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Por que é tão difícil argumentar contra o moralismo

É quase inútil argumentar que cruzadas moralistas para limpar o mundo são incompatíveis com a democracia. As pessoas se agarram ao moralismo em legítima defesa. Elas acham que não são muito boas (ou que não são boas o bastante) e precisam desesperadamente dos bandidos para deslocar para eles a culpa que introjetaram depois de milênios de inculcamento de ideologias desumanizantes e perversas como a do pecado original e de uma perfeição edênica anterior (que supostamente teriam violado).

Todo moralismo é essencialmente imoral. Mas ele só viceja porque o inimigo que quer combater não está lá fora e sim no coração mesmo do ser que precisa se limpar de uma sujeira que imagina possuir (ou trazer de algum lugar no passado). As religiões judaico-cristãs, efluentes da tradição patriarcal, ajudaram a reforçar o mito (e não só elas, mas também o platonismo com aquela história de que no início dos tempos havia um Estado perfeito – uma forma ideal – que foi se corrompendo: leiam Popper).

Um texto do Jerry Fjerkenstad talvez ajude a explicar:

“Se formos capazes de ver o mundo do crime no nível do imaginário e não só do literal, começaremos a perceber que precisamos de “criminosos” para assaltar, violentar e matar o nosso ego cotidiano, os nossos padrões típicos de pensamento e emoção, que destroem a nossa alma e nos permitem tomar decisões e cometer atos que rompem o tecido da comunidade e os objetos e criaturas do mundo. Esse crime precisa ser cometido. E, além disso, o criminoso precisa ser pego para que possamos enfrentar o nosso atacante face a face e nos entendermos com ele. Precisamos ouvir as razões que o criminoso tem para nos atacar. Se apenas o trancafiamos e jogamos fora a chave, se apenas o executamos ou desterramos, então nada teremos ganho”.

J. Fjerkenstad em Ao Encontro da Sombra de Connie Zweig e Jeremiah Abrams (Orgs.)

Quando li este texto do Jerry Fjerkenstad pela primeira vez, fiquei muito impactado por ele. Claro que tudo precisaria ser relido de um ponto de vista da rede, quer dizer, da pessoa (desenvolvendo as ideias do último Hillman) e não do indivíduo, como foi feito na abordagem junguiana do autor (e a sua compreensão da alquimia também, o que se pode constatar facilmente). Ademais, Jerry não entende muito de política, tendo escrito numa época do século passado (o início dos anos 90) na qual não se podia ter uma boa compreensão dos impasses atuais da democracia, sobretudo da democracia como modo-de-vida. Mesmo assim, recomendo vivamente a leitura.

QUEM SÃO OS CRIMINOSOS?

Jerry Fjerkenstad

Gentalha, lixo, imundície. Errados, desviados: é preciso endireitá-los. Patifes, baderneiros, ladrões, velhacos. Corruptos, podres, fedorentos. Gente sem respeito pela lei, pelo caminho reto e estreito, pelo caminho certo, o único caminho. Gente que não teme Deus nem o homem. Animais, pervertidos, cães, mestiços, chacais. Errados, confusos, loucos, insanos, psicopatas. Almas desviadas, almas perdidas, ingratos. Carniceiros, espancadores, assassinos a sangue-frio. Frios como gelo — eles roubariam a própria mãe.

Acreditamos que os criminosos são tudo aquilo que nós não somos nem queremos ser, tudo aquilo que rejeitamos e tentamos eliminar da sociedade. “Como a vida seria maravilhosa se pudéssemos nos livrar de todos eles para todo o sempre. Essa gente que não vale nada, sem esperança de melhorar, que só espera a execução: vamos trancafiá-los e jogar fora a chave. Eles estão na estrada errada.” Mas a estrada errada é a Via Negativa, o caminho negativo, a rota aparentemente errada — termos alquímicos para a jornada da alma.

