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Por uma questão de justiça

Não votei e não votaria em Temer para nada, nem para vice (como fizeram os petistas e por duas vezes). Sei que ele foi escolhido por sua larga experiência de administrar a base fisiológica do Congresso. Ele é um representante da velha política.

Mas, por um dever de justiça, que me impõe minha consciência moral, não posso deixar de me indignar com a demonização do atual presidente.

Quem está ligado nos meios de comunicação fica com a impressão de que o maior problema do Brasil (quiçá da galáxia ou do supercluster de Laniakea) é Michel Temer (um sucessor constitucional que já vai sair daqui a pouco).

É um mistério, um enigma, um desafio para a chamada ciência política, para a sociologia ou, quem sabe, para a psicologia social: como é que, em menos de 30 meses, construiu-se uma espécie de Emmanuel Goldstein (confira o 1984 de George Orwell)?

Todo santo dia, jornais, blogs, sites, rádios e TVs, repetem o ritual dos dois minutos de ódio dirigidos a esse inimigo universal da espécie humana.

Mas, afinal, o que Temer fez de tão grave? Violou a Constituição? Cometeu crimes comuns durante o mandato de presidente? Praticou crimes hediondos antes de assumir o cargo? Saqueou a Petrobrás, a Eletrobrás e outras estatais? Comandou o mensalão? Usou as grandes empreiteiras para montar um esquema paralelo de poder visando continuar indefinidamente no governo? Desorganizou a economia, elevou os juros a taxas estratosféricas, fez a inflação disparar?

Claro que Temer foi escolhido pelo PT para vice (duas vezes, repito) porque era uma espécie de articulador da base de apoio do partido no Congresso. Claro que ele faz parte da velha política (assim como cinco centenas de seus pares que estão na Câmara e no Senado). Claro, repito de novo, que não votamos nele (nunca votaríamos), mas assumiu o posto porque estava na linha de sucessão, segundo o que reza a Constituição Federal. Não deu qualquer golpe. Não tentou dar qualquer golpe. Agiu sempre dentro da lei.

Ah! Mas ele conversou com pessoas suspeitas “fora da agenda”. E qual presidente não o fez? Eu, que escrevo estas linhas, também já conversei com bandidos nas caladas de mais de mil noites: por exemplo, conversei durante 10 anos com Lula, Dirceu e Delúbio – ou estes não são bandidos? Não por isso, sou bandido (nunca roubei um clipe de papel, nem matei ou feri um ser humano).

Ah! Mas ele é fraco. Sim, ele é fraco, mas como queriam que ele fosse forte se não foi ungido diretamente pelo voto popular, se sofreu duas tentativas de deposição perseguido pelo vil Janot em conluio com os Friboys e Fachin, se teve de enfrentar uma orquestração dos meios de comunicação para que renunciasse em uma semana?

Ah! Mas ele não tem nem 5% de popularidade. Sim, mas dadas as circunstâncias isso parece até demais. É um milagre que não tenha 110% de reprovação.

O cara já está saindo, mas o Fora Temer continua, quer por parte dos jacobinos que querem defenestrá-lo a qualquer custo antes do prazo, quer, agora, por parte dos “caminhoneiros autônomos”, fortalecendo com isso saídas populistas antidemocráticas, capitaneadas pelo petismo e pelo bolsonarismo. Algum dia essa história terá de ser recontada. Os democratas e as pessoas de bem têm esse dever moral.

O que Temer fez, desempenhando a função de presidente, de tão reprovável?

Tudo isso deve ser altamente reprovável pelos oportunistas petistas (incluindo ciristas) e bolsonaristas: manutenção, saneamento do cadastro e reajuste do Bolsa Família, aprovação do teto de gastos; reforma trabalhista (e fim do imposto sindical); inflação controlada; juros declinantes; reforma do ensino médio; fim da obrigatoriedade de a Petrobras participar do pré-sal; recuperação da Petrobras; reestruturação do setor elétrico; aprovação da Lei da Governança nas estatais; intervenção federal da área de segurança do Rio de Janeiro. E cerca de mais 70 medidas. Dificilmente um governo eleito fez, em muitos anos, o que Temer, atacado por todos os lados, acuado, sem popularidade, conseguiu fazer em dois anos. Não gostar de Temer é uma coisa. Negar o que ele fez é outra. Pode-se discordar das medidas (algumas só com muita contorção se consegue, como a queda dos juros), mas não negá-las.

No entanto, qual seria a alternativa? Colocar na presidência o inconfiável Rodrigo Maia (o político mais desleal que o nosso carcomido sistema conseguiu produzir em um século)? Entregar o governo à Carmen Lúcia, que mal consegue presidir o STF? Qual o propósito desses movimentos senão aumentar a instabilidade política?

Qual a vantagem de derrubar Michel Temer nesta altura do campeonato? Cui bono? É para investir no caos e levar ao poder um candidato populista (de esquerda ou direita)? Qual o custo que isso terá para o país? E quem vai pagar esse custo? Algum petista, algum cirista, algum bolsonarista?

Alguns dizem: ninguém respeita mais o Temer. Ora… nós devemos respeitar o Estado democrático de direito, não o líder. Por mim, o melhor presidente seria um desconhecido. Você, que está lendo estas linhas, sabe o nome do chefe de governo da Suíça? Pois é. Império da lei é uma expressão para dizer que não há império de pessoas. Sei que muitos levarão um século para entender isso. Talvez com a transmigração das almas, quando voltarem como libélulas (ou rola-bostas).

O pior de tudo é que os mais ferrenhos foratemeristas não tomam a democracia como um valor universal, gostariam de ser pequenos ou grandes ditadores (nas suas casas, nos seus locais de trabalho ou nos âmbitos políticos que administram). E a imprensa que orquestrou sua deposição, é composta – em 90% dos casos – por analfabetos democráticos, coitados, cujas cabeças jamais foram violadas pela ideia de que a democracia não é o regime sem corrupção e sim o regime sem um senhor (e Temer nunca se comportou como um senhor, pelo contrário até, foi sempre lhano demais). Mas vá-se lá dizer-lhes!

Até entendo que todos os candidatos profissionais ou estreantes queiram ficar longe do “leproso” para não perder votos. Mas o oportunismo tem um limite. Quando começa a afetar a nossa humanidade, talvez seja a hora de mudar de profissão ou de pretensão.

Odeio injustiça. Diante de qualquer uma, minha pressão sobe para 20 x 12. Me dói a cabeça. Tenho vontade de vomitar. E vomito mesmo.

Perdão, mas este artigo também é vomitado.


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