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Por que os argumentos bolsonaristas estão totalmente errados

Os argumentos bolsonaristas são especialmente toscos. Vou tentar resumir, em cinco pontos, alguns desses argumentos, para mostrar sua fragilidade, sua ingenuidade e seu caráter antipolítico e antidemocrático. Na verdade, não passam de cinco mentiras que estão sendo vendidas aos eleitores. Veja por que:

1 – Se o PT voltar ao governo o Brasil vai virar imediatamente uma Venezuela.

Errado. O Brasil poderia, remotamente, virar uma Venezuela se e quando o PT tomar o poder, não quando chegar ao governo e, mesmo assim, dependendo das circunstâncias (sei que as mentes rudes das hordas bolsonaristas ainda não sabem a distinção entre governo e poder). A estratégia do PT não é dar um golpe de Estado em termos tradicionais. A estratégia petista é fazer “a revolução pela corrupção” (na expressão do saudoso Ferreira Gullar), em doses homeopáticas, com o objetivo de conquistar hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido para nunca mais sair do governo. O PT não quer mesmo dar um golpe de Estado, não quer promover uma insurreição popular, não quer empreender uma guerra popular prolongada, não quer instalar focos revolucionários e sim vencer eleições seguidamente, por tempo indeterminado, ganhando tempo para operar transformações por dentro do sistema que alterem o DNA da democracia. O PT não quer abolir a democracia e sim alterar o seu genoma, para tanto usando a democracia (notadamente as eleições) contra a própria democracia. Foi esse, aliás, o conselho que Lula deu às FARC (e elas aceitaram). O lulopetismo é uma variante do bolivarianismo porque é um neopopulismo, não porque seja um comunismo (nos termos da guerra fria). É um boliviarianismo à brasileira, quer dizer, adaptado às condições do Brasil. Não é um chavismo-madurismo, nem um sandinismo de segunda geração, como o de Ortega, na Nicarágua. O Brasil dificilmente virará uma Venezuela ou uma Nicarágua se o PT voltar ao governo; não, pelo menos, nos curto e médio prazos. Ademais, Venezuela e Nicarágua foram erros de percurso no projeto neopopulista, não a consumação da estratégia prevista. Só um tolo pode acreditar que alguém que tem um projeto de poder de longo prazo queira destruir seus países, provocar catástrofes humanitárias, levar a inflação às alturas e o PIB para o buraco, causar crises de desabastecimento e, no limite, se suicidar como ator político.

2 – O PT, se for eleito, vai implantar o comunismo no Brasil.

Errado. O PT, conquanto tenha vários dirigentes de origem marxista, não é comunista e sim neopopulista. Os neopopulismos (ou seja, os populismos ditos “de esquerda”), são variantes do estatismo da esquerda contemporânea que adotou instrumentalmente a via eleitoral. Os neopopulistas não querem destruir o nosso sistema político. Antes, querem parasitá-lo, se alimentar dele para crescer no seu interior, como aquela vespa parasitoide (a hymenoepimecis argyraphaga) que deposita seus ovos dentro da aranha (plesiometa argyra) e que, de alguma forma, controla a mente da aranha (ou a reprograma). A aranha passa então a construir teias especialmente preparadas para receber as larvas que nascerão e para mantê-las seguras (até que, quando estão prontas, as larvas devoram a aranha de dentro para fora, saindo do corpo da hospedeira e se aproveitando da casa que ela construiu). Seu objetivo é o poder pelo poder, não a instalação de um regime comunista (que sabe que não pode vingar num país com a complexidade do Brasil em pleno século 21).

3 – O PT e seus aliados, o PSDB, o MDB, o PP, o PDT, a Rede e os demais partidos (com exceção de Bolsonaro) são todos a mesma coisa porque são todos igualmente corruptos e criminosos que querem destruir os valores da civilização ocidental cristã, degenerar a família, derruir a pátria, acabar com a religião, transformar nossas crianças em gays, tornar nossos jovens dependentes de drogas etc.

