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Quem dera tivéssemos também 30 democratas

Sobre o deficit de democratas

Não há democracia sem democratas, observava, ainda na década de 90, o democrata Ralf Dahrendorf. Mas o que está acontecendo, no Brasil e em outros países, é um deficit de democratas.

Claro que os democratas não precisam ser maioria. Aliás, nunca foram. Seria impossível encontrar 30 trinta democratas convictos entre os interlocutores de Clístenes, Efialtes e Péricles, que inventaram pela primeira vez a democracia na passagem do século 6 para o século 5 antes da Era Comum. Alguns poucos sofistas – logo perseguidos pelos oligarcas e malditos pelos filósofos totalitários como Platão (você não acredita? Leia o primeiro volume de A Sociedade Aberta e seus Inimigos, de Karl Popper) – como Protágoras, Górgias, Pródicos, Hípias (não confundir com o filho do tirano Psístrato que foi pacificamente deposto pela democracia nascente), Antífon, Trasímaco, Cálicles, Eutidemo e Dionisodoro, o anônimo Dissoi Logoi, o anônimo Jâmblico e… Sócrates (que adotou o estilo sofista mas era, na verdade, seu principal e figadal inimigo). Pesquisadores sérios, como G. B. Kerferd (1980) – em concordância com outros (como W. K. C. Guthrie) – afirmam que só “conhecemos os nomes de… vinte e seis sofistas do período entre mais ou menos 460 a 380 a. C., quando sua importância e sua atividade estavam no auge”. Mas nem todos esses eram, a rigor, democratas.

Igualmente, seria impossível encontrar 30 democratas convictos entre os redatores dos Bill of Rights, no parlamento inglês do século 17, que reinventou a democracia na sua resistência ao poder despótico de Carlos I (1625-1649).

Mesmo no berço da chamada Revolução Americana (1776-1787) e nos seus desdobramentos, não havia 30 democratas (entre os Founding Fathers, companheiros e sucessores de Thomas Jefferson, signatários da Declaração de Independência e da Convenção Constitucional, a maioria tinha alguma noção de República, porém mais de 90% não tinham qualquer noção de democracia).

Para não falar da Revolução Francesa (1789-1799) que, ao contrário do que muitos pensam, não reinventou a democracia e sim a esquerda e a direita (quer dizer, a política como continuação da guerra por outros meios): citem o nome de um democrata convicto entre os jacobinos e girondinos.

Quando Spinoza afirmou (em 1670) – contrariando Hobbes – que o fim da política não era a ordem e sim a liberdade, não se fez a luz. Assim como os antecessores de Spinoza (nos dois milênios anteriores) foram contrários à democracia de alguma forma, seus sucessores (nos dois séculos seguintes) quando não se posicionaram abertamente contra a democracia, puseram-se a relê-la de uma forma que acabou esvaziando o seu conteúdo. Até a segunda metade do século 18 não houve nenhuma leitura decente da democracia grega que tivesse resgatado ou preservado seus pressupostos fundamentais (o seu “gene” ou meme). Na verdade, de Althusius (1603) a Stuart Mill (1861) não conhecemos muito mais que meia dúzia de pensadores políticos que tivessem, desse ponto de vista, contribuído decisivamente para recuperar e reinterpretar, à luz das condições da modernidade, os elementos fundamentais da democracia dos antigos (a liberdade, a igualdade de proferimento e a valorização da opinião e o exercício da conversação no espaço público).

Entre os clássicos da política, do século 6 antes da Era Comum até a metade do século 20, quer dizer, dos precursores dos democratas atenienses até Hannah Arendt, não temos, por incrível que pareça, muitas reflexões sobre a democracia (no sentido “forte” do conceito, ou seja, como processo de desconstituição de autocracia).

Mesmo sendo minoria, entretanto, os democratas conseguiram desempenhar – quando coexistiram em número suficiente – o seu papel ao atuarem como agentes fermentadores da formação da opinião pública. Mas isso tem um limite: fermento, por certo, não é massa, mas se o fermento for muito pouco, não dá conta de fermentar massas cada vez maiores.

Vejamos o caso brasileiro atual. Quantos são os democratas, que atuam com alguma visibilidade e regularidade na esfera pública na última década (nos parlamentos, nos governos, nas organizações da sociedade civil, nos órgãos de imprensa e nas mídias sociais)? Não estamos falando das pessoas que aceitam a democracia (na falta de um regime melhor, como disse Churchill) ou que a toleram e sim dos democratas convictos mesmo, que tomam o sentido da política como a liberdade e a democracia como um valor universal e o principal valor da vida pública)? A resposta pode ser surpreendente. Não é que não cheguem a 30: talvez não cheguem nem a 15 (o que é uma quantidade insuficiente até mesmo como fermento).

Desgraçadamente, os adversários da democracia cresceram e superaram em número (ou, pelo menos, em ativismo) os democratas. A rigor também não ultrapassam muito 30 pessoas, mas sua influência deletéria sobre a democracia já se faz sentir, na eleição de Bolsonaro e nos resultados autocratizantes das suas cruzadas contra o comunismo (um inimigo imaginário, que serve a um propósito funcional) e contra a corrupção (dos outros) – tudo isso, na verdade, como pretexto ou alavanca para exterminar seus verdadeiros inimigos: os liberais (no sentido político do termo, não no econômico, posto que haverá sempre um Chicago Boy disposto a prestar serviços a um Pinochet, a um Médici, a um hierarca chinês, a um Orbán ou a um Bolsonaro).

