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Por que o movimento dos caminhoneiros não é um swarming

O emocionar é tudo

Como me dedico, há duas décadas, à nova ciência das redes e investigo a nova fenomenologia da interação em mundos altamente conectados – como o clustering, o swarming (ou flocking), o cloning, o crunching, os múltiplos laços de retroalimentação de reforço que amplificam pequenos estímulos mudando o comportamento dos agentes do sistema, a reverberação, o looping de recursão et coetera -, as pessoas me perguntam a toda hora se o chamado movimento dos caminhoneiros não teria as características de um swarming civil (um enxameamento distribuído de pessoas, sem comando e organização centralizada).

Minha resposta tem sido: não. Não, pelo menos, até agora. Pode virar, é claro. O fator detonador de um swarming, pode ser qualquer coisa a rigor (desde os “dois cents” de aumento nas passagens de ônibus, como ocorreu em junho de 2013 no Brasil, até a remoção de um parque urbano na Turquia, que aconteceu na mesma época) e este fator não tem a ver com o fenômeno interativo propriamente dito, que pode ou não se constelar quando o entrecruzamento exponencial de estímulos, a partir de um tipping point, que não se pode conhecer de antemão, cria uma dinâmica de amplificação, por auto-organização e emergência, que se torna imune a qualquer controle.

Alguns perguntam se o lockout atual de empresários controladores de frotas rodoviárias e contratadores de “autônomos”, que saiu do controle dos primeiros e não respeita os acordos feitos por eles com o governo, não é uma espécie de reprise do junho de 2013 no Brasil.

Também tenho dito que não. Virou, em algumas regiões do país, um movimento popular, é claro, mas nem todo movimento que conta com o apoio da população é um swarming. Os cortadores de cabeça da Revolução Francesa, os jacobinos que tiveram o apoio dos sans-culottes, também foram um movimento popular, mas nada de swarming. Aliás, junho de 2013 foi um movimento social (com repercussões políticas, por certo, mas sem alvos político-eleitorais determinados) e que não prejudicou a vida da população (a não ser quando entraram, depois, os Black Blocs depredando). Esta característica pacífica foi comum em 90% dos swarmings ocorridos neste século, a partir dos protestos de março de 2004, na Espanha, contra os atentados da Al Qaeda, até à chamada Revolução dos Guarda-Chuvas dos H-Kongers, em setembro e outubro de 2014.

Examinemos a questão a partir das suas características, não em linguagem técnica, mas de divulgação científica.

O QUE É UM SWARMING

Uma das grandes descoberta da nova ciência das redes (ocorrida já neste século) foi a seguinte: tudo que interage pode enxamear. Swarming (ou swarm behavior) e suas variantes como herding e shoaling, não acontecem somente com insetos, formigas, abelhas, pássaros, quadrúpedes e peixes. Em termos genéricos esses movimentos coletivos (também chamados de flocking) ocorrem quando um grande número de entidades self-propelled interagem. Algum tipo de inteligência coletiva (swarm intelligence) está sempre envolvida nestes movimentos. Já se sabe que isso também ocorre com humanos, quando multidões se aglomeram (clustering) e “evoluem” sincronizadamente sem qualquer condução exercida por algum líder; ou quando muitas pessoas enxameiam e provocam grandes mobilizações sem convocação ou coordenação centralizada, a partir de estímulos que se propagam P2P, por contágio viral.

E não ocorre apenas como uma forma de conflito, como ficamos acostumados a pensar depois que Arquilla e Ronsfeld (2000) produziram para a Rand Corporation seu famoso paper “Swarming and the future of conflict”. Um exemplo conhecido dos efeitos surpreendentes do swarming – no caso, civil – foi a reação da sociedade espanhola aos atentados terroristas cometidos pela Al-Qaeda em 11 de Março de 2004. Escrevendo sobre isso, ainda preso as visões do swarming como netwar, David de Ugarte (2007), em O poder das redes, acerta porém quando diz:

“Como organizar, pois, ações em um mundo de redes distribuídas? Como se chega a um swarming civil? Em primeiro lugar, renunciando a organizar. Os movimentos surgem por auto-agregação espontânea, de tal forma que planificar o que se vai fazer, quem e quando o fará, não tem nenhum sentido, porque não saberemos o quê, até que o quem tenha atuado”.

O swarming (enxameamento) é uma forma de interação. Deixar o enxameamento agir significa ‘renunciar a organizar’, quer dizer, a disciplinar a interação.

O fenômeno acontece com mais rapidez em função direta dos graus de conectividade e de distribuição da rede. Em mundos altamente conectados tais movimentos tendem a irromper com mais frequência. E é por isso que eles surgem por emergência, não supervêm a partir de qualquer instância centralizada. Assim, do que se trata é de deixar mesmo. As tentativas de provocar artificialmente swarmings, instrumentalizando o processo para derrotar um adversário, destruir um inimigo, disputar uma posição, vencer uma eleição ou vender mais produtos batendo a concorrência, em geral não têm dado certo. Todas elas acabam, contraditoriamente, fazendo aquilo que negam: tentando organizar a auto-organização.

