neopopulista de usar a democracia contra a democracia para conquistar hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido com o fito de nunca mais sair do governo (ganhando tempo suficiente para alterar o DNA da nossa democracia).


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