Quem são os bolsonaristas e os defensores contumazes do governo Bolsonaro (que nem conservadores são em sua maioria, mas reacionários) que comparecem regularmente na mídia tradicional e nas mídias sociais com alguma expressão e que agora viraram jornalistas e analistas chapa-branca? Por incrível que pareça também são muito poucos (a rigor, como foi dito, não ultrapassam em muito 30 pessoas). Em ordem alfabética (a lista abaixo é apenas demonstrativa, não exaustiva, embora os nomes citados sejam de fato os mais conhecidos do público):

1. Alexandre Borges

2. Alexandre Garcia

3. Allan dos Santos (Italo Lorenzon e a turma do Terça Livre)

4. Ana Paula

5. Augusto Nunes (um bom jornalista que não superou o antipetismo)

6. Bia Kicis

7. Bruno Garschagen (e não se sabe até que ponto a turma do Instituto Mises Brasil)

8. Carla Zambelli (e a turma do Nas Ruas)

9. Danilo Gentili (que parece que é simpático ao Olavo, mas não se sabe ou não se pode dizer que é olavista ou bolsonarista).

10. Diogo Mainardi (e membros do Judiciário, do MP, de forças policiais, antagonistas da antipolítica da terra arrasada que instrumentalizam politicamente as operações de combate à corrupção e exploram o moralismo da população)

11. Ernesto Araújo (mais um desconhecido que ganhou visibilidade por ter sido nomeado por Olavo de Carvalho para ministro das Relações Exteriores)

12. Felipe Moura Brasil

13. Flavio Morgenstern (cujo nome verdadeiro é Flávio Azambuja Martins, Filipe Martins e a turma do Senso Incomum)

14. Guilherme Fiuza (outro bom jornalista com dificuldades para superar o antipetismo – o que é diferente de ser contra o PT)

15. Guilherme Macalossi (ele mesmo negou, em comentário feito a mim no Facebook, mas tudo indica que entrou na onda)

16. Joice Hasselmann

17. José Roberto Guzzo (mais um bom jornalista que não conseguiu superar o antipetismo)

18. Leandro Ruschel (e a galera do Brasil Paralelo)

19. Lobão

20. Luiz Philippe de Orleans e Bragança (e a turma do Acorda Brasil)

21. Marcelo Reis (e a turma do Revoltados Online)

22. Nando Moura

23. Olavo de Carvalho (seus discípulos, como Rodrigo Gurgel, Flávio Gordon e os demais olavistas)

24. Renan Santos (Kim Kataguiri, Fernando Holiday, Arthur do Val e a turma que comanda o MBL)

25. Renato Tamaio (e a turma do SOS Forças Armadas)

26. Ricardo de Aquino Salles (agora Ministro do Meio Ambiente e a turma do Endireita Brasil)

27. Ricardo Velez Rodriguez (um desconhecido que ganhou visibilidade por ter sido nomeado por Olavo de Carvalho para ministro da Educação)

28. Rodrigo Constantino (embora tenha sido barbaramente maltratado por Olavo e outros liberais-econômicos, mas não liberais-políticos)

29. Roger Moreira

30. Silas Malafaia (e a desconhecida Damares Alves que ganhou visibilidade ao ser nomeada ministra dos Direitos Humanos, além do super-conhecido e mal-afamado Edir Macedo e outros bispos e pastores evangélicos espertalhões, adesistas e oportunistas).

Agora vamos a um exercício. Tentemos listar 30 democratas convictos que estão cumprindo o mesmo papel político que os citados acima.

Não vale citar professores universitários marxistas e jornalistas de esquerda que escrevem na grande imprensa ou na rede suja de sites e blogs do PT e de organizações aliadas, pois que estes não são democratas (apenas usam a democracia contra a democracia, em prol de projetos neopopulistas). Na verdade, não vale citar ninguém que apoia Maduro e Ortega – pois isto prova que são antidemocratas, ou seja, aderentes à “ditaduras do bem”.

Não temos nem um veículo radicalmente democrático comparável a O Antagonista (comparável em termos de agilidade e incidência na conjuntura política, não em termos do jornalismo cafajeste que esse novo Pravda pratica). Simplesmente, tal veículo não existe (quando bastaria meia dúzia de democratas para fazê-lo).

Temos um blog quase diário do democrata-formal, legalista e bom jornalista da direita-liberal Reinaldo Azevedo. Temos alguns colunistas políticos importantes como, para citar alguns exemplos, Demétrio Magnoli, Fernando Gabeira, Bolívar Lamounier, Nelson Motta, Joel Pinheiro da Fonseca, Marcos André Melo, Fernando Henrique Cardoso – mas que escrevem apenas semanalmente, ou mensalmente, ou ainda com menos frequência (e esses, por motivos óbvios, não vou nem citar) – e quantos mais?

E, claro, temos vários jornalistas mais tradicionais, que são democratas normais, tomando porém a democracia no sentido “fraco” do conceito, como modo de administração política do Estado (como Merval Pereira, Eliane Cantanhêde, Vera Magalhães, Carlos Andreazza, Marco Antonio Villa e outros – que fazem alguma análise – e uma multidão de jornalistas políticos que atuam mais como “cronistas da corte”: se retroalimentam e replicam o que seus pares publicam criando nuvens de reverberação de opiniões conexas, quer dizer, todos eles acabam falando as mesmas coisas).

Façam o exercício. Meus esforços não conseguiram reunir numa lista muito mais do que uma dúzia de pessoas com atuação política cotidiana.

Está certo que os democratas fomos, somos e sempre seremos minoria. Mas uma minoria tão ínfima (como a que temos) não é capaz de cumprir o papel de defender a democracia (que temos), impedindo que ela se torne menos liberal e mais majoritarista e, simultaneamente, avançar na direção das democracias mais interativas (nunca confundir com participativas) que queremos (mais conformes à morfologia e a dinâmica da sociedade contemporânea).


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

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