Lysenko

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Por que temos tanta dificuldade de comunicação nas mídias sociais?

Tenho investigado isso. Ocorre que falávamos – por meio de outras mídias, com membranas que selecionavam quem podia entrar e quem não podia, como o telefone, o e-mail, os blogs específicos dedicados a um tema e, inclusive, por encontros presenciais – com pessoas que se sintonizavam conosco de alguma forma. Já havia uma base mínima de entendimento compartilhado capaz de ensejar o acoplamento estrutural (que é o que devemos entender propriamente por comunicação).

As mídias interativas abertas nos colocaram em contato com milhões (no limite, dependendo do nosso domínio das diferentes línguas, bilhões) de pessoas cujas histórias fenotípicas são completamente distintas da nossa. Não há nenhum tangenciamento entre trajetórias de adaptação para que possa ocorrer a interação criativa (ou seja, aquela capaz de gerar novas pessoalidades). Falamos então com pessoas que vivem em outros mundos sociais que não são adjacentes ao nosso. Mal-comparando é como colocar para conversar a Simone de Beauvoir com uma das esposas de Bin Laden. Ou esperar que surja alguma conversação inteligente entre Richard Dawkins e um criacionista religioso.

Aí ocorre de uma pessoa que investiga ou experimenta, há décadas, um tema como, por exemplo, redes ou democracia, ter de conversar com um vendedor de automóveis de Abaetetuba que não tem qualquer interesse por tais assuntos, nem sabe do que se trata, mas admira Bolsonaro porque ele é um cara honesto e aposta que só um sujeito assim, macho e decidido, será capaz de botar ordem na casa no grito. Então esse cara vem conversar com a gente. Mas como não tem experiência alguma do debate público, imagina que se trata de torcer pelo Flamengo contra o Vasco (e, não raro, ele vai acabar lhe xingando de “vascaíno filho da puta”). É muito difícil que se estabeleça, nestas circunstâncias, algum acoplamento estrutural com essa pessoa.

Tudo isso faz parte, é claro, do processo de estilhaçamento dos mundos (cada qual tomado como único por seus habitantes) que conhecíamos. Se você passou a vida no Círculo de Viena, conversando o dia todo com Friedrich Waissman, Gustav Bergmann, Hans Hahn, Herbert Feigl e Rudolf Carnap, não teria esse problema. Seria altamente improvável você ter de travar um diálogo, por exemplo, com um seguidor de Allan Kardec. Ele não chegaria até você porque os caminhos entre ambos praticamente inexistiam no espaço-tempo dos fluxos. Eram mundos separados, sem atalhos que os conectassem.

Ocorre que a multiplicação dos laços fracos, com o amassamento (crunching) do tamanho social dos mundos, levando a uma redução drástica dos graus de separação, ensejou conexões entre pessoas que jamais se encontrariam, mas que, nem por isso, são capazes de estabelecer entre si alguma sintonia. E como as novas mídias interativas, diferentemente do broadcasting, que não permitia a interação, possibilitam que qualquer pessoa lhe interpele, cria-se um ruido não-comunicativo que aumenta a entropia, fazendo a informação relevante (para cada tema em foco) se abismar em buracos negros. Nada do que você disser a uma pessoa que trombou com você por motivos que estão fora do seu domínio e das suas preferências, adiantará muito. Não haverá um padrão reconhecível, ou seja, mensagens, e sim barulho.

É claro que esse problema não tem solução imediata. Ele só será equacionado quando começarmos a entender o barulho e interpretar as mensagens (involuntárias, do ponto de vista dos sujeitos) que ele pode conter (e que são relevantes para o comportamento coletivo). Assim, a sua neta que vive no WhatsApp, não sabe que todo o universo das conversas triviais que mantém com suas amigas ao longo de anos de comunicação, contém, na verdade, um padrão que é capaz de explicar aquela nuvem. Os formigueiros – como percebeu a cientista Deborah Gordon, de Stanford – conseguem fazer isso, mas nós ainda não. Mas quando isso acontecer, o que atualmente chamamos de política será outra coisa.

Vejamos agora o que acontece na ciência.

Digamos que Ludwig Wittgenstein estivesse vivo e postasse no seu mural no Facebook:

“Um pensamento correto a priori seria aquele cuja possibilidade condicionasse sua verdade”.

Aí o instrutor de academia de Copacabana, fortinho, que segue a seita de Olavo de Carvalho (sim, vários de seus fiéis são gente desse tipo), aparece e comenta:

“Que besteira! Um pensamento só pode ser correto se estiver justificado por uma doutrina correta”.

