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O perigo por trás da descoberta de que o bolsonarismo é inepto para governar o país

Existe uma força política que possa ser chamada de bolsonarismo? Parece claro que sim. Isso não era apenas coisa de campanha eleitoral? Parece claro que não. Basta analisar a mensagem enviada pelo presidente Jair Bolsonaro ao Congresso Nacional (em 04/02/2019). Vejamos, a título de exemplo, apenas três pontos inaceitáveis dessa mensagem oficial:

1) “O Brasil resistiu a décadas de uma operação cultural e política destinada a destruir a essência mais singela e solidária de nosso povo, representada nos valores da civilização judaico-cristã. Esse processo começou pela dominação cultural nos espaços de formação e informação, passou pela ocupação do poder nas estruturas públicas e instituições e, por fim, chegou ao próprio governo. O Estado foi assaltado”.

A narrativa ideológica – bannonista, olavista e bolsonarista – é falsificadora da história. Não houve uma “operação cultural e política destinada a destruir… [os] valores da civilização judaico-cristã”. Nem houve tal conspiração, nem o Brasil (a quem ele se referia?) resistiu a ela, nem mesmo existe essa construção solerte e mistificadora de “civilização judaico-cristã”. Por outro lado, o parágrafo associa o assalto ao Estado (cometido de fato pelo PT) com a aplicação de uma estratégia (comunista, está implícito). Mais uma vez o bolsonarismo identifica corrupção com adesão à uma visão de mundo (ou seja, corruptos e supostos comunistas – ele se referia à “esquerda” – são a mesma coisa).

2) “O governo de então foi tímido na proteção da vítima e efusivo na vitimização social do criminoso. A mentalidade era: quem deve ir para o banco dos réus é a sociedade. Isso acabou! O Governo brasileiro declara guerra ao crime organizado”.

Errado e inadmissível. O crime organizado não é uma força bélica contra a qual teríamos de fazer guerra. Em democracias, ação policial não é guerra: se for, a morte (tanto de criminosos, quanto de agentes da lei) é aceita como legítima (ou inevitável). Ora, ninguém – nenhum ser humano – deve morrer em razão de violência praticada por outrem: nem o cidadão que se comporta de acordo com as leis, nem o policial, nem o bandido. Esta foi a senha para o pacote de Moro.

3) “A mudança que queremos – e precisamos – passa pela união das pessoas de bem, pela coragem dos que conosco irão resistir a todos os ataques que virão pela frente”.

Isso é um discurso de um comandante de um destacamento guerreiro, não o de um presidente de uma república democrática. Para fazer as mudanças que pretende, não basta a Bolsonaro chefiar o governo e o Estado. Ele quer formar uma espécie de “exército” das “pessoas de bem” (outro conceito perverso, que divide os humanos em “do bem” e “do mal” – os corruptos e os supostos comunistas, no limite os liberais que não aceitam a sua pauta antiglobalista-conspiracionista) para “resistir a todos os ataques”. De quem virão tais ataques? Das “pessoas do mal”? Dos que não concordam com o bolsonarismo? Das oposições (sem as quais não pode existir regime democrático)? E quais serão esses “ataques”?

A mensagem oficial do presidente da República resume (ou é uma boa mostra) do bolsonarismo. Sim, existe o bolsonarismo.

No artigo Quem são os bolsonaristas e porque devemos resistir a eles (de 06/01/2019), já foi esboçada uma anatomia do bolsonarismo.

Na classificação proposta (no artigo citado acima) aparecem os vários núcleos que compõem o governo Bolsonaro:

NÚCLEO “ARQUIVO X”

Combatentes antiglobalistas conspiracionistas e anticomunistas-macarthistas, trumpistas e bannonistas (como os olavistas)

Monarquistas tradicionalistas

Religiosos católicos ultraconservadores (tipo TFP)

Hierarcas ocultistas (maçons, teosofistas e outras seitas míticas, sacerdotais, autocráticas e templárias)

NÚCLEO “FANÁTICOS E ZUMBIS”

Jovens jihadistas de iPhone e tiazinhas do WhatsApp analfabetos democráticos que tomam a política como uma espécie de guerra religiosa