A alquimia em poucas palavras

A alquimia é bastante simples. A pessoa começa com a massa confusa — a substância básica, os ingredientes em estado bruto, o chumbo. Coloca-os em um Vas Herméticas, um recipiente hermeticamente fechado. Ao aplicar calor a esse recipiente, uma série de operações se processa sobre a substância, a fim de mudar a sua natureza e transformá-la em “ouro”. Essas operações podem incluir condensação, destilação, repetitio, mortificatio e “o casamento do rei e da rainha”. Esse é um processo bastante metafórico que não é considerado esotérico por Jung e Hillman — pelo contrário, é um processo que revela a verdadeira natureza da substância original. A massa confusa é igualada à pedra filosofal imperfeita da tradição bíblica. O ouro, ou criança dourada, criado no fim do processo é igualado ao nascimento da alma.

Diz-se que todo o processo é guiado por Hermes / Mercúrio, que está presente do começo ao fim, A alquimia é uma Arte Hermética e Hermes é o seu deus. Hermes também é o deus dos ladrões, dos criminosos e de outros habitantes do submundo.

Os criminosos são a massa confusa, um agregado de confusão. Eles são, na mente da nossa cultura, a pedra filosofal imperfeita, sem valor: nada sólido ou seguro pode ser construído sobre eles. Rilke descreve-os como “os necessitados”, as pessoas defeituosas, aquelas que ninguém jamais perceberia se elas “não cantassem”, não passassem ao ato. Rilke diz que “é aqui que se ouve o bom canto”, e não no oposto, os “castrati dos coros de bons meninos” que cansam a paciência até do próprio Deus. É aqui onde tudo começa. A graça divina só pode descer sobre aquilo que é imperfeito e desejoso de reivindicar sua própria destituição, fealdade e inferioridade.

Distanciamo-nos disso tudo, escolhendo o criminoso comum para incorporar todos esses traços feios e indesejados, enquanto permanecemos “retos”, bons e respeitadores da lei. Isso ocorre porque somos, por natureza, pessoas boas? Ou será porque temos medo de ser “pegos”?

O criminoso debate-se no desconhecido, fora do mundo da lei e da ordem, além da fronteira, no mundo de Hermes e do inconsciente. O criminoso é rude, violento e indiferente… mas cruza a fronteira. É uma fronteira que todos nós precisamos cruzar, de algum modo. Sebastian Moore, teólogo alquimista, se expressa da seguinte maneira:

“Este é o nosso mistério último: até mesmo o nosso mal, a nossa tendência contra a totalidade, expõe-nos ao amor de Deus. E nos expõe ao amor de Deus de uma maneira e a uma profundidade às quais nem mesmo o nosso desejo de alcançar a totalidade conseguiria nos expor.”

Nossos criminosos são aqueles que não conseguem ou não querem criar o ouro da maneira que nos decidimos que é a correta. Eles são aqueles que nos vendem coisas que fingimos não querer — como cocaína e sexo, como aparelhos de som, bicicletas e carros roubados. São aqueles que se desesperam diante de seu fracasso em fazer seu caminho de acordo com o “padrão ouro”. Eles fazem sua vida explorando os domínios ocultos da natureza humana que negamos através da cisão e da hipocrisia. Eliminar todos os criminosos não eliminaria esses vícios — os vícios expressam algo essencial sobre a natureza humana, algo que precisa ser alquimicamente trabalhado, captado e incorporado; não apenas aprisionado, abandonado e usado como bode expiatório.

O sagrado no profano

Jung acreditava que Deus, o Deus vivo, só poderia ser encontrado ali onde menos queremos olhar, naquele local que mais temos resistência para explorar. Esse Deus vivo está entremeado com a nossa própria escuridão e sombra, está entrelaçado com as nossa feridas e complexos, está ligado às nossas patologias. Por outro lado, o Deus da Crença — aquele Deus remoto, retirado da criação e da vida cotidiana — liberta-nos da nossa imperfeição, purifica-nos de toda a contaminação terrena e resolve os aspectos mais difíceis do dilema humano.

A alquimia é um processo para extrair o Deus vivo dos aspectos mais venais, mais corruptos da vida. Mas esse processo não pode ser iniciado até que a venalidade seja reconhecida. Não é que precisemos criar venalidade. Ela já existe — de modo explícito e com a nossa cumplicidade. É mais uma questão de reconhecê-la, de admitir sua existência em nós mesmos: nas nossas pequenas ações, fantasias, negócios secretos, nos nossos momentos ocultos.

