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Quatro erros boçais do PT

Alguém poderia dizer que não foram erros e sim acertos do ponto de vista da estratégia petista de usar a democracia contra a democracia. Mas…

A via neopopulista adotada pelo lulopetismo, como se sabe, visava conquistar hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido para nunca mais sair do governo. O PT não queria (e não quer) dar um golpe de Estado em termos clássicos e sim vencer eleições sucessivamente, acumulando forças para, algum dia (quando a correlação o permitisse), alterar o DNA da nossa democracia. Mas não queria fazer isso de chofre, aplicando uma medicação alopática (quimioterápica, de choque) e sim homeopaticamente.

Pois bem. Para quem tem tal estratégia, sustento que o PT cometeu quatro grandes erros, do seu próprio ponto de vista que, em si, já está errado, pois é claro que o populismo pode ser avaliado como um erro do ponto de vista da democracia. Ou seja, do ponto de vista da democracia o PT já está errado simplesmente por existir como é. Mas…

Mas não é disso que estou falando aqui e sim de erros crassos, primários, boçais, que jamais poderiam ser cometidos por uma organização inteligente (mesmo que maligna para a democracia), que fosse capaz de aprender. Mas ao PT – como estamos vendo – se aplica perfeitamente aquela célebre frase do bispo Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord, referindo-se aos Bourbon: eles não aprenderam nada e não esqueceram nada.

O PRIMEIRO ERRO

Tentar esconder a corrupção com motivos estratégicos de poder dentro da corrupção endêmica, tradicional na política

O PT não deveria ter escondido sua corrupção (sistêmica, coordenada centralizadamente) dentro da corrupção endêmica da política tradicional. Achava que com isso iria construir um círculo de ferro de cumplicidade, evitando que os recursos que captava ilegalmente para financiar o seu projeto não seriam denunciados porque os corruptos da velha política burguesa não teriam interesse em ficar expostos aos órgãos de controle do Estado. Esse erro se baseava numa avaliação incorreta de que as elites tinham alguma coordenação no saque que promoviam ao Estado. Ao contrário do PT, elas não tinham. O sistema era variacional: tudo era regulado por uma espécie de “mercado negro” da política, sem planejamento, sem execução direcionada, enfim, sem comando e controle hierárquico. Assim, quando os crimes petistas foram descobertos, ficou evidente que se tratava de um esquema de poder diferente dos esquemas tradicionais praticados há séculos pelas caciquias políticas regionais. Era impossível para o PT não ficar vulnerável quando se descobriu que o comando da corrupção petista (para fins partidários e também para fins de enriquecimento individual) estava no palácio do Planalto. E políticos tradicionais, que faziam a política funcionar através da corrupção, quando descobertos, entregavam o PT sem a menor cerimônia, querendo apenas se salvar (num clima de “barata-voa”). Eis a origem das delações que levaram o PT ao cadafalso. Foi assim que o mensalão e o petrolão, dentre centenas de crimes praticados pelo PT, deixaram o partido tão vulnerável que o arrastaram diretamente ao impeachment.

O SEGUNDO ERRO

Revelar publicamente sua estratégia de usar a democracia contra a democracia

O PT não deveria ter revelado publicamente sua estratégia, como fez na sua Resolução sobre Conjuntura, assinada oficialmente pelo Diretório Nacional, em 17 de maio de 2016 (já analisei este documento em artigo de 24 de setembro de 2016, que está disponível no link: https://goo.gl/CYzwCy). Tal resolução insana e burra, disparou todos os alarmes e alertas vermelhos, sobretudo nas forças armadas que estavam, subterraneamente, articulando um movimento político de reação ao projeto petista. A direção nacional do PT disse, no referido documento, tudo que não poderia dizer (declarando-se disposta a violar critérios básicos da democracia, como a liberdade, a legalidade e a institucionalidade). Vejamos o que o PT reconhecia e prometia no referido documento oficial:

a) realizar a “democratização dos meios de comunicação”, que visa, na verdade, não democratizar esses meios e sim quebrar o seu suposto monopólio, arrancá-los das mãos dos seus empreendedores ou coagi-los e dirigi-los a partir do controle social (na verdade, partidário-governamental) da mídia;

b) assumir o controle da Polícia Federal e do Ministério Público Federal;

c) modificar os currículos das academias militares (introduzindo, por suposto, as mesmas visões que foram vazadas ou estão subsumidas na resolução aqui mencionada);

