in ,

Por que as pessoas não foram às ruas, nem contra, nem a favor, no julgamento de Lula

Pronto. Temos agora um excelente exemplo para mostrar que tanto petistas, quanto não-petistas (ou anti-petistas), não entenderam bem o que significa a expressão “as ruas”.

“As ruas” passou a ser uma expressão muita usada, no Brasil e em outros países, depois dos grandes swarmings deste século, como o 11M (2004) em Madri, a Primavera Árabe, em especial o 11F (2011) no Cairo, o 17S (2011) no Zucotti Park em Nova Iorque, o 30J (2013) em todas as cidades do Egito, a Revolução dos Guarda-Chuvas (2014) em Hong Kong – para citar apenas alguns exemplos. Na Turquia e no Brasil, os eventos característicos desse novo tipo de manifestação social ocorreram em junho de 2013.

Todos esses foram eventos convocados por vários grupos, mas não propriamente organizados centralizadamente por esses grupos de modo tradicional (com manifestantes arrebanhados, acarreados e, até, alugados, como nos eventos da CUT, do MST, do MTST ou do PT).

O lulopetismo ainda não entendeu o 2013. Sentiu o choque (a perda do monopólio das ruas), mas não soube interpretar o fenômeno interativo. Então, quando os petistas falam que vão para as ruas, é pura bravata ou ignorância. Podem juntar meia centena de pelegos para queimar pneus, mas não podem constelar multidões.

Os que se opõem ao lulopetismo, e que convocaram as grandes manifestações políticas pelo impeachment de Dilma Rousseff – sobretudo em 15 de março, 12 de abril, 16 de agosto de 2015 e 13 de março de 2016 – também não entenderam bem o que aconteceu, nem em 2013, nem nesses próprios eventos de 2015 e 2016 que se esforçaram por organizar. Como em algumas das manifestações pelo impeachment, mencionadas acima, houve de fato a afluência de multidões, numa dinâmica altamente interativa, os grupos que as convocaram atribuíram-se o papel de responsáveis pelo ocorrido. Sim, as pessoas comuns compareceram, mas não estavam nem aí para os que se achavam os bam-bam-bans do pedaço.

Ora, multidões consteladas nas praças e ruas de todo o país não poderiam ter sido conduzidas por grupos minúsculos, formados em torno de meia dúzia de lideranças meio  desconhecidas, cada qual com seu carro de som, seus cartazes e suas bandeiras (tudo bobagem, tudo desnecessário: verdadeiros swarmings dispensam esses recursos – as pessoas vão com suas próprias pernas, levando seus próprios cartazes).

Houve realmente alguma coisa que escapou das convocatórias centralizadas e que transbordou por efervescência. Uma fenomenologia da interação, até então pouco conhecida, se manifestou. Miríades de micro-inputs se combinaram de um modo que não poderia ser previsto, muito menos planejado, pelos supostos organizadores. Esta é a dinâmica do enxameamento, de pessoas ou seres vivos ou não-vivos self-propelled: é o flocking, o shoaling, o herding observados em comportamentos coletivos de insetos, peixes e quadrúpedes ou mesmo em nuvens de nanopartículas ou drones.

Tal como os petistas, os grupos que se opuseram ao PT, não entenderam nada disso. Não viram que esses fenômenos ocorrem quando poderosas correntes subterrâneas do fluxo interativo da convivência social vêm à tona por algum motivo desconhecido (ou por uma conjunção particularíssima de vários fatores), raramente pelo esforço concentrado de convocá-las ou pela vontade de invocá-las.

Em 11 de julho de 2013, querendo dar uma resposta às mega-manifestações de junho, Lula e o PT acionaram o movimento sindical pelego para mostrar ao país de quem eram as ruas. Foi o maior fiasco da história. Nem o pagamento de diárias aos militantes conduzidos por ônibus e caminhões e a distribuição de bonés, camisetas, sanduíches de mortadela com tubaína, conseguiu lotar qualquer grande avenida em alguma capital do Brasil.