Na verdade, estamos falando sobre a diferença entre o espírito e a alma. O caminho do espírito é reto e ascendente. O caminho da alma é sinuoso, descendente e perturbador. A estrada da alma é também o caminho da iniciação à nossa natureza humana. Nosso propósito não é sermos “bons”, ingênuos e inocentes — mas sim sermos reais e conhecermos a nossa escuridão, a via negativa. Iniciação significa conhecer aquilo de que somos capazes, nossos limites, nossas fomes, nossos desejos. A aquisição desse conhecimento implica, com freqüência, um processo doloroso. Mas somente seremos capazes de responsabilidade e escolha inteligente quando estivermos conscientes desses fatores.

Consideremos a história do Príncipe e do Dragão. Um casal já idoso, que deseja um filho, consulta uma parteira. Ela os instrui a voltar para casa e, antes de dormir, lançar a água da lavagem dos pratos debaixo da cama. Na manhã seguinte surgiria um ramo com dois botões, um preto e um branco. Eles deveriam colher apenas o botão branco… mas colhem ambos.

Os meses passam e um dia a parteira é chamada para ajudar o parto dessa mulher. A primeira coisa que vem ao mundo é um lagarto viscoso; a parteira, com a bênção da mãe semiconsciente, atira-o pela janela para que se vire por si mesmo, esquecido e abandonado. Instantes depois, nasce um menino bonito e saudável. Ele cresce perfeito, tudo o que ele faz dá certo e todos o amam. Torna-se tão admirado que é escolhido para casar com a filha do Rei.

Enquanto isso, o Dragão levou uma vida furtiva, espionando seu irmão e seus pais, roubando para comer e se aquecer e ansiando por tudo que não possuía. O Dragão é amargo, raivoso e vingativo.

No dia do casamento, o Príncipe parte para o castelo. De repente, sua carruagem é detida pelo enorme Dragão que bloqueia a estrada. O Dragão declara que é o irmão do Príncipe e exige que o Príncipe encontre-lhe uma noiva, caso contrário nunca se casará com a filha do Rei. Então começa o difícil processo de encontrar uma mulher disposta a viver com o Dragão num ambiente especial. Depois de muitos e muitos anos, ela é encontrada.

O ponto de mutação dessa história é o momento em que o Dragão declara sua identidade, sai da clandestinidade e exige uma noiva que seja capaz de “amá-lo” como ele é. O Dragão não quer mais viver como um criminoso, um pária. Mas ele não propõe mudar sua natureza de Dragão. Pelo contrário, ele próprio é a prima matéria que se coloca num ambiente especial — um Vas Herméticas — para ver se ocorre alguma alquimia, para ver se surge a alma. Somente através da revelação de si mesmo e da exigência daquilo que queria que o Dragão poderia ser amado e ocupar um lugar honroso no mundo. E é isso que nos recusamos a fazer; tanto o criminoso quanto nós (na nossa qualidade de buscadores de bodes expiatórios) nos recusamos a nos revelar a nós mesmos, a sair dos nossos esconderijos e reconhecer a “estranha sensação” (o “desejo insano”) que nos domina. Como disse Goethe, enquanto “não experimentarmos esse processo”, enquanto não nos revelarmos e sairmos do esconderijo, seremos “apenas um hóspede perturbado sobre a terra escura”.

Temos medo de ser pegos, medo de ser queimados (pelo óleo), medo do nosso self-Dragão a sair do esconderijo, medo de reivindicar tudo aquilo de que necessita o nosso lado mais feio. Por isso nós, na maioria, fingimos ser totalmente bons. Mas “ser bom” não basta,

Quase todos nós acreditamos em transformação, morte e renascimento; acreditamos na emulsão de Hermes / Mercúrio, mas não queremos nos submeter à morte. Queremos nos transformar sem ser transformados — queremos ser remodelados para um “new look” mas sem a agitação nem a descompensação distônica do ego que uma transformação completa acarreta.

