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PT nunca mais, Bolsonaro jamais

Pessoalmente tenho tudo para não querer o PT de volta ao governo. Fui perseguido por ele e sei que serei perseguido novamente. Mas isso não me leva a ser irresponsável pregando o voto num candidato cujas ideias e práticas são patriarcais (quase em estado puro) e anti-humanas.

A galera que não gosta do PT – possivelmente com menos motivos pessoais do que eu – deve entender claramente a natureza dos dois projetos políticos mais bem colocados na atual disputa eleitoral.

O neopopulismo lulopetista usa a democracia contra a democracia para conquistar eleitoralmente governos e, a partir daí, tomar o poder (em doses homeopáticas). É ruim para a democracia, claro. Mas o PT, caso não haja quebra da institucionalidade, não pretende dar um golpe de Estado (em termos clássicos). A ameaça da venezuelização é mais um delírio do que uma alternativa real.

O PT no governo não transformará o Brasil em uma Venezuela. Isso é uma mentira de autocratas-conspiracionistas olavistas e uma bobagem engarrafada comprada e vendida por analfabetos democráticos bolsonaristas. Poderemos ter, sim, algo mais provavelmente parecido com uma Bolívia ou Equador – e, mesmo assim, mal-comparando. A complexidade da sociedade brasileira não suporta venezuelização (a rigor, nem mesmo uma bolivianização ou equadorização). A Venezuela (assim como a Nicarágua) foram acidentes de percurso na estratégia neopopulista, não acertos. São países desmoralizados.

O lulopetismo é um neopopulismo, por certo, e como tal uma variante do bolivarianismo, mas é um bolivarianismo à brasileira. O PT quer o poder, sim, não apenas o governo, mas não é besta. A estratégia neopopulista – abraçada pelo PT – não é destruir a economia dos países que governa, causar crises de desabastecimento e catástrofes humanitárias e sim manter o velho sistema político funcionando tal como está e com certa estabilidade, para vencer eleições sucessivamente, ficando por tempo suficiente no governo para conquistar hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido. Isto é a tomada do poder para o PT, não a insurreição popular, não a guerra popular prolongada, não o assalto ao Palácio de Inverno.

O PT não tem um projeto suicida. É uma estratégia bem elaborada de fazer a revolução “por dentro” das instituições (o conselho que Lula deu às FARC e elas aceitaram, transformando-se numa espécie de PT colombiano).

No longo prazo este projeto pode ser mais prejudicial à democracia do que o bolsonarismo. Mas como no longo prazo estaremos todos mortos, os vivos não podemos deixar de nos preocupar com o perigo imediato do bolsonarismo. Mesmo porque a vitória de Bolsonaro não desconstituirá o PT – pelo contrário, na liderança da oposição, o PT continuará implementando sua estratégia para voltar ao governo em seguida, ou fará coisa ainda pior ao se engajar numa guerra civil fria de longa duração. Nestas circunstâncias, na oposição, o PT poderá se transformar numa ameaça ainda maior do que o bolsonarismo: e no curto prazo.

É preciso entender o que Dirceu declarou sobre a tomada do poder (e digo-o com a experiência de quem foi seu maior adversário na primeira infância do partido – os primeiros 10 anos). O que ele disse foi que se “as elites”, a direita ou os bolsonaristas (incluindo os das FFAA) romperem o que ele chama (incorretamente) de “pacto social”, apelando para uma quebra da legalidade, o PT vai tentar tomar o poder e não apenas conquistar eleitoralmente governos. Examinem o contexto. O que Dirceu afirmou – segundo o seu pensamento – está correto. Quebrada a legalidade por parte do bolsonarismo, o PT estaria liberado para quebrar também.

Não me entendam mal. Acho que a frase de Dirceu foi um absurdo antidemocrático, não a apoio, mas entendo-a pelo que ela é: uma ameaça vazia. Dirceu está dando um aviso (no sentido mafioso do termo): se vocês não nos deixarem vencer eleições e governar, nós vamos abandonar a estratégia de fazer a revolução “por dentro” das instituições e vamos partir para o pau. É uma bravata, é claro. O PT não tem contingente popular mobilizado para tanto e nem força político-militar para quebrar a institucionalidade vigente, para enfrentar as Forças Armadas e os demais aparatos estatais encarregados do uso legal da força. Para quem conhece Dirceu de perto, trata-se de uma fala típica, marota, para assustar tucanos e outros setores liberais.

O bolsonarismo é outra coisa. É rude, tosco, mas não menos perigoso: não propriamente pelo que fará, mas pelo que não poderá fazer. É uma energia primitiva, muito agressiva, que uma vez despertada ou desaprisionada – como foi – pode levar a crises econômicas, políticas e, inclusive, sociais. A desilusão do bolsonarismo com Bolsonaro, poderá aumentar a periculosidade dessa força num sentido claramente antidemocrático. Bolsonaro é um oportunista-eleitoreiro que está vestindo a camisa do populismo-autoritário, mas o bolsonarismo é muito, muito pior do que isso.

O bolsonarismo é um desaguadouro das matrizes de pensamento e comportamento mais incompatíveis com a democracia que repousam no baixo ventre da história (desde que existe Estado). A democracia surgiu precisamente como uma brecha nesse tipo de cultura patriarcal, hierárquica e guerreira.

De um ponto de vista político, pode-se dizer que o petismo é mais perigoso do que o bolsonarismo na medida em que tem força política organizada, enraizamento social, agentes infiltrados em todos os escaninhos do Estado, narrativa ideológica estruturada, apoio internacional e recursos de monta e de toda ordem. Mas o bolsonarismo, de um ponto de vista cultural, é a invasão dos bárbaros: a subida da lama que está depositada, camada sobre camada, no fundo do poço da cultura patriarcal: de intolerância, de preconceito, de deslegitimação do outro.

O petismo é uma ameaça política ao regime democrático (sobretudo no médio e longo prazos). O bolsonarismo é uma ameça social mais profunda às liberdades, aos valores associados à convivência dos diferentes, à aceitação do divergente e aos direitos humanos. É uma força desumanizante. Na verdade, do ponto de vista cultural (isto é, social), é uma ameaça à civilidade e à humanidade.

É um erro brutal (e boçal) tentar evitar o perigo político do petismo xiita, apoiando o bolsonarismo-Estado Islâmico sunita. Voltar ao século 7 do ponto de vista cultural não resolve os problemas políticos que a democracia enfrenta no século 21.

Não me refiro apenas às ideias e sim ao emocionar que está na raiz dos comportamentos. O emocionar petista é ruim para a democracia porque é adversarial. O emocionar bolsonarista, entretanto, é tenebroso: patriarcal, hierárquico, guerreiro e anti-humano. Da sua alma recende aquele fedor do monstro Dārayavahuš (Dario II) que exigia que o povo se prostrasse diante de sua passagem.

Por isso, entre essas duas ameaças, não há escolha boa para os democratas e para os amantes da liberdade.

A única coisa que podemos dizer é: PT nunca mais, Bolsonaro jamais.


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