in

Por que pode ser um erro fatal não criticar Bolsonaro e não denunciar o bolsonarismo

Hora de ligar o alerta máximo

Não acredito em Bolsonaro. Sua carreira – sem nenhum fato digno de nota, nada que se possa elogiar ou servir de exemplo para alguém – mostra que ele é apenas um oportunista-eleitoreiro. Um cara despreparado, mas esperto, que descobriu que dava voto no Rio de Janeiro dizer que bandido bom é bandido morto. Viveu 30 anos acomodado na velha política, apoiou Lula e o PT quando isso era conveniente, acumulou 7 mandatos nas costas, na verdade nunca trabalhou (não produziu uma arruela ou qualquer utilidade), pendurou toda a família no Estado e usou sua atividade parlamentar para votar contra as reformas, elogiar ditadores, falsificar a história (dizendo que não houve ditadura ou dizendo que foi o melhor período da vida nacional e propondo sua volta) e pregar contra a democracia e os direitos humanos. É um sujeito inconfiável, egoísta, mal-educado, bronco, enfim, um ser humano incapaz de inspirar a humanidade. A despeito de tudo isso, Bolsonaro é um cara meio inofensivo, que não morre abraçado com ninguém, mas que também não hesita em voltar atrás e transigir para salvar o próprio pescoço.

O mesmo não se pode dizer dos bolsonaristas. Não me refiro, é claro, aos eleitores normais de Bolsonaro, que – em sua maioria – nada têm a ver com as barbaridades de seus fanáticos (estão apenas revoltados com a política). Estou falando dos militantes, os ditos bolsominions, jihadistas (que tomam a política como se fosse uma espécie de guerra religiosa), gente que foi infectada pelas narrativas conspiracionistas e retrógradas de malfeitores ideológicos e farsantes filosóficos como Olavo de Carvalho e umas três dezenas de expoentes hidrófobos da chamada “nova direita”.

Todos os militantes (tanto os comunistas quanto os anticomunistas) são remanescências da guerra fria. Querem fazer a história retrogradar para um passado de conflito permanente que justifique a ereção de padrões de organização hierárquicos regidos por modos de regulação de conflitos autocráticos. Por isso, os democratas não podem ser militantes.

Vejam (na imagem que ilustra este post) o que esses celerados estão replicando nas mídias sociais. Nela se pode encontrar vários elementos de padrões autocráticos. A tônica é a guerra, guerra contra todos que pensam diferente, guerra contra os infiéis, guerra contra as instituições democráticas. Bolsonaro avança em um tanque, com apoio aéreo, em meio a explosões de bombas, para tomar a cidadela, para invadir os poderes da República e submetê-los, pela força bruta, à sua vontade. E ele, o próprio candidato, ainda está com um fuzil na mão. Ora, quem não é analfabeto democrático é capaz de entender, num átimo, que a guerra é o contrário da democracia.

Este é o bolsonarismo, proto-fascista (sim, não é um xingamento: qualquer estudo sério das características do fascismo revelará inegáveis isomorfismos), perigosíssimo para a democracia, Bolsonaro, oportunista como é, aceitará o resultado do pleito em caso de derrota, mas não o bolsonarismo. As hostes bolsonaristas, caso não consigam eleger seu mito, deslegitimarão o próximo governo eleito (seja ele qual for) e dirão que o processo foi fraudado pelas urnas eletrônicas. Se o PT também for derrotado, se aliarão tacitamente aos petistas (que dirão que as eleições foram um golpe porque Lula foi impedido de concorrer) para desestabilizar a democracia brasileira.

É imperativo – talvez o imperativo democrático mais importante da hora – que a sociedade brasileira ponha um freio no crescimento dessa força maligna para o Estado democrático de direito. Mesmo porque os bolsonaristas não são apenas jovens desmiolados enxameados nas mídias sociais. Não. Parte das forças de segurança do Estado, das polícias civil e militar e da baixa oficialidade das FFAA, estão também associadas a essa cruzada impenitente e autocrática por mais ordem, hierarquia, disciplina e obediência – e, como consequência inevitável, é claro, por menos liberdade. A democracia, no Brasil e em qualquer país do mundo, pode conviver com essas forças tenebrosas, quando elas são marginais ou vestigiais, mas a partir de um certo número (hoje perigosamente próximo de 10% da população) não consegue mais metabolizá-las. Eis o ponto!

O que estou dizendo, com todas as letras, sem alarmismo, é que já passou da hora de ligar o alerta máximo da democracia. Esses meliantes políticos precisam ser amplamente denunciados e desmascarados, suas intenções antidemocráticas devem ser desveladas e isso precisa ser feito todos os dias, por todos os meios, sobretudo nos 38 dias que faltam para as eleições do primeiro turno, mas também depois, seja qual for o resultado do pleito.

