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Por que não se trata de votar no candidato dos nossos sonhos no primeiro turno para depois optar pelo menos pior no segundo turno

Aos simpáticos admiradores de João Amoedo

Vejam só que coisa bizarra. Em alguns cenários de pesquisa de opinião, eu tenho a mesma porcentagem de intenção de voto do que o Amoedo. E você, que está me lendo, também. Isso significa que Amoedo não é um bom candidato do ponto de vista da democracia? Não, ele é excelente, assim como eu (se fosse candidato) seria um bom nome (desse mesmo ponto de vista).

A introdução acima é para mostrar que política eleitoral não é a escolha da pessoa que achamos melhor. E sim a escolha da pessoa que pode alterar uma configuração a favor de um projeto: no caso, a defesa da democracia; ou seja, impedir que a disputa seja capturada pelo campo autocrático com uma polarização entre qualquer um apoiado pelo PT (seja Haddad, Wagner, Manuela, Ciro, Boulos, Marina ou Joaquim) versus Bolsonaro. Uma polarização como esta, uma vez estabelecida, alijaria os democratas do cenário político.

Pode-se perguntar por que Marina não está no campo democrático. Marina é da Rede, cujos principais expoentes no Congresso foram Molon e Randolfe, que durante todo ano de 2016 defenderam mais o PT do que os próprios petistas. E ela nunca veio a público desautorizá-los. Permaneceu, com perdão do trocadilho, como uma submarina… Ou como uma espécie de abutre, esperando quem ia morrer primeiro para atacar a carniça. Por outro lado, você gostaria de ter Randolfe Rodrigues na Casa Civil ou no Ministério da Justiça?

Pode-se perguntar também por que Joaquim Barbosa não está no campo democrático. Ora… no mensalão ele livrou a cara de Lula e, em seguida, não só se colocou contra o impeachment de Dilma como tentou ridicularizar o processo. Imaginem se os jacobinos resolverem ter um candidato e escolherem o autoritário Joaquim Barbosa – aquele que chamou o impeachment de operação tabajara – para fazer sua antipolítica.

A questão é que não se trata de escolher o melhor e sim de escolher qualquer um que, sendo do campo democrático, consiga evitar a polarização descrita acima. Inclusive Amoedo, se ele tiver chances, pois por enquanto não chegou nem a um dígito, quanto mais a dois. Se o Amoedo tiver chances de cumprir o papel que a democracia impõe aos democratas nesta quadra, votaremos nele com alegria e empolgação. Se não tiver, sinto muito. Se for para acumular forças para 2022 ou 2026, nada feito: o país não pode suportar mais quatro anos nas mãos de um adversário da democracia. Projetos pessoais ou partidários não podem se colocar acima do imperativo democrático que é evitar a captura da disputa pelo campo autocrático.

E não se trata também de votar no candidato dos nossos sonhos no primeiro turno para depois optar pelo menos pior no segundo turno, pois poderemos ter um segundo turno sem escolha boa (como ocorreu em 1989, entre Collor e Lula – e pessoas como Gabeira, Ulisses, Covas e Freire não passaram para o segundo turno; ou como ocorreu no Rio em 2016, entre Crivella e Freixo).

Examinemos 1989. Nas eleições de 1989 tivemos os seguintes candidatos a presidente:

AFFONSO CAMARGO
AFIF
AURELIANO CHAVES
BRIZOLA
CELSO BRANT
COLLOR
CORREA
ENEAS
EUDES MATTAR
GABEIRA
LIVIA MARIA
LULA
MALUF
MANOEL HORTA
MARIO COVAS
MARRONZINHO
P. G.
PEDREIRA
ROBERTO FREIRE
RONALDO CAIADO
ULYSSES GUIMARÃES
ZAMIR

E aí, o que foi que aconteceu? Cada um votou no candidato de sua preferência no primeiro turno, mesmo quando esse candidato não tinha muitas chances, esperando votar no menos pior no segundo turno. Ocorreu que, no segundo turno, apareceram dois candidatos ruins: COLLOR X LULA. Deu ruim: COLLOR venceu. E se perdesse, daria ruim igual: elegeríamos LULA.

Estou falando grego? Ou, quem sabe, javanês?

As pessoas têm dificuldade de entender tudo isso por dois motivos: falta de experiência política (e aí elas acham que estão num jogo de ‘escolha o melhor’) e falta de compreensão de que a democracia é o principal valor da vida pública.

Para quem está com dificuldade de identificar quem é do campo democrático e quem é do campo autocrático é bom ler o texto Uma classificação das forças políticas no Brasil do ponto de vista da democracia. Melhor ainda seria ler o ensaio completo: Os diferentes adversários da democracia no Brasil.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

 

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