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Por que ditadores adoram estatísticas de desenvolvimento?

Uma maneira fácil para melhorar o score internacional

Por Alex Gladstein, The New Republic, 26 de abril de 2018

Tradução de Renato Jannuzzi Cecchettini

As trocas de acusações na Organização dos Estados Americanos (OEA) geralmente não se dão bem no YouTube. Mas quando o ministro das Relações Exteriores de Honduras trouxe a repressão venezuelana contra dissidentes no verão passado, a representante venezuelana Delcy Rodríguez surpreendeu com uma réplica citando o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das Nações Unidas de 2016, que classifica a Venezuela 59 pontos acima de Honduras. Repressão ou não, “a Venezuela não demonstra estatísticas tão terríveis”, disse ela, em uma troca de acusações que logo se tornou viral nas mídias sociais de língua espanhola. Foi uma vitória para o regime de Maduro, e o ponto chave para a vitória foram dados confiáveis da ONU.

Para aqueles que como nós trabalham para promover os direitos humanos, esses episódios estão se tornando frustrantemente familiares. Desde as iniciativas de desenvolvimento de Jeffrey Sachs e Bill Gates, até as parcerias despóticas de Tony Blair ou Tom Friedman defendendo a autocracia chinesa no The New York Times, as últimas duas décadas viram as preocupações políticas repetidamente marginalizadas pelas estatísticas de desenvolvimento. A defesa clássica da ditadura é que, sem os confusos embates das eleições livres, imprensa livre e protestos livres, os autocratas podem demolir rapidamente cidades antigas para construir novas e eficientes, represar rios para fornecer eletricidade e tirar milhões da pobreza.

O problema de usar estatísticas para decantar elogios à autocracia é que coletar dados verificáveis dentro de sociedades fechadas é quase impossível. Da Etiópia ao Cazaquistão, os dados que “comprovam” que um regime autoritário está fazendo o bem muitas vezes são produzidos por esse mesmo regime.

Um punhado de organizações alimenta a indústria global de coleta de estatísticas, incluindo o Banco Mundial, as Nações Unidas e o Fórum Econômico Mundial. Cada uma dessas organizações realiza pesquisas socioeconômicas em larga escala, nas quais os pesquisadores desejam incluir o maior número possível de países. No entanto, muitos desses países – 93 deles, compreendendo uma população de quase 4 bilhões de pessoas, segundo a Human Rights Foundation – são governados por regimes autoritários que normalmente impedem a entrada de investigadores imparciais em suas fronteiras. Muitas vezes, os coletores de dados são forçados a trabalhar com brutamontes no comando.

Com relação ao Bahrein, o Fórum Econômico Mundial recebe a maior parte de seus dados de pesquisas feitas por funcionários do governo do Conselho de Desenvolvimento Econômico do Bahrein, que as conduzem e devolvem os resultados à Genebra. Na análise do WEF a partir desse ponto, os dados exagerados podem ser expurgados ou excluídos com modelagem de dados, mas os números fundamentais permanecem inteiramente como uma criação da ditadura.

Representantes da UNESCO dizem que, no caso de Cuba, eles usam os números de educação do regime para compilar seus relatórios. Não há verificação no local para esses números frequentemente encorajadores. Enquanto isso, um ex-funcionário do Tesouro do Uzbequistão disse que as visitas de coletores de dados internacionais eram altamente coreografadas e que o regime era facilmente capaz de controlar os resultados da pesquisa.

Quando as pesquisas não vão de acordo com o planejado, os ditadores podem simplesmente encerrar os levantamentos. O diretor da Gallup World Poll, Jon Clifton, quando o convidei como parte de uma entrevista à Human Rights Foundation há alguns anos, lembrou uma época em que os pesquisadores da empresa coletaram dados em um país africano, para no final ter seus equipamentos apreendidos no embarque de volta, no aeroporto.

Ainda assim, ninguém quer países em branco em seus mapas do mundo. “Em última análise, as organizações precisam produzir algum tipo de dados”, disse Clifton. “Mesmo que não seja muito bom, eles ainda precisam de dados.”

Mas os relatórios de desenvolvimento que usam esses números também acabam dando-lhes legitimidade institucional, de maneira que podem afetar decisões enormes em ajuda e comércio. Os dados do Banco Mundial em particular, como observado em um estudo de 2012, são promovidos nos meios de comunicação como um guia respeitável para o investimento global, e inspiraram reformas à medida que os países buscam subir no ranking. Os números da UNESCO vão para o Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial (Banco Mundial) e o Índice de Desenvolvimento Humano (UNDP), onde eles servem, segundo as próprias palavras da UNESCO, para “benchmarking do progresso em direção a metas nacionais e internacionais.” Os componentes educacionais dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável — que orientam e inspiram os benfeitores e os investidores de impacto em todo o planeta – são medidos com dados da UNESCO. As estatísticas fluem diretamente de muitos governos ditatoriais para a UNESCO e depois para os relatórios dos ODS.

