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Por que Lula continua na frente nas pesquisas: uma explicação do ponto de vista das redes

Muita gente não entende por que Lula – quando incluído nas pesquisas (embora não possa ser candidato) – continua na frente e lidera em todos os cenários, no primeiro turno e no segundo turno.

É simples: do ponto de vista das redes. É da natureza do populismo (e o lulopetismo é um neopopulismo) obter a adesão cega de multidões (que se transformam em rebanhos). O líder populista com alta gravitatem deforma o campo social de um modo que atrai as preferências não-racionais e os anseios coletivos e instintivos de proteção. Ele cria creodos no campo (ver imagem), caminhos sulcados que condicionam as trajetórias futuras, como uma espécie de buraco negro para o qual os corpos se abismam.

Há uma motivação emocional, que está sempre antes da escolha racional, que explica isso. No Estado inconsciente (uso aqui a expressão no sentido atribuído por René Lourau (1978), em L’État-inconscient) a figura (e a função) do pai (dos pobres) cumpre um papel difícil de ser removido depois de milênios de cultura patriarcal: o papel do senhor. Mesmo quando o senhor erra – e as pessoas veem que ele erra – ele continua sendo psicossocialmente necessário diante da insegurança do imprevisto, do adverso, da sina, do fado, do fadário, da fatalidade.

Esta é a principal dificuldade da democracia, que é o regime sem um senhor (o que está fora do campo do possível para miríades de pessoas que buscam um protetor, um pai, um salvador ou um cuidador).

Por isso, mesmo muito tempo depois do seu ocaso, o líder populista persiste como uma lembrança forte: se ele falece, as pessoas custam a acreditar que isso é verdade, e ainda morto a sua memória continua agindo como uma espécie de entidade “espiritual” onipresente, para a qual os desvalidos permanecem olhando com reverência e admiração (“ah!… nos tempos do fulano – pode ser Getúlio, Perón, Lula, tanto faz -, as coisas eram bem diferentes e bem melhores: havia quem olhasse por nós”).

Estamos falando, na verdade, de um programa instalado na rede social – um software que modifica o hardware – e que tende a replicar um tipo de fluição: o santo que baixa depende da configuração do terreiro. Se a configuração for a do rebanho, ela evoca (ou invoca) o pastor. O bios da rede-mãe é distribuído, mas quando ela começa a rodar programas verticalizadores sua estrutura é alterada.

De certo ponto de vista estamos tratando de um tipo de doença coletiva, de enfermidade da rede, que só vai desaparecer (ou ter seu efeito patológico reduzido) com o aumento da distribuição, da conectividade e da interatividade da rede ou a diminuição dos seus graus de separação.

Pois bem. A questão é: como modificar essa configuração num tecido já coalhado de monopolos que atuam como “atratores estranhos”?

Só há um caminho: o aumento dos graus de distribuição (e, consequentemente, de conectividade e interatividade da rede social – atenção: não estou falando das mídias sociais, mas das redes de pessoas interagindo).

Pode-se retrucar que isso aumentará a possibilidade de contaminação de qualquer tipo, mas também desconstituirá caminhos pré-sulcados. Dissolverá o que foi coagulado, congelado, com isso impedindo a repetição de passado (da qual o monolíder vive). Sim, a liderança destacada do monolíder, do líder em todos os assuntos e ocasiões, do líder que mata os outros líderes que surgem na sua vizinhança para liderar soberano (como fez Lula) é sempre uma tentativa de transplantar uma configuração do passado para o corpo presente da sociedade. O campo que se configurou no Estádio de Vila Euclides, em 1979, deve permanecer existindo em 1989, em 1999, em 2009, em 2019 e… além: para que o líder que emergiu naquela primeira circunstância continue liderando em todas as demais.

A monoliderança é um atrator-deformador do campo: introduz anisotropias no espaço-tempo dos fluxos. Mas poucas lideranças alternativas não dão conta de alterar a configuração deformada (por exemplo, a bipolarização piora a situação): tivemos várias lideranças alternativas na disputa de 1989 (Freire, Covas, Ulisses, Gabeira etc.) mas insuficientes para alterar a dinâmica que leva à bipolarização (que é, de fato, o que se deve entender por polarização). Seria necessário multiliderança emergente, mas isso depende dos graus de distribuição (e, novamente e consequentemente, de conectividade e interatividade) da rede.

Toda a questão é como alterar a configuração da rede ou, em outras palavras, os fluxos interativos da convivência social. Sustento que a introdução de várias (mas poucas) lideranças não produz tal efeito: seria necessário miríades delas. Porque o problema é o processo pelo qual o velho tipo de liderança surge (sempre trancando futuro) e só a manifestação da nova fenomenologia da interação em mundos altamente conectados pode modificar organicamente esse processo.

À primeira vista isso só pode ocorrer no longo prazo. Mas não necessariamente será assim. Por exemplo, se começam a acontecer, com cada vez mais frequência, o clustering, o swarming, o cloning, o crunching, a reverberação, os múltiplos laços de retroalimentação de reforço que amplificam pequenos estímulos, o looping de recursão etc. aí mudanças surpreendentes podem ocorrer, inclusive no curtíssimo prazo. Se você nunca ouviu falar desses conceitos da nova ciência das redes, leia o texto O que não são redes sociais.

Temos vários exemplos práticos neste século. O junho de 2013, no Brasil e no Egito, alteraram a configuração do campo de um modo que décadas de repetição da mesma dinâmica (instituições + lideranças, como ainda acreditam alguns tucanos) não poderiam fazer. Ou seja, o longo prazo pode não ser tão longo assim, mas a aceleração não depende de nós.


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