Errado. Não é tudo a mesma coisa. O PT também praticou a corrupção endêmica na política, mas fez algo inédito e muito mais grave: depositou seus ovos dentro da carcaça podre do velho sistema político, escondendo sua corrupção com propósitos de poder dentro da corrupção tradicional da política (que existe desde Cabral, o navegador, não o governador). O PT não é uma força populista clássica, não é um partido demagógico-fisiológico (se fosse, aliás, não seria uma ameaça tão grave à democracia, a qual aprendeu a conviver com esse tipo de comportamento político e a metabolizá-lo). O PT adotou a via neopopulista (na variante cabocla lulopetista) que é mais perigosa para a democracia no longo prazo do que o próprio bolsonarismo. O PT, é claro, não é um partido conservador nos costumes, mas isso não significa que seu objetivo seja destruir a civilização: a base do PT, assim como a de qualquer partido, é culturalmente conservadora porque a nossa cultura (como toda cultura) é conservadora mesmo.

4 – Bolsonaro é a única chance (e a última chance) de evitar o perigo petista e de desmontar a conspiração comunista que quer destruir o Brasil.

Errado. Por dois motivos. Primeiro porque não há nenhuma conspiração comunista (stricto sensu) a não ser na cabeça de delinquentes ideológicos como Olavo de Carvalho e seus fanáticos. Segundo porque Bolsonaro, se eleito, não terá condições de fazer isso. Um presidente eleito não pode acabar nem com o PT (que está amplamente enraizado no Estado e na sociedade), nem com o velho sistema político: não pode destruir o establishment no grito ou a partir de ordens executivas exaradas do Palácio do Planalto, sobretudo se não tiver sólida e qualificada maioria no Congresso e nos tribunais superiores. Bolsonaro não tem nada disso. Todas essas crenças de que um líder forte, um militar corajoso e honesto, vai consertar as instituições, são uma enganação eleitoreira e um delírio autocrático. Democracias não funcionam assim. Nem mesmo Trump, tendo por trás o fortíssimo e majoritário Partido Republicano, está conseguindo fazer isso nos USA (e ele, aliás, nem quer fazer isso). Nunca há única chance: sempre há várias alternativas em política. Não há última chance: o mundo não vai acabar depois de outubro de 2018 (essa perspectiva apocalíptica, milenarista, é própria de sonhos – ou pesadelos – autocráticos). Além disso é pura antipolítica, incompatível com a democracia. Essa capacidade de transformar tudo a partir da eleição de um presidente só existiria se Bolsonaro, depois de eleito, desse um golpe, quebrasse o Estado de direito e abolisse o regime democrático. Isso também não vai acontecer porque as Forças Armadas, ao que tudo indica, não vão aderir novamente a uma aventura como a de 1964 e o bolsonarismo, forte eleitoralmente neste momento (porque está servindo de desaguadouro para a insatisfação popular com a política e para a raiva contra o PT), não tem força militar, nem contingente popular suficiente e mobilizado para tomar de assalto o palácio e submeter a ele todas as instituições da República.

5 – Votar em Bolsonaro, mesmo que ele não consiga fazer o que promete, é uma maneira de dar um choque no sistema político, afastando os corruptos e comunistas e de conter o crescimento do banditismo nas ruas e nas instituições. Além disso, é um mal menor do que o PT.