Fiéis evangélicos fundamentalistas

NÚCLEO “FAMILISTA”

Bolsonaro, seus filhos, sua mulher e agregados faz-tudo (tipo Fabrício Queiroz)

NÚCLEO “JACOBINO-RESTAURACIONISTA”

Membros do Judiciário, do MP, de forças policiais, antagonistas da antipolítica da terra arrasada (que instrumentalizam politicamente as operações de combate à corrupção e exploram o moralismo da população)

NÚCLEO “MILITARISTA-INTERVENCIONISTA

Oficiais linha-dura das Forças Armadas que decidiram tutelar e ocupar o governo pegando uma carona na candidatura Bolsonaro e dele fazendo seu Cavalo de Troia para contrabandear suas ideias i-liberais para a cena pública

NÚCLEO “REALPOLITIK”

Economistas liberais e políticos tradicionais que querem estar no poder (e não são necessariamente bolsonaristas)

NÚCLEO “VIGARISTA”

Bispos e pastores evangélicos espertalhões, políticos adesistas e outros oportunistas (que não são necessariamente bolsonaristas).

O quadrinho abaixo resume a classificação:

O governo é composto por esses, assim chamados, “núcleos”. Não há organicidade entre eles: é um ajuntamento presidido por várias racionalidades (ou irracionalidades, seria melhor dizer).

Bolsonaristas, stricto sensu, são somente os três primeiros núcleos: “Arquivo X”, “Familista” e “Fanáticos e Zumbis”. Os demais se juntaram a Bolsonaro porque viram potencial em sua candidatura. Usaram-no, cada qual a seu modo, ou como “bonde” para chegar ao Planalto (como é o caso dos núcleos “Jacobino-Restauracionista”, “Realpolitik” e “Vigarista”) ou como Cavalo de Troia para contrabandear para a esfera pública seus projetos (via de regra i-liberais), como é o caso do núcleo “Militarista-Intervencionista”.

Há alianças, explícitas e tácitas, entre os diferentes núcleos. Com o acirramento das contradições entre os núcleos propriamente bolsonaristas (“Arquivo X”, “Fanáticos e Zumbis” e “Familista”), que pretendem fazer uma revolução (ainda que para trás, retrogradadora, dita “de direita”, mas na verdade de extrema-direita) e os demais (sobretudo com os núcleos “Militarista-Intervencionista” e “Realpolitik”) que querem governar, conduzir o país, algumas dessas alianças tendem a se quebrar.

O núcleo “Jacobino-Restauracionista”, ficou meio perdido nessa correlação de forças. Seu principal expoente, Sérgio Moro, não sabe bem como se posicionar pois, em parte, precisa da antipolítica da terra arrasada para fazer a sua “Revolução Francesa” com duzentos anos de atraso. Por outro lado, como é composto por estamentos corporativos do Estado (que formaram uma espécie de “Liga da Justiça”, na verdade uma milícia, ainda que legal, posto que não prevista em nosso arcabouço constitucional) esse núcleo depende do muque bolsonarista para angariar apoio popular para suas ideias (que, na prática, se concretizadas, não farão revolução francesa nenhuma, mas instaurarão um Estado policial no Brasil). Ademais, todos os seus mais ferrenhos apoiadores, que montaram grupos de combate à corrupção e de apoio ao herói Moro, como as várias versões da tal “República de Curitiba”, acabaram virando comitês eleitorais de Bolsonaro, tendo conseguido eleger seus principais líderes, que já haviam virado, ainda durante a campanha, militantes bolsonaristas.

Pois bem. O “projeto” bolsonarista só poderia funcionar se houvesse uma ruptura institucional (e uma autocratização do regime). Não havendo (felizmente), teremos crises seguidas de crises, mas não causadas pela oposição (que nem existe ainda) e sim pelos próprios bolsonaristas.

Nos sonhos bolsonaristas-olavistas (para nós, verdadeiros pesadelos) não há lugar para a política. Eles não precisam de um presidente constitucional, sujeito às regras da democracia, e sim de um chefe para comandar uma guerra civil fria (contra um imaginário “marxismo cultural” como pretexto, mas na verdade contra a sociedade aberta).

