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Por que Olavo de Carvalho não pode ser um genuíno conservador

Um artigo de um verdadeiro conservador – João Pereira Coutinho, bom escritor e doutor em ciência política – sobre Olavo de Carvalho (que nunca foi conservador e sim reacionário ou retrogradador) veio à luz na Folha Ilustrada de ontem (14/12/2018). Coutinho foi benevolente, mas sua crítica phyna é capaz de ferir o dementador rotundo como um golpe de florete em balestra no ventre, mostrando por que Olavo não pode ser um conservador digno do nome. No conjunto, Coutinho deixa claro que o filósofo da Virgínia continua preso ao schema historicista marxista, acertando sempre a si mesmo: cada vez que ataca (que é só o que faz), se revela.

Considerando o papel maligno que esse sujeito vem prestando ao país do ponto de vista da democracia, eu não seria tão atencioso, nem mesmo por bons-modos ou cortesia. Mas eu não sou um conservador, como João Pereira Coutinho (não quero preservar nada dessas circularidades do pensamento educado de salão dos séculos passados) e sim um liberal, em política e economia – e também nos costumes (menciono-o porque alguns agora pegaram a mania tola de repetir que são “liberais em economia e conservadores nos costumes”, como se com isso dissessem alguma coisa aproveitável).

Bom, divirtam-se com o artigo, que vai reproduzido abaixo na íntegra.

Olavo de Carvalho tem espada sarcástica, mas faz marxismo do avesso

João Pereira Coutinho, Folha de São Paulo, 14/12/2018

Polemista talentoso, autor tem atitude estranha para um genuíno conservador, incompatível com suas melhores páginas

Sou estrangeiro em terra estrangeira. Há vantagens. Uma delas é ler certas figuras do pedaço com a distância física e intelectual correspondente.

Olavo de Carvalho é um caso. Sábio para uns; demônio e charlatão para outros; polemista talentoso para mim, o que não admira: sempre gostei das diatribes de Camilo Castelo Branco, apesar da minha costela assumidamente queirosiana.

O próprio Olavo de Carvalho, aliás, cita Camilo como uma das suas influências estilísticas. Não precisava.

A espada sarcástica do escritor luso trespassa “O Imbecil Coletivo e O Mínimo que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota” e atinge a sua melhor expressão em peças violentas, porém divertidas, como “Breve História do Machismo” ou “A Era dos Masturbadores” (ambos no “Idiota”).

Um dos lados mais estimáveis do autor está nesses “divertissements” em que o chicote da sátira é brandido sobre o lombo das ideias feitas.

Numa cultura que celebra a Juventude (com maiúscula) de forma histérica, ler algumas páginas sobre a estupidez da espécie —sempre pronta a marchar pelo primeiro ditador que lhe aparece— é uma forma de profilaxia.

Acontece que Olavo de Carvalho não se limita a exercícios satíricos. O autor tem uma tese que, no “Imbecil” e no “Idiota”, domina o fio narrativo.

Segundo ele, uma “tirania mundial”, um “poder onipresente e invisível” tomou conta dos centros de poder —governos, universidades, mídia etc.— com o único propósito de realizar, na prática, o que Antonio Gramsci defendeu na teoria. Uma revolução marxista, nem mais, pelo sequestro das mentes e das almas.

Esse complô sinistro determina a vida das nossas democracias, governadas na sombra por elites venais; mas também se infiltra, como uma metástase diabólica, na educação e nas relações sociais.

Se ontem havia “o protesto feminista”, hoje há “a apologia aberta da pedofilia e do incesto”. Se ontem havia “aulas de grego e latim” nas nossas escolas, hoje “há seminários de sexo anal”.

Um cínico diria que a evolução do grego e do latim para o sexo anal está em perfeita consonância com os hábitos dos clássicos. Mas o caso é sério e Olavo de Carvalho não está disposto a imitar a direita blasé que, para não sujar as mãos com a ralé esquerdista, opta pela “espiral do silêncio” —uma relutância ou desistência de enfrentar o inimigo.

Dizer que essa versão dos fatos não é convincente seria um gigantesco eufemismo. O problema da proposta olaviana está, desde logo, na gritante contradição entre a teoria e a prática: se existe um complô, é caso para perguntar se ele é realmente onipresente e onipotente.

A situação democrática atual, em que as massas derrubam as elites nos quatro cantos do Ocidente, sugere o oposto: a incompetência da “tirania mundial” para conseguir, pelo menos, uma reles manipulação dos resultados eleitorais a seu favor.

De igual forma, se a “ideologia” dominante (no sentido marxista do termo) converge para o mesmo fim —a revolução— podemos dizer que as universidades e a mídia, que obviamente estão à esquerda, não estão suficientemente à esquerda para uma lavagem cerebral eficaz.

Claro que é sempre possível contra-argumentar que as reações populares (ou populistas) que pululam por aí são um triunfo inesperado do homem comum sobre os novos Sábios de Sião.

Mas Olavo de Carvalho desautoriza essa esperança. As “reações pontuais e esporádicas” da plebe contra a marcha inexorável da história “já estão previstas no esquema de conjunto e canalizadas de antemão no sentido dos resultados pretendidos pela elite iluminada”.

Pergunta óbvia: será que os brasileiros que festejaram a eleição de Jair Bolsonaro não passam de marionetes dessa elite? Eles pensam que são livres; mas vivem apenas uma ilusão de liberdade porque o resultado do jogo já está determinado desde o início.

Como é óbvio, Olavo de Carvalho mimetiza o exato tipo de historicismo que faria as delícias de um marxista. É uma espécie de marxismo do avesso que se limita a reviver o maniqueísmo original. Basta trocar “burguesia” por “elite globalista e fabiana” e a luta de classes continua.

É esse maniqueísmo que, também em nome da nova luta de classes, permite ao autor olhar para a esquerda brasileira —“toda ela”, convém notar— como “um bando de patifes ambiciosos, amorais, maquiavélicos, mentirosos”.

Marx e os seus herdeiros não diriam melhor sobre toda a classe burguesa, em relação à qual mantinham uma discordância que não era epistemológica; era moral e, consequentemente, mortal.

Nesse quesito, relembro sempre as palavras de Roger Scruton para quem a grande diferença entre um conservador e um esquerdista está no fato do primeiro, ao contrário do segundo, ter como objetivo mostrar que o adversário está errado, não que ele é imoral, desumano ou monstruoso.

Olavo de Carvalho discorda. E garante que, por detrás de um esquerdista, está sempre alguém “mau, perverso, falso, deliberado e maquiavélico”. É uma atitude estranha para um genuíno conservador.

Estranha e incompatível com as melhores páginas do autor. Não falo apenas das sátiras; falo dos artigos eruditos sobre os abismos da ideologia; sobre o papel da consciência, esse “fundo insubornável do ser” na conduta moral dos indivíduos; sem esquecer as homenagens sentidas a Viktor Frankl ou os estudos comparativos sobre a Revolução Gloriosa de 1688 por contraposição à Revolução Francesa de 1789, que subscrevo sem hesitar.

Espero que, em próximas obras, Olavo de Carvalho volte a esses temas. E que abandone de uma vez por todas os últimos resquícios de marxismo no lugar onde eles pertencem: o latão de lixo da história.

João Pereira Coutinho é escritor, doutor em ciência política e colunista da Folha


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