Fora Temer

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Por que o Fora Temer é uma proposta suicida para os democratas

Crimes políticos (contra a democracia) não podem ser a mesma coisa que crimes comuns praticados por políticos. Eis o ponto! Quem não entende isso faz, objetivamente, ou o jogo dos autocratas de esquerda do PT ou o jogo dos autocratas de direita.

O Fora Temer, gritado pela esquerda e pela direita, muito provavelmente trará o PT de volta ao poder. Isso nada tem a ver com o processo contra a chapa Dilma-Temer de 2014 no TSE. Que a justiça caminhe com independência e faça sua parte. Se o tribunal concluir que Temer (ou o PSDB) é tão responsável quanto Dilma (e o PT) pelos crimes eleitorais que foram cometidos na última campanha presidencial, que assim seja. Não é disso que estou falando. Estou falando da política: de os que se opuseram ou PT quererem agora engrossar, sem qualquer alternativa, um movimento político pela saída de Temer esperando com isso dar um choque no sistema para ver o que acontece. Esta proposta não é apenas irresponsável. É suicida para os democratas! E vou explicar por que.

Comecem pensando comigo. Temer era da base do PT. Só assumiu o governo porque assim manda a Constituição, não porque tivesse sido diretamente escolhido pelas urnas ou ungido pelas ruas.

O PT é a organização que estruturou estrategicamente a prática de crimes políticos (contra a democracia). É um imperativo democrático, portanto, punir os que cometeram crimes para violentar o regime democrático – e, sobretudo, impedir por todos os meios legais e políticos democráticos, sua volta ao poder -, concordam?

Todavia, os políticos do PT e de todos os partidos da sua base (e inclusive de partidos da oposição) também praticaram crimes comuns (no mínimo, lavagem de dinheiro criminoso via caixa 1 ou caixa 2 com dinheiro legal ou ilegal). Esses crimes também afetam a democracia, mas não são necessariamente crimes políticos (contra a democracia) na medida em que seus autores não tinham como objetivo alterar a natureza do regime democrático (na maior parte dos casos foram cometidos por atores políticos que queriam se eleger, se reeleger, ficar ricos e se dar bem na vida, como Cabral).

Assim, os crimes comuns praticados por políticos de todos os matizes não têm o mesmo efeito deletério, para a democracia, do que os crimes políticos praticados pelo PT para bolivarianizar o regime.

Cabe à sociedade democrática, tendo como instrumento o Estado democrático, se proteger dos que querem violar a democracia. Cabe ao Estado de direito punir todos os crimes, sejam quais forem (ainda que nosso arcabouço legal não faça distinção entre crimes políticos e crimes cometidos por políticos em razão da função que desempenham ou do cargo público que ocupam: eis a origem de toda confusão reinante nos dias que correm).

Pois bem: que a justiça continue a fazer isso: aplicar a lei. Do que se trata aqui é da política. Se vamos fazer um movimento político para tirar dos seus cargos todos os políticos que praticaram crimes comuns, sejam do PT ou de qualquer partido, a palavra de ordem não seria Fora Temer e sim Fora Todos os Políticos (todos os que, de um modo ou de outro, praticaram crimes no exercício de seus mantados e em função deles).

Mas qual seria a consequência de retirar os mandatos de todos os políticos que receberam dinheiro ilegal em caixa 1 ou dinheiro legal ou ilegal em caixa 2 (seja para financiar suas campanhas, seja para embolsar os recursos)?

Pensem agora com seus próprios botões. Poderia haver transição democrática se fizéssemos isso? Quem seriam os atores puros e honestos que ocupariam o seu lugar? Aboliríamos o parlamento? Deveríamos suspender o regime democrático, nomear um ditador para sanear a política, separar os bons dos maus, punir os maus, purificar a esfera pública e, quando a obra estivesse concluída, voltar à democracia? Deveríamos eleger um autocrata honesto para colocar ordem na casa (considerando que um autocrata no poder, tenha sido eleito ou não, representa um perigo para a democracia muito maior do que um sistema político infestado de políticos desonestos)?

Vejam abaixo por que não há erro político maior neste momento, para a democracia, do que engrossar o coro Fora Temer.

A – Quem defende o Fora Temer?

1) Em primeiro lugar os petistas, que querem criar o caos para escapar da justiça, confundindo o assalto ao Estado, que praticaram para bolivarianizar o regime, com a corrupção tradicional da política e pretendem apresentar Lula como o salvador nas urnas de 2018 para voltar ao poder.

2) Em segundo lugar, os moralistas, que querem separar os bons dos maus e acham que devemos limpar a política, varrer toda a sujeira do mundo, purificar a esfera pública de uma vez, provocar irresponsavelmente um curto-circuito no sistema representativo só para ver no que vai dar – sem qualquer projeto e não levando em conta a necessidade de uma transição democrática.

3) Estes últimos são instrumentalizados pelos oportunistas de direita que acham que, apresentando-se também como salvadores, terão alguma chance de empalmar o poder. É a direita hidrófoba e autocrática, composta por Bolsonaro e sua turbamulta vil de seguidores, abençoada pelo Olavo de Carvalho e seus fanáticos e apoiada por militares nacionalistas, antiglobalistas conspiracionistas, trumpistas, analfabetos democráticos, inimigos declarados da democracia e malfeitores de todos os matizes.

B – Qual será o resultado objetivo de um Fora Temer bem-sucedido?

Com maior probabilidade a volta do PT ao poder, pois malucos como Bolsonaro não têm a menor chance eleitoral contra o cara que colocou pobre andando de avião e fazendo faculdade. Com menor probabilidade a eleição de uma esquerdista dissimulada como Marina.

C – Qual é a postura democrática num momento tão crucial?

