Pensa

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Por que você pensa como pensa

Este texto, escrito há um ano, contém dicas importantes para desvendar um mistério: por que as pessoas pensam como pensam? E por que, habitualmente, não mudam a maneira de pensar a despeito de nossos esforços de mostrar-lhes outras maneiras.

Como acrescentou recentemente o Renato Jannuzzi Cecchettini (autor da imagem abaixo) “a questão é onde você espeta seu plug”:

Plug in

Por que você pensa como pensa

Augusto de Franco, Medium, Sep 6, 2016

Hoje dei um conselho para um amigo que pensa bem diferente de mim sobre alguns aspectos da política brasileira atual. Disse que ele deveria mapear a sua egonet (a rede de pessoas a que ele está conectado mais imediatamente, com 1 grau de separação), começando com os 10 amigos mais próximos (com os quais mantem conversações recorrentes), passando depois aos 10 professores (antigos ou atuais que influenciaram de algum modo o seu pensamento). Em seguida, aconselhei mapear também os 10 autores (de livros que leu ou está lendo, que igualmente influenciaram seu modo de pensar). Finalmente disse que seria bom listar também os 10 veículos de comunicação (onde ele fica sabendo das notícias, incluindo perfis, páginas e grupos nas mídias sociais). Assegurei então que, com esse pequeno levantamento, ele seria capaz de explicar por que pensa de um jeito e não de outro.

Na verdade o conselho acima foi uma simplificação. Seria preciso mapear os laços fortes, mas também os fracos. E a rede com 1 grau de separação deveria abarcar mais pessoas: mais ou menos 100 em vez de apenas 10. E não se deveria levantar somente influências intelectuais, mas também comportamentos transmitidos. A rigor, alguém pensa como pensa porque se comporta como se comporta. E os comportamentos são as variáveis decisivas para a explicação requerida.

De todo modo, o mapeamento sugerido acima busca identificar aquela espécie de pegajosidade antropológica que explica porque pensamos como pensamos. É quase certo que, mesmo de forma simplificada, como sugeri, o mapeamento proposto consiga captar, para dar alguns exemplos que tenham a ver com o caso em tela, por que uma pessoa avalia que Dilma sofreu um golpe, por que acha que Lula está sendo justiçado pelas elites ou por que o PT foi rechaçado pelos estratos mais conservadores da sociedade em razão de suas qualidades e não de seus defeitos. Mas o mapeamento vale para qualquer tema, sendo capaz de esclarecer por que uma pessoa acredita que somos, os humanos, inerentemente ou por natureza competitivos, por que avalia que não se pode organizar nada sem um mínimo de hierarquia ou por que julga que não se pode mobilizar a ação coletiva sem lideranças destacadas.

Todas as hipóteses mencionadas acima são furadas, mas não importa. O que você pensa não tem a ver propriamente com um conteúdo que guardou em seu cérebro (e é operado por ele) e sim com a estrutura e a dinâmica do emaranhado onde está imerso e é (como pessoa). Não é bem o seu cérebro que pensa interpretativamente (ele é apenas uma interface, capaz de realizar operações cognitivas) e sim a mente (uma espécie de nuvem social que atribui significados e preferências de acordo com os fluxos interativos da convivência social que a pervadem e que adquirem circularidades inerentes que reproduzem os mesmos significados e preferências).

É por isso que é quase impossível mudar o modo como uma pessoa pensa com base em argumentos racionais, pela discussão ou o debate, como se acreditava. Se a rede social mais próxima (a rigor, até 3 graus de separação) onde uma pessoa está (e é, como tal) não mudar, ela não muda seu pensamento, mesmo que seja intelectualmente convencida pela força dos argumentos, como dizia Isaac Newton. E não muda seu pensamento porque não muda seu comportamento, que clona determinadas configurações, mais antropológicas do que sociológicas, que tendem a se conservar.


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