Tudo errado. É óbvio que Bolsonaro não conseguirá fazer o que promete (pelos motivos já expostos acima). Não pode acabar, de chofre, com os corruptos e bandidos: no Brasil existem leis e instituições que as aplicam: e não é a presidência da República que poderá alterá-las (por acaso Bolsonaro vai substituir nossos 18 mil juízes?) Por outro lado, não se pode dar um choque no sistema político: para tanto seria necessário uma ampla e profunda reforma política que, alterando a Constituição, cortasse os privilégios da chamada “classe política” e ele, Bolsonaro, não tem maioria para fazer tal reforma. O presidente não pode cassar os mandatos dos parlamentares e governadores fisiológicos ou corruptos (antigos ou novos) que serão eleitos junto com ele. Não pode fazer o milagre de transformar, em um ou dois mandatos, a sociedade brasileira em uma sociedade como a da Nova Zelândia ou da Noruega (única maneira de reduzir drasticamente a criminalidade na sociedade e na política: aumentando os níveis de nosso capital social). Por último, não se sabe se Bolsonaro, no curto prazo, será um perigo menor do que o PT para a democracia. Tudo indica que não. Um eventual governo Bolsonaro é crise na certa: política, econômica e social. O PT, derrotado nas urnas, assumirá a hegemonia de uma oposição não-democrática na sociedade, nos parlamentos e nas demais instituições. Em menos de 100 dias começará a crescer um movimento Fora Bolsonaro (inclusive com a ajuda dos meios de comunicação, que não podem ser empastelados pelo governante). E os próprios bolsonaristas e demais eleitores de Bolsonaro o abandonarão quando ele (como é próprio do jogo democrático) começar a transigir e a negociar, a trocar cargos por votos na Câmara e no Senado, a minimizar suas propostas tresloucadas – como a de armar amplamente a população – para conseguir governar (a rigor, para aprovar qualquer lei, quanto mais para passar uma PEC) e até para se manter no cargo. Não podendo ser destruído no grito, não podendo ser extinto por medida provisória, nem por lei ordinária, o PT se fortalecerá e voltará mais forte do que nunca, nas próximas eleições – e, se bobear, até mesmo durante o mandato de Bolsonaro (por meio de impeachment ou da cassação da chapa). Tudo isso instalará uma guerra civil (ainda que fria, na melhor hipótese, mas mesmo assim guerra) no país. Ora, isso pode resultar, sim, no fim da nossa democracia (ou, pelo menos, na sua queda vertiginosa em todos os rankings internacionais). No mínimo viraremos um motivo de chacota no cenário mundial.

CONCLUSÃO

O PT não pode ser derrotado assim, pela vitória de um antipetista autocrático numa espécie de armagedon eleitoral. O bolsonarismo odeia o PT não porque ele seja antidemocrático. Tem feito, sim – agora, não durante os dois governos Lula – oposição antipetista, mas essa oposição a um projeto autocratizante (como o do PT) é, ela mesmo, autocrática, não democrática. Tem gente dizendo que vota em Bolsonaro para preservar a democracia. É uma alegação burra na medida em que o bolsonarismo jamais tomou a democracia como um valor universal ou como o principal valor da vida pública: pelo contrário, substitui a liberdade pela ordem imposta top down. E é um raciocínio simplista, que só cabe em mentes programadas para a guerra, não para a política. É antipolítica, baseada em comando e controle, não política baseada em diálogo e negociação. O oposto de um candidato autocrático dito de esquerda não é um candidato autocrático dito de direita. O oposto da autocracia é a democracia. Votar em Erdogan para evitar Ortega, votar em Viktor Orban para evitar Nicolás Maduro, votar em Mussolini para evitar Mao, votar em Hitler para evitar Stalin só pode ser solução na cabeça de analfabetos democráticos. O PT só pode ser derrotado pela política (democrática), não por outro projeto autocrático. E isso vai levar tempo, talvez o tempo de uma geração.

UMA NOTA PESSOAL

Os democratas podemos nos preparar para ser estraçalhados no meio da polarização. Já começaram dizendo que sou um comunista a serviço do PT porque, mesmo não escolhendo o PT, também não escolho Bolsonaro.

Mas nós, os democratas, não temos medo de ser minoria. Sempre fomos. Nosso papel não é mesmo ser maioria. Não éramos maioria na Ecclesia ateniense do século 5 a. C. (que inventou a democracia), não éramos maioria do parlamento inglês do século 17 (que a reinventou) e não somos maioria agora. Somos agentes fermentadores da formação da opinião pública. Fermento não é massa.

Alguns insinuaram que sou covarde porque me recuso a escolher o menos pior entre dois candidatos autocráticos. É injusto e boçal. Quando esse pessoal estava caladinho, durante os dois primeiros governos Lula, eu – e alguns poucos – já denunciávamos publicamente, na grande imprensa e em todo lugar, o esquema criminoso de poder do PT. Agora, que esses valentes de undécima hora estão infectados pelo virus-zumbi bolsonarista, eu continuo denunciando que o PT e Bolsonaro não estão no campo democrático. Não venham falar de coragem para quem foi perseguido pela ditadura militar e, depois, pelo PT.


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