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Quem é a “nova direita” hoje no Brasil

Este artigo comenta uma hipótese: a de que 80% ou mais das pessoas que se declaram de direita ou são apontadas por outrem como de direita (e não negam), que são consideradas formadoras de opinião e publicam regularmente na mídia broadcasting e nas mídias sociais, são olavistas ou bolsonaristas. De pronto cabe dizer que a hipótese parece não se confirmar: não são 80% (ou mais) e sim algo em torno de 70% (ou menos), ainda que sejam imensa maioria.

Vejamos. Já escrevi alguns artigos sobre o tema: O que significa ser “de direita”?Você se acha de direita?, A chamada direita, Cartografando a chamada direita, Os que se dizem de direita não são a direita?, A volta do anticomunismo na vibe da guerra fria é uma investida autocrática, É gravíssimo o que está acontecendo, Brasil Paralelo: produção de ideologia hierárquica e autocrática – dentre vários, dezenas, de outros.

Voltemos, porém, ao tema do presente artigo.

Se fizermos uma lista dos trinta a quarenta atores – pessoas e movimentos – mais influentes durante as manifestações em prol do impeachment, que continuam publicando regularmente, na mídia broadcasting e nas mídias sociais, veremos que a maioria é olavista (ou bolsonarista). Então isso é um dado significativo da realidade, não uma opinião marginal, mas uma corrente antidemocrática de pensamento e ação que vem crescendo no meio dos ativistas ditos da “nova direita” e que, como tal, não pode ser desprezado pelos democratas.

No último dia 15 de novembro, fiz uma consulta informal no Facebook. Reproduzi uma lista de nomes (ver abaixo) e pedi ajuda para identificar quem é olavista e quem é olavista e bolsonarista e quem é só bolsonarista e quem não é nada disso (a lista, é claro, foi incompleta e, possivelmente, errada em alguns casos, mas este era o espírito da coisa: não disse que todos os mencionados eram olavistas e/ou bolsonaristas e sim perguntei se 80% ou mais dos nomes listados o eram).

Algumas pessoas protestaram, alegando que quem faz listas desse tipo é o PT, imaginando erroneamente que eu estava denunciando pessoas. Expliquei então o seguinte:

Quem se diz de direita ou é apontado por outrem como sendo de direita (e não nega), é responsável por esse tipo anacrônico de classificação. Não tenho nada a ver com isso. Logo eu, que denuncio há anos que o esquema interpretativo esquerda x direita é um malware, uma coisa ruim que botaram na nossa cabeça?

Mas também não sou do “sindicato”. Não pertenço ao “condomínio”. Tenho argumentado, em numerosos artigos, que foi a esquerda que inventou a esquerda e, pelo mesmo ato, a direita. E que tem gente que engoliu a trampa e saiu por aí orgulhosa declarando-se de direita (cheguei a listar mais de 100 grupos no Facebook que continham no nome a palavra direita). Não fui eu que inventei isso e sim os fundadores desses grupos.

Fiz, igualmente, vários levantamentos de quem se diz de esquerda, inclusive listando os nomes dos blogs e sites da rede suja do PT. E também declinei os nomes de vários dirigentes do núcleo duro da organização política criminosa que dirige de fato o PT.

Tudo isso faz parte do debate público. Não vivemos numa ditadura, onde apontar um nome poderia colocar em risco a vida, a liberdade ou a integridade física da pessoa. Não tenho problema com o fato de alguém querer se dizer de direita ou de esquerda (embora ache uma tolice). Meu problema é com os que querem violar a democracia (digam-se de esquerda ou de direita). Meu problema é com o lulopetismo e com o olavismo e o bolsonarismo, não porque eles se digam, respectivamente, de esquerda e de direita, e sim porque eles são ameaças à democracia.

Antes de reproduzir a lista é bom limpar a área. Nem todo mundo que critica o PT, a esquerda e o comunismo é “de direita”. Existem muitos jornalistas e analistas que servem de exemplo: Augusto Nunes, Bolivar Lamounier, Demétrio Magnoli, Dora Kramer, Eliane Cantanhêde, Fernando Gabeira, Guilherme Fiuza, José Nêumanne Pinto, José Roberto Guzzo, Luiz Carlos Azedo, Nelson Motta, Ricardo Noblat, Ruy Fabiano, entre vários outros, como o pessoal do Vem Pra Rua e o Marco Antonio Villa. Eu mesmo sou um exemplo.

Passemos à lista com observações colhidas dos comentários eventuais ao post-consulta que fiz no Facebook:

Alexandre Borges

Allan dos Santos (Italo Lorenzon e a turma do Terça Livre)

Ana Paula

Bia Kicis

Bruno Garschagen (e a turma do Instituto Mises Brasil) = ?