Ir às ruas para apoiar a Lava Jato, exigir a prisão de Lula (o chefe do maior esquema criminoso da história, segundo os procuradores da força-tarefa da Lava Jato), o cancelamento de registro do PT (porque o PT é a organização criminosa que praticou crimes políticos contra a democracia) e preparar uma alternativa para 2018 que possa barrar as pretensões dos autocratas de chegar ao governo, sejam de esquerda ou de direita.

É preciso entender que os democratas não são uma espécie de polícia moral da humanidade. Quem tem polícia moral é o Irã, o Talibã, o Isis, o Erdogan (com seus bate-paus) e outros regimes autocráticos (como o de Putin). Os democratas são apenas os que tomam o sentido da política como a liberdade e não querem viver sob o jugo de um senhor.

Por que fazer um movimento político baseado no Fora Temer é uma proposta suicida? Não estou falando da saída de Temer do governo em razão de condenação jurídica, repito. A proposta é suicida, do ponto de vista da democracia, porque não vê que a maior ameaça à democracia brasileira da atualidade continua sendo a representada pelo PT, não pelo PMDB de Cabral, ou de Cunha, ou de Renan (não importa quanto eles tenham roubado para se locupletar). E nem mesmo pelos autocratas de direita que se assanharam com a vitória de Trump e resolveram sair do armário com a crise do PT (embora muitos desses tivessem votado em Lula e até permanecido na sua base de apoio mesmo após a descoberta do mensalão). Os autocratas de direita são uma ameaça à democracia, sim, mas de médio e longo prazo.

Por que o PT é a maior ameaça?

1 – Porque o PT tem projeto estratégico estruturado que visa conquistar hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido via governo conquistado eleitoralmente. Porque o PT, caso volte ao governo, tem uma pauta autocratizante já claramente formulada: controle partidário-governamental (disfarçado de social ou civil) dos meios de comunicação e da internet, fortalecimento de forças nacionais de segurança militarizadas subordinadas ao governo e não como entes de Estado, coligação com regimes ditatoriais ou protoditatoriais e importação de agentes desses regimes, partidocracia (voto em lista pré-ordenada, fidelidade partidária e financiamento exclusivamente estatal de campanha), criação de novas instâncias participativas dirigidas pelo partido do governo para cercar a institucionalidade vigente e subordinar a dinâmica social à lógica do Estado aparelhado (com a instituição da participação assembleísta e conselhista arrebanhada e controlada por “movimento sociais”), plebiscito para convocar uma Constituinte exclusiva de reforma política que legalize e legitime tudo isso. O objetivo do PT, caso volte ao governo, é nunca mais sair do governo (abolindo, como fazem seus aliados bolivarianos, a rotatividade ou alternância democrática).

2 – Porque o PT continua socialmente enraizado em amplos setores organizados da sociedade brasileira (universidades, sindicatos, centrais, organizações de representação de classe ou categoria, movimentos sociais que atuam como correias de transmissão partidária, setores artísticos e culturais, criptopetistas infiltrados no jornalismo dos grandes meios de comunicação, ongs que atuaram na última década como organizações neo-governamentais, financiadas com dinheiro público, rede suja de veículos alternativos a serviço do partido, antes financiadas com dinheiro público e agora com dinheiro do crime, escritórios de advocacia que atuam na linha do falecido Consiglieri Thomaz Bastos.

3 – Porque o PT tem um candidato competitivo para a presidência da República nas eleições de 2018, com recall suficiente para ser lembrado por milhões de eleitores como aquele que, conquanto possa ter roubado (como todos os políticos roubam), se preocupou com os mais pobres, permitindo que eles andassem de avião, frequentassem faculdade e comprassem geladeira. E se todos roubam, por que não Lula?

4 – Porque o PT tem uma narrativa já consolidada e introjetada por amplos setores, segundo a qual teria sofrido um golpe que retirou ilegitimamente Dilma do governo (e tanto é assim que o mandato do seu substituto está sendo questionado pela justiça e que todos os seus principais auxiliares ou tiveram de ser demitidos ou estão sendo acusados de corrupção) e que não permitir a candidatura de Lula será um segundo golpe (para evitar antidemocraticamente sua vitoria certa ou quase certa em 2018).

Ora, faça-se sem medo a pergunta: qual é o outro partido que tem esse potencial?

No entanto, esse potencial só será transformado em ativos ao se criar um clima institucional de confusão que impeça a tempestiva aplicação das leis. Por isso é tão importante, para o PT, criar um movimento político baseado no Fora Temer. Toda a confusão resultante dessa segunda interrupção seguida de um mandato presidencial, ensejará a vitória de Lula. A chave é simples: um ambiente de caos permitirá que Lula manobre para empurrar para frente a sua condenação em segunda instância (a única que o tornará inelegível). E uma vez lançada sua candidatura, ficará mais improvável que ela seja interrompida por uma decisão jurídica, que tenderá a soar – no país e no exterior – como uma intervenção ilegítima no processo democrático.

A proposta de contribuir para criar esse clima é suicida, do ponto de vista dos que lutaram contra o PT e a favor da democracia, porque apenas favorece ao PT e aos aventureiros que, como Bolsonaro, acham que têm alguma chance de bater Lula numa disputa nas urnas. No fim dará Lula. Ou, na melhor das hipóteses, Marina.

Para que isso não aconteça é necessário, repetindo:

Ir às ruas para apoiar a Lava Jato, exigir a prisão de Lula (o chefe do maior esquema criminoso da história, segundo os procuradores da força-tarefa da Lava Jato), o cancelamento de registro do PT (porque o PT é a organização criminosa que praticou crimes políticos contra a democracia) e preparar uma alternativa para 2018 que possa barrar as pretensões dos autocratas de chegar ao governo, sejam de esquerda ou de direita.


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