A psicologia do desenvolvimento, em especial aquela descrita por Robert Kegan, expõe os estágios através dos quais precisamos evoluir para que nos seja possível amadurecer como seres humanos. De modo geral, permanecemos fixados nos estágios iniciais porque nunca fomos treinados a realizar os sacrifícios necessários para a série de mortes e renascimentos que compõem o processo alquímico representado pela psicologia do desenvolvimento. O resultado é que nunca aprendemos as lições de cada estágio ou operação.

Encarceramento: como penetrar no vas hermeticus

Encarceramento, aprisionamento, pena de morte, sentenças longas — todas essas expressões são, na verdade, bastante alquímicas. O vas hermeticus é o recipiente no qual é colocada a prima matéria, a massa confusa. Ele precisa ser mantido hermeticamente fechado até que o processo se complete. Faz-nos lembrar da criminologia: encerramos hermeticamente o criminoso na prisão até que (conforme esperamos) ele passe por uma transformação. Pode-se dizer que punição e terapia representam várias operações alquímicas, tais como a destilação e a putrefação.

Ótimo, vamos fazer os criminosos passar por um processo alquímico que mudará sua natureza; vamos mantê-los encerrados até que o processo se complete! Mas… não reservemos esse processo difícil e doloroso apenas para os criminosos. Todos nós precisamos dele. Na verdade, muitos de nós, não-criminosos, precisamos dele mais do que os criminosos. Mas, uma vez que nunca somos pegos, nosso processo jamais se inicia. Ah, se ao menos algo nos pegasse! Deus sabe que não nos “entregaremos à justiça”, não nos entregaremos ao processo hermético que negligenciamos. Para sermos pegos, precisamos que alguém se porte de modo baixo conosco. Se não somos pegos, não seremos colocados no vas hermeticus — o encarceramento sagrado — e o processo alquímico não poderá ter início.

Como na história do Príncipe e do Dragão ou de Eros e Psique, nada acontecerá até que o Dragão, o monstro no leito ensombrecido, seja “pego”, surja às claras, seja visto e conhecido; aí começará o trabalho verdadeiro. Até esse instante, tudo é inconsciente, desconhecido, cego.

Em relação à criminalidade, nós — os normais — somos voyeurs, fascinados mas distanciados. Poucos dentre nós podemos confessar, como Mick Jagger na canção Sympathy for the Devil [Compaixão pelo Diabo], que inadvertidamente participamos das forças escuras. Sentimos relutância em penetrar na região onde começa a verdadeira natureza humana. Preferimos um Deus a quem possamos idolatrar e adorar, em vez de um cocriador que espera que façamos a nossa parte do trabalho. Não queremos celebrar “o sacramento do assassinato” e reconhecer que o nosso coração das trevas, a nossa tendência para o mal e para nos afastarmos da totalidade é tão essencial para alcançar a graça, a alma e “Deus” quanto nossa crenças na totalidade, na bondade e na perfeição e nossos esforços para alcançá-las.

O crime é considerado inatural, inumano, um ato contra a natureza e a cultura. Como, então, usamos o crime como uma metáfora para algo necessário e essencial? Arrombar, roubar, violentar o inocente, violar o sagrado, espancar e mutilar, hostilizar e intimidar: tudo isso assemelha-se àquilo que os sonhos tentam fazer ao nosso ego na consciência cotidiana. Os sonhos tentam nos introduzir à nossa massa confusa, tentam “relativizar” o ego. Os sonhos são, junto com as doenças, o principal caminho para que a nossa alma tente falar conosco. Nossa cultura recusa qualquer envolvimento com a opus alquímica dos sonhos e, assim, aumenta a probabilidade do crime. Nossas defesas cada vez mais cerradas, nossos “orçamentos para defesa” pessoais, nossa preocupação com os sistemas de segurança e proteção; tudo isso só aumenta a probabilidade do crime. Todas essas medidas ampliam a brecha, aumentam a cisão e asseguram a inevitabilidade da invasão. Quando permitimos que os sonhos entrem e nos afetem — em vez de simplesmente interpretá-los conforme padrões adequados às nossas noções preexistentes —, eles nos oferecem o caminho para entrarmos no nosso lado escuro e criminoso e transformá-lo em “ouro”.

