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Por que não sou patriota

Não gosto nem um pouco do termo. Talvez porque não me identifique com sua origem. Como se sabe, os membros do “partido” oligárquico, que odiavam a democracia e deram três golpes em Atenas (em 411, 404 e 401 a.C.), inventaram a palavra – patriota – para dizer que queriam voltar “ao regime de nossos pais” (daí patriota, derivado de patri, pai), ou seja, para voltar à autocracia contra a qual a democracia ateniense foi inventada.

Isso já seria o bastante se o conceito de patriotismo não aparecesse junto com o de nacionalismo e a nação – essa abstração – não fosse sempre uma comunidade imaginária inventada pelo Estado. Sinto muito, dizer o quê? – não gosto de Estado: nem do Estado-Templo-Palácio sumeriano, nem dos proto-Estados associados às hordas de predadores e senhores que apareceram, talvez, nas margens setentrionais do mar Cáspio, nem da cidade-Estado antiga, nem dos Estados feudais antigos e medievais, nem das formas de Estado teocrático associadas ao chamado modo de produção asiático, nem dos Estados principescos e reais do Renascimento e do pós-Renascimento, nem da forma Estado-nação surgida no século 17 (e sob a qual ainda estamos), um fruto da guerra, da paz de Vestfália.

Mas me mostrem uma nação sem Estado e eu ficarei imensamente interessado em estudá-la. Foi isso, aliás, que me chamou a atenção na democracia inventada pelos atenienses: a pólis não era a cidade-Estado e sim a koinonia (comunidade) política; ou, em outras palavras, como cunhou magistralmente Hannah Arendt (1958), em A condição humana, “a pólis não era Atenas e sim os atenienses”.

Desgraçadamente a Atenas dos séculos 5 e 4 a.C. tinha uma dupla identidade: assim como era uma comunidade política, também era uma cidade-Estado, uma estrutura desenhada para a guerra (e os democratas atenienses sabiam que, quando guerreavam, perdiam a condição de seres políticos, degenerando-se em seres apolíticos, o que significava, na época, não-democráticos).

Sim, existiram nações sem Estado e, inclusive, não-nações, grupos, tribos, aldeias, grandes assentamentos humanos onde o sentido de identidade não era formado contra o outro. Jericó, por exemplo, viveu seus primeiros dois mil anos como uma cidade não-Estado.

Gosto de cidades. Prefiro que o conceito de cidadania seja positivo em vez de negativo (por exclusão de quem não pertence a um determinado… Estado: “Ô moleque, não venha vender na nossa feira que a gente te passa fogo”).

Bem… vai daí que o patriotismo virou uma espécie de “religião do Estado” que perdura até hoje nas crenças e ritos militares. Há um precedente, anti-ateniense e anti-democrático: Esparta, o Estado que militarizou a sociedade e que, aliás, apoiou e financiou os três golpes, mencionados acima, contra a democracia ateniense, no final do século 5 a.C.

Não sou espartano, como o leitor pode perceber e sim ateniense. No que tenho de grego, sou jônio, não dório. No que tenho de civilizado, gostaria de ser menos patriarcal (e o Estado, como se sabe, é uma invenção patriarcal).

É incrível como essa baba patriarcal patriótica acabou virando uma espécie de tabu. Você não pode se dizer não-patriota: é como dizer que comeu a mãe, é como se confessar traidor da pátria (seja lá o que for essa merda). Você tem que estar prevenido contra o outro para ser um fiel seguidor, um boa ovelha branca do rebanho e, inclusive, para ter direito ao reconhecimento dos semelhantes: “Sim, este é um dos nossos”.

Mas a ideia de ‘traidor da pátria’, em geral, é insuflada por candidatos a ‘salvador da pátria’. No fundo é alguém que quer ser senhor, que quer nos fazer súditos, não cidadãos. Isso era, precisamente, o que os espartanos queriam fazer com os atenienses: “esses veadinhos” – como se dissessem.

Até que alguém (Samuel Johnson, em 1775) percebeu que “o patriotismo é o último refúgio de um canalha”. E Karl W. Deutsch (1969), em Nationalism and Its Alternatives, foi na mosca: “Uma nação […] é um grupo de pessoas unidas por um erro comum em relação a seus ancestrais e uma aversão comum em relação a seus vizinhos”. 

