Jihadista Dagobah

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Por que os democratas não podem ser militantes

A resistência democrática jamais deve descambar para a guerra, mesmo que na forma de guerra cultural. Quando isso acontece, os lados conformados pela luta se reforçam. Porque os lados são constituídos e alimentados pela luta.

Este é um alerta para grupos que defenderam a democracia contra o projeto autocratizante do PT. Se agora eles entrarem na vibe do confronto, para tentar desconstituir o que chamam de hegemonia cultural da esquerda, vão se desfigurar, quer dizer, vão deixar de ser o que eram e passar a ser uma imagem invertida dos que passaram a combater, usando métodos semelhantes aos do adversário.

Diz-se que para lutar contra um urso você tem que desenvolver garras de urso, mas o que não se diz é que, no final, você acaba virando apenas outro urso. Porque não é o conteúdo do que dizemos, nem o lado que escolhemos na batalha, que define o nosso comportamento político e sim o modo como atuamos e regulamos os conflitos.

Foi assim que o trotskismo virou um stalinismo com o sinal trocado. Foi assim que muitos arautos da liberdade, quando lograram vencer seus algozes por meio da guerra, adotaram os mesmos modos autocráticos que reclamavam dos que antes os oprimiam. Foi por isso que em todas as sociedades pós-revolucionárias, as liberdades foram abolidas e erigiram-se estruturas ainda mais monstruosas de dominação, com destaque para uma polícia política onipresente. E foi também o que aconteceu com os que, tentando combater a ameaça comunista, implantaram ditaduras que perseguiram, torturaram, mutilaram e mataram seus desafetos, instalando um clima de terror e um Estado policial que restringiram as liberdades das pessoas comuns, que nunca optaram por se engajar numa guerra.

Mesmo que nada disso ocorra, ao entrar na vibe da guerra, ao ter como imperativo crescer, crescer, crescer, para destruir seu inimigo, você vai perdendo o que já foi chamado de “espírito da liberdade” e deixando de ser um fermento político democrático na sociedade.

Atenção! Não se trata de destruir os agentes da autocracia e sim de configurar novos ambientes em que a sua influência não possa se reproduzir.

Para tanto, a “fórmula” é simples: não milite!

O QUE SIGNIFICA DIZER “NÃO MILITE”

Quando dizemos “não milite”, o que realmente estamos querendo dizer? Estamos querendo dizer que você não deve se transformar num militante.

Não ser militante, porém, não quer dizer não atuar politicamente, não quer dizer não resistir democraticamente á autocracia.

O que caracteriza o militante como tal é o comportamento guerreiro:

É ser um combatente de uma causa (que encara os que defendem outras causas como inimigos a ser destruídos ou neutralizados).

É ser um fiel de uma religião (que toma quem não é como infiel a ser derrotado ou impedido de professar sua fé).

É ser um seguidor de uma doutrina (considerada sempre correta, contra os que defendem outras doutrinas, julgadas falsas: a orto-doxa contra a doxa, que é sempre qualquer doxa).

É ser um soldado (que é a raiz etimológica da palavra militante, de militans, miles, soldado) de um exército strito ou latu sensu (uma força armada, uma máfia ou uma organização que pratica a política como continuação da guerra por outros meios).

Democratas devem interagir politicamente, mas não podem ser militantes. Não custa repetir: a democracia é um modo não-guerreiro de regulação de conflitos. Ora, um militante é um guerreiro –  não importa que faça guerra quente, guerra fria (aliás, os militantes atuais são, todos, frutos tardios da guerra fria de 1950-1990) ou política como continuação da guerra por outros meios (como fazem, entre outros, os petistas, os olavistas e os bolsonaristas).

Não custa lembrar que o termo militante surgiu na Igreja Católica, no mesmo ambiente mental que justificou as cruzadas: eram proselitistas, catequizadores, colonizadores de consciências, dementadores. Um militante é sempre um jihadista (como um cruzado, acha que está travando uma guerra em nome de uma fé, de uma crença, de uma doutrina que é superior às demais, que é “santa” por se diferenciar de todas as outras, que seriam “profanas”).

O ESPÍRITO MILITANTE É DESTRUTIVO

Um militante é um Midas ao contrário. Tudo que toca se desvaloriza e deteriora. Vejam o caso das mídias sociais, estas maravilhosas ferramentas de interação (que muitos ainda confundem com redes sociais). Elas são ótimas para conversar, aproximam as pessoas (reduzindo os graus de separação), ensejam a descoberta de congruências de desejos (que é o primeiro passo para colaborar, quer dizer, fazer coisas juntos, inaugurando ciclos virtuosos de sintonia => sinergia => simbiose).

Mas aí o militante encara esses novos ambientes interativos como campo de disputa de hegemonia (quer dizer, de guerra). E em vez de colaboração, temos mais competição, luta, relações adversariais (que em vez de ensejar que façamos novos amigos, espalha inimizade no mundo).

O militante, seja de esquerda ou de direita (tanto faz), busca alinhamento de posições, exige concordância com suas ideias e não admite que possamos viver e conviver em ecologias de diferenças coligadas. Assim, do ponto de vista social, o militante é sempre um agente antiecológico, tomado por uma pulsão de destruir o que não se lhe assemelha.

Não haveria vida na Terra, nem sociedade humana, se a racionalidade e a emocionalidade que presidiram a eclosão dessas realidades fossem as do militante.


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