O criminoso sentenciado tem uma rota diferente. Parte da sua “cura” (outra operação alquímica — curtir e curar o couro é também uma metáfora para a punição) consiste em aprender o papel da vítima, colocar-se no seu lugar e tomar consciência do caso todo, não simplesmente desempenhar apenas o seu papel, o papel do criminoso. Isso é o que parece inatural ao criminoso, sua opus contra naturum. Mas isso é o que fecha a brecha para ele, o que se cinde nele.

Aumentando o calor

A chama e seu calor desempenham um papel essencial em diversas operações alquímicas, tais como a destilação e a calcinatio (secagem). A polícia também é chamada “the heat” [o calor]. Um criminoso que ainda não foi “pego” está sempre preocupado em evitar “o calor”, Um criminoso que foi localizado pela polícia quer escapar ou enganar “o calor”.

Estar “no calor” — ou seja, no cio — também é um estado veemente e impulsivo no qual a pessoa precisa possuir a coisa desejada, e de imediato; quando não consegue, ela “enlouquece”. Uma pessoa “no calor” é irracional, imprevisível e obstinada. Estar “no calor” também implica excitação, eretilidade e inflexibilidade até que o desejo seja satisfeito. Se o criminoso está “no calor”, qual é sua motivação, o que o impulsiona? O criminoso está disposto a se sacrificar por alguma coisa; o que é esse algo? Qual é essa joia valiosa que ele parece conhecer, mas pela qual nenhum de nós sacrificaria coisa alguma? Será o poder, o controle, a riqueza, coisas belas, mulheres chamativas, drogas? Gregory Bateson sugere que o criminoso busca algo essencial em seu crime. O que é esse algo? O que o criminoso “imagina” que vai conseguir? Com o que ele quer se acasalar, com o que ele quer se envolver, o que ele quer possuir? Seja lá o que for, reze para não se encontrar entre ele e o objeto do seu desejo!

Putrefação, repetição e outras operações

Repetitio: se considerarmos a Terra como um vas hermeticus, as coisas que usamos uma vez e jogamos fora não contêm nenhum senso de repetitio. Todo nosso lixo, nossos refugos tomam-se a massa confusa rejeitada; precisamos dela para aprender a honrar e a transformar, não para continuar a acumular lixo. Devemos também questionar nossa eterna necessidade de ter o “new look”, de nunca repetir.

Destilação: é a redução daquilo que somos à essência, fervendo até evaporar todo o desnecessário. A maioria de nós tende a acumular objetos, ideais e projetos sem nunca realizá-los e muito menos organizá-los, sem nunca decidir aquilo que é essencial e, então, segui-lo.

Putrefactio: Desbastamos aquilo que está apodrecido a respeito de nós mesmos, descobrindo que os nossos excrementos fedem. Para o criminoso sentenciado, esse estágio significa alcançar o ponto onde ele percebe honestamente como suas ações prejudicam os outros. A maioria dos criminosos é indiferente a isso, do mesmo modo que muitos empresários, políticos e líderes religiosos. Nossas defesas míopes precisam se decompor para que possamos sentir empatia pelo mundo além do nosso próprio ego e suas necessidades imperativas. Para o não-criminoso, a putrefactio — perceber o nosso próprio cheiro — pode significar o abandono da viagem perpétua em busca de desenvolvimento e perfeição.

Confinamento: o processo alquímico é arruinado e precisa ser reiniciado se qualquer coisa vazar do vas hermeticus. Embora baseadas nesses antigos princípios químicos, a ciência, a indústria e a tecnologia modernas têm uma imensa quantidade de vazamentos — lixo tóxico, emissão de gases radioativos por usinas nucleares, poluição das correntes de água subterrâneas. O vazamento significa uma falta de integridade e um processo sem alma incapaz de qualquer transformação útil.