Todavia, enquanto houver parlamento e imprensa livres e judiciário independente, nenhuma das medidas revolucionárias (para trás) preconizadas pelo bolsonarismo poderá se concretizar satisfatoriamente (para eles). Qualquer avanço mais substantivo, qualquer proposta “pura” do ideário regressivo esposado pela família Bolsonaro e pelos seus ideólogos levará a um impasse.

Ao que tudo indica, até agora, a sociedade brasileira não aceitará calada políticas exterministas (como a licença para matar), nem direitos humanos somente para alguns (os “humanos direitos”), nem escola sem partido (de esquerda), mas com doutrinação (de direita), nem armamentismo popular (com a ampliação indiscriminada da posse e, como eles querem, do porte de armas), nem uma aliança tácita do governo com as milícias e a banda podre das polícias, muito menos um Estado policial e, por último, acabará recusando a instrumentalização política da Lava Jato (que só pega os corruptos inimigos e poupa os bolsonaristas, sobretudo os do partido do presidente e os da sua própria família).

E é um erro clamar aos militares para que ponham ordem na casa: em primeiro lugar porque eles não sabem fazer isso por meio da política, e sim somente impondo um controle hierárquico e vertical – e a sociedade brasileira também não aceitará calada a tutela militar sobre o poder civil.

Em segundo lugar, é um erro apoiar os militares na sua luta contra os bolsonaristas-raiz porque esses generais que ocuparam o governo não são, em sua maioria, aqueles que aceitam a democracia e se subordinam ao poder civil (a não ser em termos táticos, como fazia o PT) e sim os que elogiam o torturador Brilhante Ustra (e chamam o monstro de herói, como fez, inclusive, Hamilton Mourão – que parece ter sido vítima, agora, de um súbito ataque de sophrosyne, quer dizer, daquilo que os gregos do século de Péricles chamavam de “moderação”). Há, por certo, entre eles, uma turma estritamente profissional, mas há também, em maior número (e com ascendência sobre os demais), uma turma da linha-dura, i-liberal, que veio na vibe do AI5 (o qual, como todos sabemos, não foi desferido contra os comunistas e sim contra os democratas).

Não é bom profetizar (seja porque a profecia costuma ser letal para os profetas, seja porque ela – não adivinhando, mas inventando futuro – pode se concretizar). Mas é quase impossível não arriscar neste momento uma profecia: recomeçará no Brasil uma movimentação pela intervenção militar (ainda que dita “branca”).

Vejam a que ponto chegamos. Há, não adianta negar, uma ocupação militar do governo (coisa que, no volume ocorrido no Brasil de Bolsonaro, nunca houve em uma democracia, em qualquer lugar do mundo ou época da história). Mas analistas críticos, como Reinaldo Azevedo (e vários outros), acabam achando que isso é até melhor em comparação com os núcleos “Arquivo X” (que tem gente como Ernesto Araújo) e “Familista” (com Flávio, Queiroz e milicianos agregados) do governo. No último dia 11 de fevereiro, Reinaldo escreveu em seu blog:

“Mas e esse monte de generais, Reinaldo? Meus caros, dados presidente e governo, é o que temos para hoje. Se ajuda a pensar um pouco, vejam alguns nomes que foram escalados e que nunca vestiram farda. Convenham: no cotejo com boa parte dos civis, os generais chegam a parecer Schopenhauer”.

Do ponto de vista da democracia liberal, isso está errado, é claro. Montamos um governo e colocamos o general Emílio Médici em um ministério e a Damares Alves em outro. Aí as pessoas (inclusive as mais críticas) dizem:

” – Puxa, ainda bem que temos neste governo um cara como o Médici”.

Cuidado! É uma armadilha. Nem os analistas mais críticos estão conseguindo ver o perigo por trás da descoberta de que o bolsonarismo é inepto para governar o país.


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As ideias totalitárias de Platão – O Julgamento de Sócrates de I. F. Stone – 10

Quem foi o acusador? – O Julgamento de Sócrates de I. F. Stone – 11