Confissão

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Por que os dirigentes do PT não vão delatar nada que interessa

Muitos – que conhecem muito pouco o PT – ficaram esperançosos com um sinal supostamente emitido por Antonio Palocci, no seu depoimento ao juiz Sérgio Moro, de que estaria propenso a delatar, entregando todo o esquema em troca de uma pena mais leve.

Na falta de inteligência é preciso examinar a questão, pelo menos, com mais prudência. Ao que tudo indica, Palocci, assim como Vaccari (além de Dirceu, os dois únicos dirigentes presos), não vão delatar nada que realmente interessa (para desbaratar a organização criminosa, revelando suas conexões com empresas, partidos e governos, no Brasil e no exterior).

É claro que, em política, tudo pode acontecer, mas não é tão evidente assim que Palocci e Vaccari estejam dispostos a delatar seu chefe (no singular, posto que só há um: Lula), seus comparsas e os grandes financiadores empresariais do esquema, ainda ocultos. Até hoje nenhum quadro do Partido Interno (a velha Articulação, que de fato dirige o PT), confessou nada, nem delatou a organização. Assim foi com Dirceu e Delúbio (não falemos de Genoino, posto que este nunca pertenceu ao núcleo duro: foi apenas um palhaço que vendeu suas convicções em troca de um holofote e se deu mal).

O mais provável, por enquanto, é que Palocci – ao dizer que tinha nomes de pessoas e empresas, além de detalhes de operações criminosas etc. – estivesse mandando um recado não aos procuradores da República, à força tarefa da Lava Jato e ao juiz Moro e sim à Lula, aos grandes financiadores do esquema que ainda não apareceram (como os bancos), aos parlamentares que estão para aprovar uma lei de abuso de autoridade (cujo objetivo é desidratar a Lava Jato e outras operações congêneres) e, inclusive, a ministros do STF. Ele fez uma clara ameaça, no melhor estilo mafioso: deu o aviso de que tinha “informações sensíveis” e de que pode entregar todo mundo caso não arranjem um meio de soltá-lo.

O mesmo vale para Vaccari. Ele não quer delatar. Quer ameaçar para não ter de delatar – o que é muito diferente. Se Vaccari delatar, outras pessoas como Berzoini, Bargas, Okamotto, Marinho, toda a “velha guarda” e os demais assessores atualmente homiziados no Instituto Lula, vão para o ralo. Todos (ou quase todos) que aparecem na foto que ilustra este post – além de uma centena de pessoas diretamente ligadas a eles – estarão em maus lençóis.

Nem Dirceu, nem Palocci, nem Vaccari, querem entregar seus comparsas (incluindo o seu chefe). Eles estão implorando a esses comparsas que montem um plano de emergência para soltá-los. E, se nada acontecer, mesmo assim não é improvável que estejam esperando uma mudança brusca no cenário político com a volta de Lula em 2018 (a única esperança de Dirceu, por exemplo).

É claro que, pelo menos Palocci – de todos o mais inteligente e o mais sem-caráter -, pode contrariar a previsão contida neste artigo e delatar. Não se sabe exatamente o que está acontecendo na intimidade da organização criminosa (que continua atuante, continua financiada ilegalmente e continua contando com um apoio decisivo, que vai muito além do dever profissional, de advogados que trabalham na linha Thomaz Bastos). Mas é melhor não contar tanto com isso.

Reflitamos por um momento.

Se você fosse Dirceu, Vaccari ou Palocci, confessaria tudo ou aguardaria mais alguns meses para ver o que acontece até 2018?

Para responder, leve em conta o seguinte.

Pode haver muito dinheiro guardado em contas secretas, no Brasil ou no exterior, em nome de laranjas ou de offshores (ou Barusco era o único exemplar de uma espécie exótica em extinção?). O que é melhor: fazer uma delação agora, devolver esse dinheiro em troca de uma pena mais leve ou aguardar para fazer a mesma coisa mais tarde, caso não haja uma reviravolta política? Para quem já está preso há mais de um ano, é assim um drama tão grande ter de esperar um pouco?

E se o dinheiro cuidadosamente poupado para uma aposentadoria milionária estiver guardado, por meio de artifícios financeiros intrincados, por um banco? Vale a pena denunciar esse banco? E se for uma espécie de fundo comum (para vários membros da direção da organização)?

Para evitar uma condenação pesada no curto prazo, não seria melhor negociar uma delação que entregasse apenas empresas ainda ocultas que financiaram o esquema, sem mencionar os companheiros do núcleo duro da organização? Os procuradores da República aceitarão isso?

E se houver nomes do alto judiciário envolvidos? Alguém teria coragem de delatá-los sabendo que isso pode prejudicar possíveis futuros recursos aos tribunais superiores?

E se houver nomes de oficiais de alta patente envolvidos em licitações fraudulentas? Alguém estaria disposto a revelar os detalhes escusos da compra dos caças, do submarino nuclear e de outros armamentos?

A organização ainda existe ou foi desbaratada? Se ela ainda existe, quais os riscos de traí-la vis-a-vis às vantagens de pegar uma pena mais branda?

Faz sentido delatar a organização, para os que (mesmo presos) continuam integrando ou dirigindo a organização (por exemplo, para Dirceu, que a montou e para Vaccari, que a operou)?

Dirceu e Vaccari organizaram o esquema de financiamento da rede suja de veículos de comunicação dedicada a falsificar notícias, de aluguel de pessoas para escrever em blogs e sites alternativos e, inclusive, de suborno da grande imprensa (quem sabe até via bancos). Eles vão entregar esse esquema, sabendo que, sem ele, eventuais narrativas favoráveis ao relaxamento de suas penas (ou de incriminação de adversários, para passar a impressão de que todos fazem a mesma coisa) perderão influência?

Dirceu, por exemplo, estaria disposto a revelar os detalhes do assassinato de Celso Daniel, sabendo que isso poderia aumentar em muito as suas penas e destruir a história fictícia que construiu sobre si mesmo?

E qual deles estaria disposto a revelar as relações do PT (quer dizer, do Partido Interno que dirige de fato o PT) com a ditadura cubana, que são mais profundas do que se pensa? E revelar também a associação ao plano castrista de capturar a Venezuela, construir o bolivarianismo a partir do chavismo etc. etc.?

E o que eles sabem sobre assassinatos, desaparecimentos misteriosos, sabotagens e contra-informação no âmbito do Foro de São Paulo: vão contar isso também?

Poderíamos continuar fazendo perguntas como essas por vários dias seguidos. E as perguntas não se esgotariam. O fato é que nenhuma resposta para elas seria obtida por alguma delação premiada.

As pessoas que escrevem sobre o PT, aparentando dominar o assunto, não sabem da missa a metade.


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