A importância do sal

O sal era um material necessário aos alquimistas. O sal está fortemente associado à memória, pois ele preserva as coisas e as mantêm em condições de serem ingeridas e utilizadas. A memória é uma qualidade quase ausente nos criminosos. O tratamento dos criminosos parece funcionar melhor quando se exige que eles refaçam seus passos, seus planos, sua decisão de ofender — colocando sal no recipiente que é a sua psique ou alma. O sal também é importante para capturar “pássaros de cadeia” — afinal de contas, todos nós aprendemos que, para capturar um pássaro, é preciso pôr um grão de sal sobre sua cauda.

Mas examinar o modo como colocamos o criminoso numa encrenca não significa que o criminoso saia dessa encrenca. Isso implica a realização de uma operação diferente, encontrar um novo ângulo para ver o processo como um todo. Isso também seria verdadeiro na perspectiva dos nossos sonhos — se pudermos ver o criminoso como uma outra parte da nossa própria história, como alguém que precisa invadir o nosso espaço particular, alguém que precisa levar embora as coisas de que não precisamos para viver, alguém que precisa criar a dor e a perda em nós. Um caminho para nos levar a cuidar do recipiente maior, o recipiente além da nossa opus pessoal e particular — o Vas Hermeticus que é a Terra. O criminoso realiza, a um só tempo, duas tarefas: ele passa ao ato o seu drama pessoal e suas mesquinhas necessidades; e, simultaneamente, desempenha um papel no drama da alma na nossa vida, servindo como um agent provocateur.

Os criminosos como escravos espirituais trabalhando nas minas da nossa ignorância

O desejo de eliminar o crime é, na verdade, um anseio por eliminar a alma, a imperfeição e a necessidade da Graça. É um esforço para criar um mundo dominado por consultores, behavioristas, peritos empresariais e agentes de relações públicas.

Teríamos então um fascismo bem administrado, mais gentil e suave, sem mortos (como Noam Chomsky sugere repetidamente em seus escritos sobre o sutil fascismo americano que, num sentido literal, é não-violento).

Precisamos de bandidos para que alguém, que não nós, seja pego. Preferimos que algum desesperado, lã fora nos campos minados, seja o nosso bode expiatório, a cobaia, o voluntário para o sacrifício. Não nos causa surpresa que a nossa cultura abrace a religião cristã de uma maneira tão fundamental, tendo em vista que ela esposa uma teologia que aprova que um outro alguém (Cristo) realize as tarefas mais cruciais por nós, morra pelos nossos pecados. Essa teologia evita a nossa crucificação, abortando o trabalho alquímico antes que ele se complete e impedindo a transformação mais profunda.

Se formos capazes de ver o mundo do crime no nível do imaginário e não só do literal, começaremos a perceber que precisamos de “criminosos” para assaltar, violentar e matar o nosso ego cotidiano, os nossos padrões típicos de pensamento e emoção, que destroem a nossa alma e nos permitem tomar decisões e cometer atos que rompem o tecido da comunidade e os objetos e criaturas do mundo. Esse crime precisa ser cometido. E, além disso, o criminoso precisa ser pego para que possamos enfrentar o nosso atacante face a face e nos entendermos com ele. Precisamos ouvir as razões que o criminoso tem para nos atacar. Se apenas o trancafiamos e jogamos fora a chave, se apenas o executamos ou desterramos, então nada teremos ganho.

Teríamos apenas sacrificado um pouco mais da humanidade. Junto com os seres humanos que matamos, estaríamos matando a nossa oportunidade de nos tornarmos mais humanos; estaríamos desistindo da nossa chance de apreender uma porção mais ampla do espectro total da humanidade, tanto sua escuridão quanto sua luz. E o pior é que teríamos sacrificado a Terra que nos rodeia e a alma humana. Costumamos dizer que os astecas eram primitivos porque faziam sacrifícios humanos para aplacar seus deuses. Nós aplacamos a nossa consciência fechando os olhos às pessoas que atiramos dos penhascos, aos criminosos que destruímos, aos países do Terceiro Mundo que sacrificamos à nossa prosperidade, às gerações futuras que sacrificamos para podermos ter todos os bens de consumo que hoje cobiçamos.


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