Neste janeiro de 2018, querendo mostrar que ainda tinha a força do povo ao seu lado, o PT, o movimento sindical pelego e os movimentos sociais que atuam como correias de transmissão do PT ou da esquerda aliada, recalcitraram. Avaliaram que diante do seu apelo desesperado, as pessoas encheriam ruas e praças, pelo menos em Curitiba e São Paulo, em defesa de Lula e contra o golpe das elites (via judiciário). Novamente, foi um fiasco.

Um fiasco semelhante ao de 2013. Um fiasco semelhante ao de 2016. Dilma sofreu impeachment, mas o povo não foi às ruas protestar contra o suposto golpe. Só apareceram os militantes de sempre, devidamente fardados, lembrando – até na estética – as manifestações oficiais de Maduro contra a oposição golpista venezuelana (que inundou as ruas de Caracas e outras cidades a partir de janeiro de 2014). Lá e aqui o que se viu foi um grupinho de vermelhos, comandados por seus chefes de sempre, platéia cativa para fazer número, pular como pipoca e babar embaixo dos palanques dos líderes de sempre. As pessoas comuns não estavam nem aí.

O diabo é que os grupos que convocaram manifestações a favor da condenação e da prisão de Lula neste janeiro de 2018, obtiveram resultados semelhantes. As pessoas comuns, igualmente, não estavam nem aí.

Mesmo diante de todas essas evidências, o pessoal não aprende. Condenado pela segunda vez, Lula e o PT continuam prometendo incendiar o país. Haja pneu velho!

Não, não são “as ruas”, muito menos o medo de uma rebelião popular, que ainda seguram Lula. São os velhos caciques políticos tradicionais, que imaginam que só Lula poderá protegê-los da justiça ou do descontentamento popular e mantê-los na condição de caciques. Por isso que o PT é hoje o fulcro da velha política no Brasil.

Caso insistam em promover um acordo para fraudar a lei da ficha limpa ou reformar a decisão do STF que faculta a prisão após julgamento em segunda instância, os caciques da velha política podem ter uma desagradável surpresa vinda… das ruas. Mas isso não é certo, nem depende das convocações dos grupos que se afastaram da fonte da sua força e legitimidade: as ruas, quer dizer, a sociedade e quiseram instrumentalizar os verdadeiros movimentos sociais que eclodiram como plataforma de lançamento para o planalto.

Com efeito, uma parte desses grupos, de viés antidemocrático (por exemplo, aqueles que carregavam cartazes pré-fabricados com os ridículos dizeres “Olavo tem razão”, aqueles que defenderam intervenção militar, aqueles que desfraldaram bandeiras retrógradas monarquistas, aqueles que se proclamaram defensores de Deus, da Pátria e da Família) aderiu ao bolsonarismo. Passaram a ser cabos eleitorais do capitão Jair Bolsonaro (o único não-político do mundo com sete mandatos parlamentares consecutivos).

Outra parte flertou abertamente com o jacobinismo dos procuradores da Lava Jato, aproveitando-se do substrato moralista decantado no subsolo da consciência popular para tentar emplacar um mal-sucedido Fora Temer. Mas as pessoas comuns assobiaram e andaram para qualquer Fora Temer. Todos os Fora Temer – o original petista, os dos jacobinos, os dos oportunistas e antagonistas – foram sem povo.

E outra parte, ainda, resolveu se constituir como uma espécie de partido ideológico, dedicando-se à guerra de valores contra o marxismo cultural (uma invenção da alt-right trumpista) e como uma espécie de para-partido entrista, querendo eleger seus candidatos por várias legendas.

Essas derivas espertas e manipuladoras não foram aceitas pelas pessoas comuns, que parecem não estar dispostas a se mobilizar para botar azeitona na empada de nenhum desses grupos.

De que mais evidências eles precisam para entender que a velha violação das massas pela propaganda política não é mais possível no dealbar de uma sociedade-em-rede, ou seja, que não é mais possível manipular e mistificar uma sociedade altamente conectada e interativa?


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Deixe uma resposta

Loading…

Deixe seu comentário

O jogo não acabou com a condenação de Lula em segunda instância

O que a análise política pode revelar