E ainda bem que tais tentativas fracassam: do contrário viveríamos em mundos altamente centralizados por aqueles que possuíssem o segredo de como desencadear swarmings. De posse desse conhecimento (que logo seria trancado), um partido poderia eleger seus candidatos (e mantê-los no poder indefinidamente) ou uma empresa poderia reinar sozinha no seu ramo de negócio.

Nada a ver com conteúdo. Na sua intimidade, o processo de swarming pressupõe clustering e se propaga por meio de cloning.

O MOVIMENTO DOS CAMINHONEIROS NÃO TEM AS CARACTERÍSTICAS DE UM SWARMING

Repisemos o básico. Não há multidões enxameadas nas ruas. Essa característica é comum a todos os swarmings.

Não há, igualmente, a presença de um emocionar amistoso, confraternizante, meio na vibe do satyagraha até quando as pessoas enxameadas são agredidas pelas forças de segurança ou por grupos contrários às manifestações ou protestos. Sim, todos os swarmings do século 21 (de Madri em março de 2004 a Hong Kong em setembro de 2014, passando pelo 11F no Cairo, na Praça Tahir (que levou à queda de Mubarak), pelo 15M dos Indignados de España de 2011, pelo 17S de 2011 no Zuccotti Park, em NY e, até, o 30J de 2013 em todas as cidades do Egito, que levou a deposição do jihadista eleito da Irmandade Muçulmana, Mohamed Morsi – naquela que foi a maior manifestação da história humana), todos eles foram pacíficos e não visaram prejudicar as populações. Pelo contrário, como na Praça Maidan, em Kiev, na Ucrânia, na passagem de 2013 para 2014, distribuíram alimentos e remédios (inclusive para os soldados), montaram hospitais de campanha e cuidaram dos feridos pela repressão do títere de Putin, Víktor Yanukóvytch.

O “clima” dos swarmings é mais lírico do que épico. Não são, em geral, movimentações mau-humoradas, que espalham inimizade no mundo. Mesmo quando pedem a queda de governos, o fazem, não raro, cantando e dançando. São emanações humanizantes, como se inspiradas pelo Samba da Benção do Vinícius: “É melhor ser alegre que ser triste”. Conversei sobre isso pessoalmente com a Ruslana (Stepanivna Lyzhychko), a popstar ucraniana que foi uma das principais ativistas do Euromaidan no TEDxLiberdade – The Power of Together – (no qual fomos speakers).

O movimento dos caminhoneiros, que começou com um lockout de grandes empresários de transporte de carga e contratadores de motoristas “autônomos” e acabou virando um motim instrumentalizado politicamente por intervencionistas e bolsonaristas, por um lado e, por outro, por setores ligados ao PT e a partidos aliados-subordinados e frentes antidemocráticas como a tal Frente Brasil Popular, contou, de fato, com a admiração de extensos setores da população, mas nem do ponto de vista da morfologia da rede, nem da sua dinâmica, apresentou as características de um swarming.

A instrumentalização política desse movimento é assunto para outro artigo. De pronto, pode-se dizer que o emocionar que tem alimentado essa perturbação no campo social é o oposto do emocionar dos swarmings, em que cada pessoa é a sua própria manifestação. Interesse (econômico e egotista) mais do que desejo. Mau-humor (e raiva) mais do que alegria. Espírito de revanche social (e vontade de vingança) mais do que comprazimento com a convivência amistosa dos que buscam novos ares (como naquele memorável 20 de junho de 2013, em que as pessoas sentaram no chão da Avenida Paulista e começaram a conversar entre si e, inclusive, com os policiais militares presentes). O emocionar é tudo.

Não. Agora é outra coisa, milícias mal-encaradas coagindo os donos de postos de gasolina para que não abasteçam seus tanques, bloqueios (nos acostamentos) ameaçando bater e matar motoristas que querem apenas trabalhar e voltar para seus lares. Ora, isso não se parece em nada com as velhas senhoras e os jovens imberbes com seus guarda-chuvas coloridos dançando na chuva em Hong-Kong (e olhem que eles estavam resistindo a algo infinitamente pior do que o combalido governo Temer, que nunca violou a Constituição: estavam afrontando diretamente a maior ditadura do planeta).

Agora estamos sendo vítimas de outra coisa, maligna e agressiva, um ataque frontal ao coração da democracia. O que temos são milícias (inclusive, algumas, armadas) apostando no caos e instrumentalizando os caminhoneiros para impor saídas antidemocráticas. Pelo simples motivo de terem descoberto que, sem o caos, em condições normais de temperatura e pressão, seu candidato não poderá sair vitorioso nas eleições de 2018.

Resta saber se as forças de segurança do Estado de direito vão cumprir o seu papel ou se vão continuar fazendo corpo mole e com isso apoiando indiretamente o motim, a sedição e o golpe. Se isso se confirmar, podemos caminhar em marcha-batida, da democracia para a tirania.


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