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Por que precisamos começar agora a articular uma resistência democrática no Brasil

Bolsonaro será eleito (trabalhemos com essa hipótese, pois que é a mais provável). O PT tentará hegemonizar a oposição, em nome da defesa da democracia contra o fascismo (o que é duplamente falso: nem o PT é democrático, nem o governo Bolsonaro será fascista, a despeito dos bolsonaristas terem comportamentos fascistoides e de o próprio Bolsonaro ser um populista-autoritário).

Mas como essa oposição petista não será realmente democrática (pois o projeto lulopetista é um neopopulismo, também autoritário, que usa a democracia contra a democracia) haverá uma guerra civil fria para deslegitimar o novo governo. A polarização atual não somente continuará, mas será escalada em intensidade. Um “Fora Bolsonaro” aparecerá em todo lugar (se bobear, ainda durante a habitual trégua dos 100 dias). Duas hostes se enfrentarão: a dos governistas e a dos antigovernistas (arrebanhados e puxados pelo nariz pelo PT).

Ao dizerem que não são favoráveis ao governo, nem a esse tipo de oposição, os democratas dificilmente serão compreendidos (como hoje já não são) e correrão o risco de desaparecer da cena pública como força relevante. Se não começarmos a articular (hoje, não amanhã) uma vigorosa resistência democrática para os próximos mil dias, isso será o mais provável.

Mas essa resistência só será realmente democrática se for uma resistência tanto à situação bolsonarista quanto à oposição petista. Ora, para ter condições de fazer isso, os democratas  não podem agora aderir a Bolsonaro, nem a Haddad.

Não se trata de fazer heroicas (e inúteis) campanhas pelo voto nulo, pelo voto em branco ou pela abstenção. Trata-se de não cair nas armadilhas autoritárias e sair por aí replicando que um dos candidatos (Haddad) é mais democrático do que o outro (Bolsonaro), de que somos obrigados a nos perfilar de um lado na guerra em que transformaram a política ou de que a atitude correta é evitar o “mal maior” (Haddad) ou escolher o “mal menor” (Bolsonaro) – aquele que, supostamente, seria mais fácil de remover no futuro: pois ninguém sabe o que pode acontecer num governo que será eleito não por um mal-entendido, mas, em parte, pelo antipetismo e, em outra parte (não desprezível), por expressar preconceitos fundeados no subsolo da consciência (ou da inconsciência) social da maioria da população.

Aqui é preciso tomar muito cuidado. A principal tarefa dos democratas não é erigir uma organização centralizada, um novo partido, uma frente clássica de partidos. A resistência democrática deve ser de pessoas em rede (mais distribuída do que centralizada). Nada de inventar uma direção unificada, nada de construir entidades hierárquicas, nada de pautas “comuns” impostas de cima para baixo, nada de seguimento de líderes, nada de incubar ou cevar instrumentalmente novos candidatos para 2022 ou 2026. Novos candidatos aparecerão, mas o objetivo da resistência democrática não pode ser este (que instalaria uma disputa precoce e estiolante).

Mesmo que, inicialmente, essa iniciativa não conte com muitas pessoas, os democratas não devemos ficar desanimados. Somos – sempre formos mesmo – minorias. Mas somos muitos, mais do que a quantidade necessária de levedura para fermentar grandes massas. Mais do que a quantidade necessária de enzima para catalisar muitas reações em cadeia. Pois isto é o que somos: agentes fermentadores ou catalisadores da formação da opinião pública. E agora estamos aprendendo a nos reconhecer e a nos conectar. Ainda que sobrevenha a mais espessa escuridão, as redes de resistência democrática podem crescer escondidas, como clones fúngicos (uma imensa floresta subterrânea).

A saída, necessariamente de longo prazo, passa – ao que se pode desde agora imaginar – pela formação de clusters democráticos, sempre temporários, altamente interativos (intensamente tramados por dentro) e abertos, com muitos atalhos (ou ligações para fora). A democracia terá de ser encarada por nós não mais apenas como modo político de administração do Estado, mas como modo-de-vida e exercida em todos os lugares em que for possível desconstituir autocracia (nas famílias, nos grupos de amigos, nas escolas e universidades, nas igrejas, nas organizações da sociedade, nas empresas).

Nossa resistência, portanto, não pode ser apenas negativa, reativa. Ela deve ser criativa, proativa. Como, ao que tudo indica, haverá uma regressão social (uma obstrução ou estreitamento nos fluxos interativos da convivência social) e não apenas política, daqui para frente nossa atuação será pautada por questões como as seguintes:

Como sobreviver, viver, conviver e inovar numa época de desconsolidação democrática, de declínio do capital social e de reação exacerbada do velho mundo hierárquico à emergência da sociedade-em-rede?

Qual o formato possível para novos empreendimentos políticos, sociais e empresariais distribuídos e democráticos num mundo que retrograda?

Quando se abrirá uma nova “janela” e como devemos nos preparar para aproveitá-la?

O papel dos democratas é refazer o tecido social esgarçado pela perversão da política como continuação da guerra por outros meios (para a qual estão contribuindo tanto o petismo quanto o bolsonarismo). O papel dos democratas é recuperar a política. A política é a “utopia” da democracia (não o contrário).


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