Uma vez que os dados produzidos pelo regime passam a fazer parte dos índices mais confiáveis do mundo, os autoritários e seus apoiadores não intencionais usam esses números em sua propaganda, o que dificulta os esforços para promover os direitos humanos.

Quando o Primeiro-Ministro Etíope Meles Zenawi morreu em 2012, Bill Gates liderou um coro de elogios ocidentais por seus esforços de desenvolvimento, elogiando Zenawi por tirar milhões da pobreza e ignorar sua quase total censura ou o massacre de centenas de manifestantes. A The Economist e o The New York Review of Books apontaram desde então que o regime etíope fabrica estatísticas de desenvolvimento.

Do outro lado do mundo, na Venezuela, o falecido Hugo Chávez construiu uma reputação global como o presidente do povo, exibindo orgulhosamente estatísticas que mostram que seu governo reduziu a pobreza em 50%. Em 2014, o herdeiro do Chavismo, Nicolás Maduro, justificou sua repressão à dissensão – com tortura e sequestro de manifestantes estudantis – em uma reportagem do New York Times citando dados mostrando que seu regime “reduziu consistentemente a desigualdade”, “reduziu enormemente a pobreza” e “melhorou a vida dos cidadãos acima de tudo.” A fonte desses dados? A Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe, que usou os dados dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio – que vieram diretamente dos próprios estatísticos do regime.

No Azerbaijão, a ditadura de Ilham Aliyev usou dados de crescimento econômico para convencer o mundo que é um governo próspero e eficaz, com um clima de investimento robusto. O Fórum Econômico Mundial, entre outros, deu ao regime azerbaijano uma plataforma para falar sobre seu sucesso financeiro – que é usado para ocultar crimes que vão desde a prisão de dissidentes até o roubo de bilhões de dólares.

As violações dos direitos humanos do ditador de Ruanda Paul Kagame são muitas: o assassinato de jornalistas críticos, o patrocínio de esquadrões da morte na selva congolesa, o uso de pistoleiros internacionais e a prisão de opositores políticos. Apesar de tudo isso, apoiadores que vão de Bill Clinton a Jeffrey Sachs elogiam sua liderança e sucesso econômico. Quando Kagame “ganhou” 99% dos votos presidenciais há alguns meses, a comunidade internacional foi rápida em questionar esses dados políticos. Mas as taxas de alfabetização, a expectativa de vida e os números de crescimento econômico de Ruanda continuam sendo valorizados.

Essa quase universal falta de ceticismo é difícil de explicar, especialmente porque o problema não é novo. Em 1987, dois economistas soviéticos publicaram um artigo chamado Lukavaya Tsifra (“números engenhosos”) que demonstrou que, entre 1928 e 1985, o PIB da URSS havia crescido dez vezes mais do que o relatado pela Administração Estatística Central do regime. Eles mostraram que os dados econômicos “oficiais” do regime estavam sendo falsificados para encobrir o sofrimento humano.

Em 2014, pesquisadores da Bucknell compararam imagens de satélite das luzes noturnas ao longo do tempo (como uma representação da atividade econômica) ao crescimento do PIB relatado. Tudo isso para mostrar que as ditaduras, em média, exageram o crescimento econômico significativamente mais do que os governos democráticos. Outros também abordaram esse assunto. Dois exemplos de historiadores do desenvolvimento são: Morten Jerven Os Números Pobres, Como Somos Enganados Pelas Estatísticas Sobre o Desenvolvimento Africano e o Que Fazer Sobre Isso, e o economista Bill Easterly em A Tirania dos Experts: Economistas, Ditadores e os Direitos Esquecidos dos Pobres. Mas essas análises não mudaram fundamentalmente como as pessoas usam dados de desenvolvimento.

Quando usado por universidades e instituições de pesquisa, conjuntos de dados socioeconômicos guiam nosso entendimento fundamental do mundo. Quando usados por formuladores de políticas, filantropos e banqueiros, eles direcionam bilhões de dólares de ajuda e investimento. Freqüentemente, a razão pela qual os dados dos ditadores permanecem incontestados é que tantos economistas, financistas, diplomatas e doadores confiam neles para realizar seus trabalhos.

Mas sem uma investigação mais rigorosa sobre a origem e a qualidade dos dados socioeconômicos, a sombria realidade da ditadura permanece muitas vezes obscurecida. Além disso, os intelectuais e os líderes mundiais podem refletir bem sobre sua adoração aos números do desenvolvimento em detrimento das preocupações com os direitos humanos.

Afinal de contas, mesmo que os dados por trás dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU pudessem ser verificados, o que eles significam se nenhum deles menciona as palavras direitos individuais, liberdades civis ou democracia – mesmo uma vez? Os números nem sempre são tão simples ou tão neutros quanto parecem.

Alex Gladstein é diretor de estratégia da Human Rights Foundation e vice-presidente de estratégia do Oslo Freedom Forum.


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