anticomunistas

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Por que comunistas e anticomunistas não podem ser democratas

Comunistas e anticomunistas são produtos da guerra fria. Ficaram igualmente congelados em algum lugar do passado. Por isso se diz que não há nada mais parecido com um comunista do que um anticomunista.

É claro que se pode ser contra o comunismo (a ideologia estatista-igualitarista, em parte baseada nos escritos de Marx) sem ser anticomunista (a ideologia conservadora e até certo ponto necrófila que se estruturou a partir da guerra fria).

Democratas são contra o comunismo, mas não podem ser anticomunistas.

Democratas são contra todos os estatismos (já que todo estatismo é autocrático), inclusive contra os estatismos classificados (pela esquerda) como “de direita”, conservadores, reacionários, contrarrevolucionários, que querem caçar comunistas (como presenciamos no século passado nos regimes dirigidos por Franco, Salazar, Médici e Frota, Pinochet, Videla e Galtieri, Bordaberry e Méndez: sim, todos eles eram anticomunistas estatistas).

Mas democratas também são contra os estatismos ditos “de esquerda” (como também presenciamos no século passado com a URSS e seus satélites, Cuba, China, Coreia do Norte e mais duas dezenas de regimes ditatoriais considerados revolucionários e, neste século, com o bolivarianismo de Chávez e Maduro, Evo, Correa e Ortega e com o populismo dos Kirchners, de Lula e Dilma, de Mujica e Vásquez e, talvez, de Funes e Cerén).

Ditadores 2

Além disso, democratas são contra os estatismos expansionistas ou pró-imperiais, sem coloração ideológica muito definida, que querem reeditar a guerra fria e a política de blocos que declinou em 1991 com a bancarrota da URSS, como o de Putin na Rússia.

Por último, democratas são contra os estatismos baseados em fundamentalismos religiosos, vigentes sobretudo nos regimes sob a influência do islamismo: no Afeganistão, na Arábia Saudita, na Argélia, no Azerbaidjão, em Barein, em Brunei, em Burkina Faso, no Cazaquistão, no Chade, em Comoros, na Costa do Marfim, em Djibuti, nos Emirados Árabes Unidos, na Eritreia, na Gâmbia, na Guiné, no Irã, na Jordânia, na Líbia, em Marrocos, na Nigéria, em Omã, na Faixa de Gaza sob o controle do Hamas, no Qatar, na Síria, na Somália, no Sudão, no Turcomenistão, no Uzbequistão e no Yemen. E agora, infelizmente, na Turquia. Sim, todos esses regimes são estatistas, subordinam (ou querem subordinar) seus povos à sharia ministrada a partir do Estado, instalam teocracias (autocracias fortemente centralizadas) ou sonham com um califado (que não passa de um Estado capaz de dominar uma extensa região do mundo ou o mundo todo).

Para resumir, podemos dizer – se isso não fosse óbvio, posto que faz parte da própria definição “genética” de democracia como processo de desconstituição de autocracia – que democratas são contra ditaduras, protoditaduras (regimes em processo de autocratização) e democracias formais parasitadas por governos populistas ou neopopulistas manipuladores de viés estatista (sim, o populismo é um estatismo).

Ou seja, democratas são contra quaisquer estatismos. O estatismo é um comportamento político que se caracteriza por uma desvalorização da racionalidade da sociedade (julgada, não raro, inexistente ou apenas um epifenômeno) em relação à racionalidade do Estado (para o estatismo a sociedade uma espécie de dominium do Estado, quase no sentido feudal do termo) e por uma desconfiança na capacidade de autorregulação do mercado.

O estatismo é um estadocentrismo. Mas o problema (que os liberais não percebem) é que o estatismo não se opõe apenas ao mercadocentrismo (a atribuição ao mercado de um papel regulador não apenas da economia, mas da sociedade: o que é um transbordamento ou um deslizamento da regulação que funciona em um campo de eventos para outro campo de eventos, regidos por lógicas distintas) e sim à autonomia da sociedade, à sua subsistência por si mesmo, com racionalidade própria (e não derivada ou emprestada do Estado ou do mercado) e é por isso, fundamentalmente, que todo estatismo é antidemocrático: não porque seja contra uma impossível regulação mercantil da sociedade (já que é a economia que tem ser de mercado, não a sociedade) e sim porque é contra uma regulação social (ou societária) da sociedade. Sem uma regulação social da sociedade não poderia ter surgido a democracia, de vez que a pólis não era a cidade-Estado e sim a koinonia (a comunidade) política e que a pólis – como sacou genialmente Johanna Arendt – não era Atenas (a entidade abstrata, o Estado) e sim os atenienses (a rede concreta de pessoas que geraram a democracia por meio das suas conversações na Ágora, uma praça publicizada, tornada, pela interação dos atenienses livres, um espaço público, quer dizer, não privatizado pelo autocrata).

Mas como todos os estatismos são guerreiros, posto que todas as formas conhecidas de Estado nasceram da guerra, inclusive a última forma Estado-nação, também ela um fruto da guerra, da Paz de Wesfália, pode-se dizer que os democratas se definem por serem contra a guerra. Mas é preciso entender que a guerra não é o conflito violento e sim construção e manutenção de inimigos. E também que a guerra não visa propriamente destruir os inimigos, senão mantê-los como tais para que seja possível instalar internamente um estado de guerra: condição para estruturar cosmos sociais segundo padrões hierárquicos regidos por modos autocráticos de regulação. Por último, é preciso entender que o objetivo da guerra não é matar pessoas e sim matar a rede social (aquela sem a qual não poderia ter sido inventada a democracia).

Comunistas e anticomunistas, como agentes da guerra fria, são guerreiros (ou militantes, quer dizer, jihadistas). Quando prevalecem, instalam estados de guerra nas sociedades que dominam (sob o pretexto de combater inimigos externos ou internos, tanto faz). Com isso deformam os ambientes sociais a tal ponto que inviabilizam a vida comunitária stricto sensu, aquela que não é regida por uma ordem top down e nem pelo consenso administrado e sim por uma ecologia de diferenças coligadas (somente na medida da qual a democracia pode ser experimentada).


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