O infeliz não consegue nem reconhecer uma formulação original. Confunde tudo, não entende patavina, mas se acha no direito de emitir juízos definitivos, com base na gosma supostamente erudita que foi obrigado a engolir, babada pelo mestre.

Se você retruca, dizendo que não era disso que o filósofo (o verdadeiro) estava falando, ele se enfurece (sim, esses tipos não têm a menor preparação para o contraditório):

“Que Wittgenstein que nada! Olavo é o maior filósofo que já surgiu. E ele sempre tem razão”.

Aí temos um fenômeno importante. Porque não estamos mais no terreno da política, onde qualquer opinião é valida em princípio e a todos se deve garantir o direito de proferi-la em igualdade de condições com os demais, esteja ela validada ou não por critérios extra-políticos (teológicos ou teosóficos, científicos etc.).

A matéria da política (democrática) é a doxa (opinião), não a episteme (conhecimento filosófico ou científico). Quando do que se trata é de episteme, a ligeireza, o dogmatismo, a visão ideológica são capazes de arruinar tudo. É como se um dos participantes da sexta Conferência de Solvay (em 1930) – um equivalente olavista da época – se levantasse para dizer que Paul Langevin estava apenas querendo empurrar uma visão comunista sobre a ciência. Imaginem o espanto de Einstein, Paul Dirac, Enrico Fermi e Werner Heisenberg (alguns dos quais podiam mesmo nutrir simpatias pelo comunismo).

As mídias sociais possibilitaram que imbecis como este do nosso imaginário exemplo opinassem sobre tudo, afirmando peremptoriamente suas verdades, ainda quando o assunto tenha a ver com conhecimento que só é válido quando reconhecido por uma comunidade de cientistas.

A colaboração científica só pode ocorrer, nesses casos, em grupos fechados, com uma baita cancela na porta para impedir a entrada de ideologizadores. Do contrário começariam a florescer correntes científicas judaico-cristãs, anti-islâmicas, anti-judaicas. Tudo muito parecido com o que fez Lysenko, que criou uma biologia stalinista ou como ocorreu na Alemanha hitlerista (que adotou como critérios a “verdade empírica concreta” e a “intuição nórdica”). Isso, todavia, aponta para uma closed science e não para uma open science. Toda closed science se parece com uma religião, como já nos mostrou Paul Feyerabend (1975) em Como defender a sociedade diante da ciência. Portanto, não pode ser a solução.

Novamente aqui vamos ter de encontrar novas saídas.

Se ideologizadores podem ser admitidos na política – desde que apenas opinem e não ajam concretamente contra a democracia -, o mesmo não vale para a ciência. Até agora isso foi garantido pelos tribunais epistemológicos – as bancas acadêmicas – que proclamam-se detentores de um saber sobre o saber. Mas a solução não é boa, posto que baseada numa visão sindical da ciência (como argumentou Ralf Dahrendorf, criticando Thomas Kuhn). Será preciso desenvolver um novo estatuto para a ciência, menos cognitivista, quem sabe e, talvez, mais interativista, mas aí o que chamaremos de ciência não se parecerá tanto com o que hoje (ou a partir do final do século 19) chamamos de ciência.

A questão é: a interação não regulada por uma corporação sacerdotal é capaz de produzir conhecimento válido (em termos científicos: conhecimento objetivo, testável ou falsificável, com coerência lógica e completude)? Não existe ainda uma resposta boa para essa questão.

De qualquer modo, codificadores e seguidores de doutrinas que, no plano político, são avessos à democracia, no plano científico, são prejudiciais ao chamado progresso da ciência (lato sensu, incluindo a filosofia não opinativa, como a lógica).

As mídias sociais possibilitaram o crescimento desses malfeitores ideológicos, que são agentes perigosos para a democracia e também para a criatividade científica e filosófica, ou seja, para os processos de observação-investigação-explicação que podem ser feitos, a rigor, por quaisquer pessoas que estejam animadas do desejo de descobrir o mundo e não de convencer as outras pessoas de suas ideias ou detratá-las quando não aceitam e criticam essas ideias.

Possivelmente esse fenômeno será temporário. Ele é fruto não da rede mas do uso instrumental das mídias – que têm uma estrutura de rede – para erigir organizações hierárquicas. Com o aumento da interatividade, certa hegemonia que, momentaneamente, delinquentes ideológicos estão conseguindo estabelecer sobre vários conjuntos de pessoas (que jamais seriam afetadas por tais assuntos) vai se dissolver. Até lá, entretanto, o fenômeno é preocupante e não deve ser desprezado. Tudo isso – feito à esquerda ou à direita, não importa – está criando um caldo de cultura favorável ao desenvolvimento de comportamentos fascistas.


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