É um erro brutal acreditar que não se deve falar de Bolsonaro e do bolsonarismo pois isso só alimentaria o mito e acabaria aumentando sua popularidade. O silêncio, neste caso, é a pior postura. Não falar da ameaça não elimina a ameaça. É preciso entender realmente qual é a ameaça é expô-la à luz do dia. O erro de não criticar Bolsonaro e de não denunciar o bolsonarismo pode ser fatal. É absolutamente necessário fazer distinção entre Bolsonaro e seus eleitores conservadores revoltados com a política e o bolsonarismo militante. O candidato Bolsonaro deve ser criticado, seus eleitores normais não, mas o bolsonarismo, este sim, deve ser denunciado como o que é: uma força retrógrada e maligna para a democracia.

Demétrio Magnoli, em artigo no jornal O Globo no último dia 27 de agosto, alertou – embora moderadamente – para o perigo, embora sem fazer a necessária distinção entre Bolsonaro e seus eleitores conservadores revoltados e o bolsonarismo militante. Reproduzimos abaixo a íntegra do seu texto.

‘Uma coisa profunda…’

Demétrio Magnoli, O Globo, 27/08/2018

Ciro Gomes aventurou-se na selva da ciência política para decifrar o fenômeno Bolsonaro. “Ele representa uma coisa profunda que nem ele imagina o que significa. Representa a negação da política e da democracia; a vontade de tocar fogo para ver se nasce alguma coisa no lugar.” Ciro constata a ineficácia da linha usual de crítica da “nossa elite”, que “resolveu tutelar a sociedade”. O Brasil profundo que se reconhece em Bolsonaro é autoritário e conservador — e está muito irritado. Bolsonaro “está aí” precisamente “porque é homofóbico” e “porque é misógino”.

A “coisa profunda” não é fascismo, um termo que a nossa esquerda utiliza como quem toma sorvete, esvaziando-o de seus significados. Bolsonaro tem algo entre um quinto e um quarto das intenções de voto não porque expresse algo novo, mas justamente por trazer à tona, em meio a uma crise multidimensional, alguns dos materiais subterrâneos mais persistentes da sociedade brasileira. Na sua candidatura, emergem “coisas profundas” que vão bem além do conservadorismo social tão abominado pela “nossa elite tutelar”.

Bolsonaro ingressou no negócio da política há três décadas, como vereador e, em seguida, deputado federal. Dos seus cinco filhos, três são políticos profissionais. O autoproclamado outsider é, de fato, um típico insider. Suas origens militares não passam de uma cicatriz periférica. O ex-capitão com ambições sindicalistas, um desordeiro avesso à hierarquia militar, evaporou no passado distante. Mas a escolha do general Hamilton Mourão como vice de sua chapa converte a candidatura civil em algo um tanto diferente. Por meio dela, a política bate às portas dos quartéis.

Mourão clamou pela “intervenção militar” e, por isso, foi gentilmente transferido à reserva. Daí, por aclamação, sagrou-se presidente do Clube Militar, o que o distingue de tantos “generais de pijama”. O Clube Militar tem forte audiência nos quartéis, inclusive na alta oficialidade. A ideia de que a política civil é uma recorrente doença degenerativa e de que a saúde nacional depende de cirúrgicas intervenções militares está gravada no mármore da nossa história republicana. A chapa Bolsonaro/ Mourão exprime, entre tantas “coisas profundas”, o impulso da “restauração da ordem” por meio da baioneta.

Na transição à candidatura presidencial, sob a influência de oráculos amargurados, Bolsonaro substituiu o manto de ultranacionalista, nostálgico do estatismo militar, pela fantasia de fanático ultraliberal. A passagem de lagarta a borboleta exigiu a “intervenção civil” de Paulo Guedes, um porta-estandarte do “Estado mínimo”. O economista-guru fez a vida nas salas da academia e nos escritórios de planejamento estratégico de bancos de investimentos. Transportado desses círculos etéreos para a dimensão pragmática das políticas públicas, esclareceu involuntariamente a antiga relação que a nossa direita mantém com a doutrina liberal.

Num governo Bolsonaro, Guedes seria alçado ao trono de czar da Economia, unificando sob seu comando os ministérios da Fazenda, do Planejamento e da Indústria e Comércio. O pretendente a Colbert prometeu conservar a autonomia do Banco Central, mas explicou que o BC ficaria “alinhado” às diretrizes de seu superministério. Não satisfeito, acrescentou que as instituições financeiras federais, como o BB e a CEF, também se dobrariam à sua vontade (assim como, recorde- se, a Petrobras e a Eletrobras foram curvadas aos desejos do lulismo).

Temos, na prática, o desenho de uma ditadura econômica que subordinaria a política monetária e os mecanismos de crédito público às mutáveis conveniências do presidente de turno. No passado, o “laissez-faire à brasileira” conviveu alegremente com o sistema escravista, os monopólios comerciais e os subsídios públicos aos amigos do rei. Sua versão mais recente, assinada por Guedes, é Nicolás Maduro com sinal invertido.

Bolsonaro imita Trump em tudo, exceto na tintura do cabelo. Trump, porém, tornou-se candidato do Partido Republicano, enquanto Bolsonaro só tem um certo PSL. A diferença é “uma coisa profunda” — e um conforto e tanto.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Deixe uma resposta

Loading…

Deixe seu comentário

Os próximos 40 dias e os próximos 400 dias

Analisando o bolsonarismo como fenômeno social