P. S.

Este artigo poderia ser considerado a continuação de uma série intitulada Sobre o reflorescimento de narrativas nacionalistas. Comecei transcrevendo um capítulo do livro de Shlomo Sand (2012), intitulado A Invenção da Terra de Israel: Da Terra Santa à Terra Pátria. Nele, Sand diz:

“É importante lembrar que pátrias não produziram nacionalismo, mas, pelo contrário, as pátrias surgiram do nacionalismo. A pátria se mostraria uma das mais surpreendentes e talvez a mais destrutiva das criações da era moderna. O estabelecimento de nações-Estados deu novo significado às áreas sob seu domínio e as fronteiras que as delineavam. Por meio da construção de um profundo sentimento de inserção em um grupo nacional, um processo cultural-político criou britânicos, franceses, alemães, italianos e mais tarde argelinos, tailandeses e vietnamitas a partir de variadas misturas de culturas e linguagens locais. Esse processo invariavelmente produziu um leque de emoções relacionadas a espaços físicos definidos. A paisagem tornou-se um componente fundamental da identidade coletiva, formando as paredes, por assim dizer, da casa na qual a nação em desenvolvimento era convidada a residir”.

Sobre essas paredes, continua ele em outra parte:

“A fronteira é primeiramente um produto histórico de relações de poder que em dado momento foram reconhecidas e congeladas”.

Mas, adverte:

“Seria um equívoco concluirmos que tantas pessoas transformaram-se em ardentes patriotas unicamente como resultado de doutrinação ou manipulação das elites dominantes modernas. Não fosse a capacidade de reprodução mecânica e sistemática, sem jornais, livros e, mais adiante, transmissões de rádio e noticiários de cinema, e sem a intensiva formação pedagógica de um sistema geral de educação estatal compulsória, os cidadãos teriam permanecido muito menos cientes do papel do espaço nacional em suas vidas. A fim de identificar sua pátria, as pessoas tinham que saber ler e escrever e tinham que consumir porções saudáveis do farto bufê conhecido como “cultura nacional”. Podemos concluir, portanto, que, como mecanismos ideológicos do Estado, as novas escolas e os novos meios de comunicação foram diretamente responsáveis pela criação sistemática de pátrias e de patriotas”.

Por tudo isso gostei do artigo de Hélio Schwartsman, na Folha de São Paulo de ontem (27/02/2019), que teve a coragem de dizer: “eu me orgulho de não saber o hino”. Reproduzo abaixo:

Eu me orgulho de não saber o hino

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo (27/02/2019)

Nacionalismo, em doses baixas, pode ajudar, mas, em doses altas, torna-se produto tóxico

Eu não sei cantar o Hino Nacional Brasileiro e tenho orgulho disso. Na hierarquia do ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, isso provavelmente me coloca numa categoria não muito elevada de cidadãos, mas, como vivemos numa democracia, posso dar uma banana para os valores propugnados por qualquer autoridade e ficar com os meus.

Minha rejeição aos símbolos augustos da pátria tem uma explicação lógica. Cresci nos anos 70. Uma das escolas que frequentei obrigava a garotada a hastear a bandeira e entoar o hino diariamente. Meus pais, quando souberam disso, fizeram questão de me dizer que o governo militar era uma porcaria, mas acrescentaram que eu não deveria repetir isso na escola. “Porcaria” foi o termo que eles encontraram para explicar para um menino de seis anos que os governantes de então haviam chegado ao poder por meio de um golpe e que torturavam e matavam presos políticos.

Meu cérebro infantil resolveu a dissonância cognitiva desenvolvendo uma espécie de alergia ao hino e ao nacionalismo. É claro que isso só faz sentido para mim e talvez para outros que tenham vivido histórias parecidas. Para a imensa maioria dos brasileiros, não há nada de essencialmente errado em conhecer e cantar o hino, até com entusiasmo, se assim desejarem.

O nacionalismo é um negócio complicado. Em doses baixas, é um elemento valioso para dar a grupos populacionais cultural e economicamente heterogêneos um senso de comunidade, o que facilita a cooperação. Em doses altas, porém, ele se torna um produto tóxico.

Ambição, sadismo e excesso de autoestima explicam a grande maioria dos atos de violência no planeta. Mas, para chegar aos grandes massacres da história, é necessário introduzir um quarto ingrediente, a ideologia, que costuma aparecer como nacionalismo ou religião. O governo Bolsonaro estimula os dois. Nutrir algum ceticismo em relação a eles é uma necessidade.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

O conatus coletivo e a democracia no Tratado Político de Benedictus de Spinoza

Liberdade como fim da política: o famoso Capítulo XX do Tratado Teológico-Político de Spinoza