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Quando se cede ao argumento do “mal menor” é porque já se transigiu com o mal

Estava conversando hoje (05/10/2018) com um amigo sobre os limites da análise das gradações que nos permite dizer que uma força política é “menos ruim” que outra. Disse, na conversa, que a análise das gradações não leva em conta a teoria da catástrofe, a mudança de estado (ou de espaço de fase). Nem sempre um candidato pode ser apoiado porque é menos ruim. Às vezes não é apenas “menos ruim”: é outra coisa, também ruim. De certo ponto de vista Stalin era menos ruim que Hitler. No final, acabou erigindo um sistema de poder ainda mais diabólico (como retrataram Orwell, Koestler e Soljenítsin). E matou mais gente, do seu próprio povo e, inclusive, do seu próprio partido. E se não tivesse matado ninguém, mas conseguido fazer as pessoas ‘pensar sob comando’, seria ainda “mais ruim”.

Os campos de trabalho forçado na ex União Soviética foram restabelecidos em 1943 e substituídos em 1948 pelos campos especiais retratados no livro de Alexander Soljenítsin (1962), “Um dia na vida de Ivan Denissovich”. Será que esses campos eram “menos ruins” do que os campos de concentração nazistas?

Pensem um pouco. Não eram, simplesmente, prisões para separar da sociedade os dissidentes, os opositores, os críticos ou qualquer pessoa que, potencialmente, pudesse – aos olhos do Partido – vir a ser algum dia dissidente, opositor ou crítico. Não eram, igualmente, campos de concentração, voltados ao extermínio de inimigos do regime, tais como os campos nazistas.

Os campos especiais eram uma máquina infernal de quebrar pessoas, não principalmente pela tortura e pela violência física (embora isso também houvesse) e sim pela manipulação programada da escassez de recursos sobrevivenciais: sobretudo a escassez de comida, a escassez de roupas e aquecimento e a escassez de tempo livre para fazer qualquer coisa. Eram uma espécie de usina de sofrimentos para espalhar subterraneamente o terror: seu objetivo não era matar as pessoas e sim deixá-las sair após longo período de provação. A pessoa assim modificada ou quebrada pela rotina demoníaca do campo virava agente de uma rede surda de contaminação (vetor de uma espécie de epidemia do medo) dissuadindo, por dentro da sociedade (em geral por conexões íntimas, peer-to-peer) quaisquer iniciativas de contradizer as diretivas do Partido.

Fico em dúvida se me fiz entender.

O fato é que não podemos saber de antemão o que seria “mais ruim” ou “menos pior”. E que quando você cede à tese do mal-menor é porque já transigiu com o mal. Claro que mal, para a democracia, é tudo que nos faz menos livres. Assim, não se trata de escolher entre duas propostas cuja natureza exige (ou acaba levando a) menos-liberdade.

Escolher é democrático, mas não-escolher também é democrático. Entre Hitler e Stalin não há escolha possível para os democratas. Transplantando a bifurcação para o presente: entre Viktor Orban e Daniel Ortega, não há escolha possível para os democratas.

Isso não significa que os democratas vão ficar inertes, inermes. A eles cabe agora, como sempre coube afinal, resistir ativamente. Democracia é resistência a processos autocratizantes: assim ela nasceu (na resistência à tirania dos psistrátidas, na Atenas do século 5 a. C.), assim ela foi reinventada pelos modernos (na resistência do parlamento inglês ao poder despótico de Carlos I, no século 17) e assim ela continua hoje, resistindo aos seus principais adversários, que não são mais os fascistas e os comunistas (cuja presença é mais vestigial) e sim aos populismos, i-liberais e majoritaristas, sejam de esquerda (como o neopopulismo de Maduro, Ortega, Evo, Moreno ou Lula e Haddad), sejam de direita (como o populismo-autoritário de Viktor Orban, Recep Erdogan, Jaroslaw e Lech Kaczynski, Salvini, Le Pen ou Jair Bolsonaro).

Muitos que me leem não entendem por que penso assim. Hoje, no meu mural do Facebook, mandei um recado a essas pessoas, que reproduzo abaixo:

Jamais deveria ter 5 mil amigos e quase 18 mil seguidores no Facebook. É muito para quem não pontifica em meios de comunicação broadcasting ou não contraiu a enfermidade social chamada fama. A maior parte do pessoal que lê o que escrevo, ao ver que eu criticava o projeto de poder do PT, resolveu me acompanhar pelos motivos errados, achando que eu seria algum tipo de antipetista militante. Não sou. Critico o PT – muito antes de todos (ou quase todos) que me seguem, desde o primeiro mandato de Lula (e, a rigor, bem antes de 2003) – em razão de ter desvendado a natureza antidemocrática do seu projeto neopopulista (de usar a democracia contra a democracia para conquistar hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido com o fito de nunca mais sair do governo). Mas não quero substituir o PT, como projeto autocratizante dito de esquerda, por outro projeto autocratizante dito de direita. Há décadas já conseguiu me livrar desse malware (o esquema interpretativo esquerda x direita). Meu negócio é a democracia e, assim, não posso apoiar Haddad contra Bolsonaro ou Bolsonaro contra Haddad. Não posso trocar o neopopulismo lulopetista pelo populismo-autoritário bolsonarista, nem vice-versa (por qualquer razão, inclusive por avaliações, baseadas em realpolitik, de que um seria “menos pior” do que outro). Serei oposição – e resistirei – à qualquer um que vencer o pleito de 2018. Quem não concorda com isso tem agora uma boa oportunidade para parar de me seguir. Aproveite. Me delete.

Às vésperas destas malfadadas eleições de 2018, este é o meu recado. Boa sorte para todos nós.


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