d) controlar o processo de promoção de oficiais (tal como fez o chavismo e os demais bolivarianismos), premiando aqueles que se sujeitassem as orientações do governo (desfigurando sua natureza estatal e não-governamental e partidarizando essas forças, repita-se: tal como fez o chavismo e os demais bolivarianismos);

e) ideologizar ainda mais a política externa brasileira, alinhando-a aos regimes de esquerda ou anti-imperialistas (como o castrismo, o chavismo e os demais bolivarianismos e, possivelmente, o putinismo);

f) usar a distribuição de verbas publicitárias (do governo e das empresas estatais e assemelhadas) como um meio de controlar a mídia;

g) apontar como um erro do partido ter confiado na governabilidade institucional a partir de alianças fora do seu campo (ou seja, para todos os efeitos, a partir de alianças), deixando claro que a institucionalidade democrática servia apenas para ser usada para uma acumulação de forças suficiente para dispensá-la;

h) lamentar ter se institucionalizado a ponto de virar um mero player do jogo democrático representativo, desfigurando-se como força de combate (capaz de vencer a guerra contra os representantes de outras classes).

Tudo isso permitiu que os inimigos do PT concluíssem que o partido pretendia persistir trilhando um caminho antidemocrático (como o que foi reconstruído no meu artigo Erramos, de 24/09/2016, disponível no link: https://goo.gl/hZNAno).

O TERCEIRO ERRO

Atar os destinos do partido ao destino de Lula

O terceiro erro boçal do PT foi ter soldado o seu destino ao de Lula, já paciente de vários processos criminais. O partido, simplesmente, se recusou a sobreviver como força política autônoma caso Lula não sobrevivesse como o grande líder da nação. Isso chegou ao cúmulo de o PT ficar sem candidato para a presidência em 2018, tendo de lançar um poste (Fernando Haddad) a poucos dias do pleito e colhendo um resultado decepcionante. Este erro também estava assentado numa avaliação incorreta do grau de articulação das forças antipetistas, no Estado e na sociedade. Nem o PT tinha assim tantos aliados na institucionalidade vigente, nem a clientela popular petista revelou-se tão ativa quanto era esperado. Um erro derivado dessa insistência de salvar Lula do incêndio a qualquer preço foi o partido ter detonado a candidatura de Ciro Gomes, cujos votos, como se viu, poderiam até ter garantido a vitória do campo dito de esquerda contra a extrema-direita bolsonarista. Resultado: o PT praticamente deixou de ser o partido das “grandes massas” (a não ser no Nordeste) e virou um ajuntamento de aparelhos militantes.

O QUARTO ERRO

Continuar apoiando a ditadura venezuelana

O quarto erro, mais recente, foi o de ter continuado apoiando a ditadura cubana, a ditadura de Nicolás Maduro na Venezuela e a ditadura de Daniel Ortega na Nicarágua. O caso da Venezuela foi o erro mais grave e mais palmar. Por todos os pontos de vista, inclusive do ponto de vista do imaginário socialismo proclamado pelos dirigentes petistas, Maduro destruiu completamente o país, rompendo, inclusive, com o caminho chavista anterior. Esse erro é gravíssimo porque está sendo cometido agora, depois de tudo que aconteceu. Ficou verossimilhante, para todos os antipetistas, que o PT queria seguir o mesmo caminho de Maduro (quando, na verdade, não queria). Maduro atropelou a estratégia neopopulista-bolivarianista, desferindo, praticamente, vários golpes dentro do “golpe branco” de Hugo Chávez. Ora, o PT sabia e sabe que um caminho como este é inviável num país com a complexidade do Brasil. Mas, mesmo assim, insistiu em manter seu apoio por razões ideológicas. Depois dessa manifestação desastrosa, dificilmente alguém – mesmo não sendo antipetista militante – acreditará que o PT não quer transformar o país numa Venezuela.

CONCLUSÃO

Vários pontos revelados nas declarações desastradas do PT ou percebidos no comportamento petista foram aproveitados pelo bolsonarismo, que está aplicando as medidas adotadas ou preconizadas pelo partido com o sinal trocado. Bolsonaro (e o bolsonarismo) virou um perfeito par-enantiodronômico de Lula (e do lulopetismo). Não é por acaso que ambos continuam achando que o muro de Berlim não caiu.

Boi preto cheira boi preto. O que há de comum nos dois projetos – o neopopulismo lulopetista e o populismo-autoritário bolsonarista – é o… populismo. E o populismo hoje, no Brasil e no mundo, diga-se de esquerda ou de direita, é o principal adversário da democracia.


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