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Por que é inútil seguir alguém

A unicalidade é o nós-presente

Há mais de uma década venho dizendo: não procure líderes, orientadores, mestres, gurus. Você não precisa disso. Também tenho desestimulado qualquer pessoa a me seguir (no sentido de seguir o meu pensamento). Tenha seu próprio pensamento, sabendo porém que ele não será seu e sim da mente social onde você está emaranhado. Assim como o meu está. E muda à medida que esse emaranhado se modifica.

Claro que toda pessoa é única, mas isso significa que ela tem, em cada presente em que existe como tal e se manifesta, uma apreensão única dos mundos onde interage e um modo peculiar de agir e interagir nesses mundos. A pessoa não é um dado, uma herança, o desdobramento de potencialidades contidas em algum princípio ou gênese e sim uma trajetória de adaptações, uma história fenotípica, se se puder falar assim.

Essas trajetórias, entretanto, cavam sulcos, creodos no campo que é a pessoa se olharmos a linha temporal estendida do seu desdobramento, que não passa de continua invenção: as configurações que se sucedem (ao narrarmos o presente dessa maneira) repetem determinados padrões. Minha trajetória nas duas últimas décadas foi cavando um sulco que pode ser identificado por recorrências a determinados padrões de visão e de ação baseados nas redes e na democracia. Isto é o que sou agora (ou o que posso interpretar, desde agora, como tenho sido).

As considerações acima são para corroborar a ideia inicial desta nota: de por que é inútil seguir alguém. Você só pode seguir com alguém. E só pode fazer isso se estiver emaranhado com essa pessoa.

Nos sintonizamos com aquelas pessoas com as quais nos emaranhamos, enquanto nos emaranhamos. Como dizia Protágoras (ou a ele se atribui), somos a medida de todas as coisas que são (quer dizer, somos o mundo que constituímos em nossa convivência), enquanto somos (esse mundo). Todos esses mundos, entretanto, são medidos pelo que somos enquanto somos cada um deles.

Portanto, é inútil buscar filiações, aproximações, enquadramentos com determinadas correntes de pensamento (o pensamento é também medida do mundo). Quando queremos nos enquadrar a fluxos em que não estamos, condicionamos caminhos: o que significa que eliminamos caminhos que poderíamos abrir nas direções próprias da nossa unicalidade (daquilo que nos torna único como pessoa, mas que não está dado no sentido de predeterminado e sim que se determina quando se atualiza sempre de uma maneira peculiar: nós-presente).

Este artigo foi publicado originalmente no Facebook em 1 de dezembro de 2014. Ele está sintonizado com um conjunto de reflexões do tipo da que republiquei ontem: Sobre fugir do conflito. E também com o artigo, elaborado recentemente, Algumas razões para os que não gostam de política se ocuparem com a política. Mas, sobretudo, com o programa em curso – sem dia para terminar – chamado NOVOS PENSADORES.


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