Vespa Dagobah

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Por que as ruas têm que continuar falando

Se as pessoas não continuarem nas ruas após o impeachment, o PT prosseguirá ameaçando a democracia
 
Se “só restar na rua o barulho dos que cospem no estado de direito” (usei uma frase do Reinaldo Azevedo em outro contexto), então é sinal de que, mesmo o PT tendo sido apeado constitucionalmente do poder, o seu projeto vai continuar assombrando a democracia.
 
Há aqui um divisor de águas (a expressão é ruim neste momento em que se investe tanto na divisão da sociedade, mas vá-lá). Tem gente que acha que, derrubado o governo Dilma, agora é hora de unir forças em torno da parcela da institucionalidade não degenerada pelo PT para tirar o país do atoleiro e seguir adiante. Mas não é disso que se trata, de um ponto de vista democrático.
 
O sistema político apodreceu como um todo e não pode ser reformado por dentro, nem com a cantilena ingênua e inócua de que “precisamos escolher bem os nossos representantes” (como pensa a turma que apreende a democracia dos modernos como se ainda estivéssemos em uma sociedade do século 17). As eleições não podem corrigir os defeitos do sistema representativo, pois eles repousam, justamente, na falha genética que permite que elas (as eleições) sejam usadas contra a democracia. É aquela famosa pergunta de Ralph (Dahrendorf): “E se os caras errados são eleitos?”. Sir Ralph dizia, em meados da década de 1990 – e com razão – que neste caso não há a quem apelar a não ser à sociedade civil. Aliás, foi desse erro estrutural da democracia realmente existente que os lulopetistas (e parte da esquerda autocrática latino-americana) se aproveitaram para parasitar os regimes democráticos formais com o intuito de enfrear substantivamente o processo de democratização.
 
Cabe à nova sociedade civil – ou à rede social (a rede mesmo, não as mídias interativas digitais) – impedir que o sistema, passado o susto, se recicle sem se modificar substantivamente. E os sinais são de que isso pode acontecer: todos os proto-candidatos dos partidos tradicionais à presidência em 2018 são rejeitados por mais de 50% dos eleitores, sejam do PT (como Lula, que não será realmente candidato), sejam do PSDB. Diante de tal evidência, porém, a saída não é, como pensam os espertos esquerdistas que se aliaram oportunisticamente à Marina (incluindo ela própria), a candidatura de um “novo” player, alguém disfarçado de “eu não tenho nada a ver com esse sistema político que apodreceu”. Pode até acontecer que um corredor por fora alcance a vitória eleitoral no próximo pleito. Mas, feito isso, ele – seja quem for e a despeito do que declare – será absorvido e incorporado pelo sistema. Então o que era (aparentemente) “de fora” passará a ser “de dentro”.
 
Seja quem for. Ademais, no nosso caso concreto, uma Marina eleita preservará – tanto in vitro (ou na cabeça dos novos dirigentes), como em in situ (nas organizações da sociedade onde o PT se enraizou) – o DNA dos partidos estatistas (como o próprio PT, o PSOL, o PCdoB e outros menores). Ou alguém acha que ela irá remover os germoplasmas autoritários das centrais, sindicatos e associações profissionais, dos chamados movimentos sociais, das ONGs, da rede suja de veículos de comunicação “alternativos”, dos bunkers universitários (nas áreas de humanas) e dos escritórios de advocacia da linha Thomaz Bastos? E se isso acontecer, aquilo que chamamos de “projeto do PT” (mas que é um projeto mais amplo, pois na verdade se trata de um comportamento político estatista que pode ser conceituado como neopopulismo, cuja variante no Brasil foi o lulopetismo, na Argentina (em parte) o kirshnerismo, na Venezuela o chavismo, na Bolívia, no Equador e na Nicarágua, respectivamente, o evoismo, o correismo e o segundo sandinismo ou o sandinismo modificado para se adaptar à via eleitoral) sobreviverá com poder suficiente para continuar ameaçando a democracia.
 
É preciso entender que todos esses neopopulismos, variantes do estatismo da esquerda contemporânea que adotou instrumentalmente a via eleitoral, não querem reformar o velho sistema político para torná-lo mais democrático. Antes, querem parasitá-lo, se alimentar dele para crescer no seu interior, como aquela vespa parasitóide (a hymenoepimecis argyraphaga: ver imagem) que deposita seus ovos dentro da aranha (plesiometa argyra) e que, de alguma forma, controla a mente da aranha (ou a reprograma), que passa então a construir teias especialmente preparadas para receber as larvas que nascerão e para mantê-las seguras (até que, quando estão prontas, as larvas devoram a aranha de dentro para fora, saindo do corpo da hospedeira e se aproveitando da casa que ela construiu). Vale a pena refletir um pouco sobre essa – como diremos? – metáfora!
 
O fato é que, entregue a si mesmo, o velho sistema representativo tenderá a se reciclar para continuar no controle. A não ser que…
 
A não ser que as pessoas continuem – autonomamente, como têm feito, no Brasil, de 2013 para cá – pressionando de fora para dentro. Em todos os lugares, inclusive nas mídias sociais e, sobretudo, nas ruas.
 
Não é que se deva ignorar a institucionalidade existente, recusar a “marcha por dentro das instituições” (como se dizia na Europa na segunda metade do século passado), pregar o voto nulo e entregar-se à ação direta e disruptiva de contestação do sistema. Não! Sem a democracia que temos não podemos chegar às democracias que queremos (não existe uma via capaz de nos levar à mais democracia passando por ditaduras ou por fora do Estado de direito). Assim, a institucionalidade que temos deve ser preservada, as pessoas continuarão votando nos candidatos que acharem melhores (ou se abstendo, ou anulando seu voto, se bem que em número crescente, como ocorre hoje em todo mundo) e a legalidade (a constitucionalidade) continuarão vigendo e caracterizando formalmente um Estado democrático de direito. O que não se pode é fazer escoar todas as energias políticas da sociedade para dentro das instituições, como se tudo que aconteceu e continua acontecendo na rede social não passasse de escada para que atores desse sistema, portadores de uma nova narrativa (inclusive da mentira de que não fazem parte do sistema), consigam chegar ao poder.
 
Não foi a oposição “por dentro”, a oposição formal, partidária, que colocou na ordem do dia o impeachment e está também exigindo a prisão do capo di tutti i capi (o chefe da máfia no poder) e a cassação do registro do Partido dos Trabalhadores. Não foram os atores do sistema (como os tucanos), nem os atores do sistema disfarçados de atores fora do sistema (como Marina), que tomaram a decisão de remover o PT do governo e que criaram as condições objetivas e subjetivas para tanto. Eles vieram a reboque, alguns relutando e, outros, ainda resistindo e sabotando (como a própria Marina e os oportunistas esquerdistas que se homiziaram na sua falsa rede). E não serão estes atores que farão as tais reformas no velho sistema político. A não ser que…
 
A não ser que as ruas continuem falando. A não ser que as ruas não sejam ocupadas somente pela turma da mortadela ou dos “que cospem no estado de direito” (porque estes últimos – estes sim – são apenas rebanhos instrumentalizados para promover a chegada ao poder de líderes estatistas, hierárquicos e autocráticos, que no fundo não acreditam na autonomia da sociedade civil e querem matar a rede social para poderem viver da vampirização da energia política das pessoas).

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