Carla Zambelli (e a turma do Nas Ruas)

Carlos Andreazza

Claudio Tognolli = Possivelmente, não.

Danilo Gentili = É simpático ao Olavo, mas não se sabe ou não se pode dizer que é olavista ou bolsonarista.

Diogo Mainardi

Felipe Moura Brasil

Flavio Morgenstern, Filipe Martins (e a turma do Senso Incomum)

Guilherme Macalossi = Ele mesmo negou (em comentário no Facebook)

Jair Bolsonaro (e os bolsonaristas militantes)

João Amoêdo (e a turma do partido Novo) = Não é olavista, nem bolsonarista (e os partidários do Novo também não são).

João Pereira Coutinho = Não é.

Joice Hasselmann

Kim Kataguiri (e a turma do MBL) = Não são olavistas, nem bolsonaristas, embora venham se alinhando, crescentemente, ao conservadorismo político.

Leandro Ruschel (e a galera do Brasil Paralelo)

Lobão

Luciano Ayan

Luiz Philippe de Orleans e Bragança (e a turma do Acorda Brasil)

Fábio Ostermann (e a turma do Livres-PSL) = Não é olavista nem bolsonarista (e os partidários do Livres também não são).

Felipe Pondé = Não é.

Maçons do grupo Avança Brasil

Marcelo Faria (e a turma do Ilisp) = Não é (e provavelmente não são)

Marcelo Reis (e a turma do Revoltados Online)

Nando Moura

Olavo de Carvalho (seus discípulos, como Rodrigo Gurgel, Flávio Gordon e os demais olavistas)

Rachel Scheherazade = ?

Rafa Bandeira (e o pessoal do Socialista de iPhone) = Não é.

Rafael Rosset (e a turma do Implicante) = ?

Reinaldo Azevedo = Não é.

Renato Tamaio (e a turma do SOS Forças Armadas)

Ricardo de Aquino Salles (e a turma do Endireita Brasil)

Rodrigo Constantino (e a turma do Instituto Liberal) = Não é olavista.

Rodrigo da Silva (e a turma do Spotniks) = Não são.

Roger Moreira

Silas Malafaia = ?

Não entraram diretamente na lista o pessoal do Diário do Brasil, do O Diário Nacional, da Folha Política, da Caneta Desesquerdizadora e de outros veículos ou páginas do Facebook = São pessoas e grupos muito diferentes entre si e não há como fazer um juízo geral sobre seu alinhamento a Olavo ou Bolsonaro.

CONCLUSÃO 

Não há propriamente uma conclusão (inequívoca).

Das cerca de 40 pessoas (e grupos) listadas, incluindo os próprios Olavo e Bolsonaro e suas respectivas militâncias, aproximadamente 27% não são olavistas ou bolsonaristas (o que não quer dizer que não sejam, alguns, simpáticos ao Olavo ou que, muitos, não possam votar em Bolsonaro em 2018). Não se sabe bem a posição de 17% (ou mais).

O resultado é precário. A hipótese de que 80% (ou mais) são olavistas ou bolsonaristas, não se confirma, devendo tal porcentagem ficar em torno de 70% (ou menos, se excluirmos os duvidosos). Mesmo assim, é uma porcentagem grande e surpreendente.

O resultado é precário também porque não leva em conta a audiência dos nomes citados.

Por último, o resultado é precário porque a lista deve conter ainda alguns erros significativos (por incluir nomes indevidamente e por omitir outros, para não falar dos possíveis equívocos de avaliação dos que fizeram comentários).

Mas, com tudo isso, de uma conclusão não se pode fugir. A imensa maioria das pessoas (e grupos) que são apontadas como “nova direita” é olavista (ou sofre grande influência do pensamento retrógrado e antidemocrático de Olavo de Carvalho) ou bolsonarista (com propensão a entrar na campanha de Jair Bolsonaro, para não dizer votar nele, mesmo que não seja bolso-fanática).

Outra conclusão possível é que sem parte significativa desse pessoal mencionado acima – desprezando-se todos os erros já mencionados (e outros ainda não detectados) – não haveria a chamada “nova direita” no Brasil ou, se houvesse, ela seria apenas vestigial, como aquela velha direita, retrógrada e caricatural, tipo TFP. A questão – e o problema para a democracia – é que a maior parte da chamada “nova direita” não é nem liberal, nem liberal-conservadora, nem mesmo conservadora e sim retrogradacionista e antidemocrática (ou, pelo menos, composta por agentes que não tomam a democracia como um valor universal).


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