in ,

Quem são os novos pensadores

Este é o quarto artigo de uma série chamada Novos Pensadores. O primeiro foi intitulado É tempo de novos pensadores. O segundo Seja um novo pensador. O terceiro Um roteiro de investigação para novos pensadores.

Partimos da ideia de que novos pensadores pensam sobre as novas visões emergentes do mundo no dealbar deste século 21, do ponto de vista das redes e da democracia. Novas visões da humanidade, da história humana, da civilização, da cultura, da sociedade, da comunidade, da política, da sabedoria, da inteligência humana, da criatividade e da inovação, da educação, da filosofia e da ciência.

O objetivo de qualquer programa para estimular o surgimento de novos pensadores é entrar em contato com os novos pensadores que estão tratando desses assuntos nas fronteiras do conhecimento, porém ousando ser também um novo pensador. É o contrário de tentar reinterpretar o passado apoiando-se na visão de grandes pensadores clássicos, escolhidos cuidadosamente pelo seu potencial de modificar o passado para predeterminar um caminho para o futuro. Na sociedade-em-rede todos seremos pequenos pensadores em vez de nos ajoelharmos diante desse ou daquele suposto sumo-sacerdote do conhecimento, de ser seguidores fiéis de uma doutrina ou súditos intelectuais de algum mestre.

Pois bem. A partir de quais referências vamos pensar nesses temas com um pensamento de fronteira? Parece evidente que, se vamos repensar os temas mencionados acima do ponto de vista das redes e da democracia, teremos de conhecer os principais teóricos das redes e da democracia. E não só, mas também os pensadores que contribuíram para criar o clima intelectual que permitiu a emergência de novas visões sobre esses temas.

REDES

Dentre os teóricos das redes (e da sociedade-em-rede) convém visitar o trabalho de investigadores como Albert Barabasi, Duncan Watts, Fernando Veja-Redondo, Fritjof Capra, Jacob Moreno, Jane Jacobs, Jure Leskovec, Manuel Castells, Manuel Delanda, Nicholas Christakis, Pierre Lèvy e Steven Strogatz, entre outros. Também vale a pena conhecer os antecessores (ou precursores) de um pensamento sobre redes, como – para citar apenas alguns exemplos notáveis – Buckminster Fuller, Francisco Varela, Gregory Bateson, Heinz von Foerster, John von Neumann, Ludwig von Bertalanffy e Norbert Wiener. As menções acima não têm outra ordem senão a alfabética.

DEMOCRACIA

Dentre os pensadores da democracia, não se pode deixar de conhecer, entre outros (em ordem alfabética): Alexis de Tocqueville, Amartya Sen, Baruch Spinoza, Claude Lefort, Cornelius Castoriadis, Francis Fukuyama, Hannah Arendt, Henry Thoreau, Humberto Maturana, Isaiah Berlin, Jacques Rancière, Jean-Jacques Rousseau, Johannes Althusius, John Dewey, John Rawls, John Stuart Mill, Karl Popper, Norberto Bobbio, Robert Dahl, Thomas Paine. Mas como a democracia é um processo de desconstituição de autocracia (e aprender democracia é desaprender autocracia), não podem ficar de fora os grandes distopistas, como Aldous Huxley, Alexander Soljenítsin (este narrando uma experiência concreta de sofrimento humano em uma distopia real), Arthur Koestler, George Orwell, Jerome Klapka Jerome, Ray Bradbury, William Golding e Yevgeny Zamyatin.

E ALÉM

É claro que é bom conhecer, além disso, alguns pensadores “fora da caixa”. Por exemplo, os que escreveram sobre educação – e o tema é particularmente relevante na medida em que se refere à programação de controle para repetir passado – de um ponto de vista heterodoxo, como Carl Roger, Ivan Illich, John Holt e Liev Tolstoi (para não falar de Friedrich Nietzsche). E também algumas mentes inquisitivas em geral, em todos os campos, da psicologia à história, passando pela biologia, pela epistemologia, pelas formas não-religiosas de espiritualidade, como Carl Jung, Daniel Quinn, Edgar Morin, Hakim Bey, James Hillman, Jiddu Krishnamurti, Lynn Margulis, Osho, Paul Feyerabend, Ralph Abraham, William Irwin Thompson. Sem esquecer, é claro, dos ficcionistas que, de certa forma, anteciparam futuro, como Bruce Sterling, Frank Herbert, Isaac Asimov, Philip Dick e William Gibson.

E evidente que todas essas listas (apresentadas sempre em ordem alfabética) – cumprindo aqui apenas um papel demonstrativo ou ilustrativo – são incompletas e contêm mesmo graves e imperdoáveis omissões, mas elas têm algo em comum. Todas (ou quase todas) as pessoas citadas foram, nas suas respectivas épocas e lugares, novos pensadores, não apenas no sentido de que tiveram novas ideias e sim que pensaram o que pensaram (e sobre o que pensaram) de uma nova maneira, rompendo a repetição de passado conhecida como tradição. Ao fazerem isso, criaram, por assim dizer, outras tradições (o que significa escapar da tradição).

É bom ter em mente, antes de qualquer coisa, que o novo pensador é você. Estimular o surgimento de novos pensadores, de certo modo, é dizer que, numa sociedade-em-rede, todos seremos pequenos pensadores. Ou seja, equivale a dizer que devemos abandonar a velha atitude genuflexória em relação aos grandes pensadores. Sim, sempre é bom conhecer o que eles pensaram, mas não mais numa perspectiva cultica.

É claro que conhecimentos novos partem de conhecimentos antigos e pensa-se sempre com os pensamentos dos outros, mas o fundamental aqui é pensar com a própria cabeça em interação com os outros (mesmo que estejam mortos: e, neste caso, trata-se de revivificá-los, como já foi dito no artigo Seja um novo pensador). Vale observar, entretanto, que em termos de visão de mundo, não há uma construção objetiva ao longo do tempo a não ser para quem encadeia uma coisa na outra para construir uma linha imaginária (portanto, subjetiva) de sucessão ou evolução do pensamento.

O novo pensador, portanto, é o que inventa linhas imaginárias (e é isso que significa, de um ponto de vista, no caso, filogenético, “criar conceitos”, como observaram – e olha aí duas omissões – Gilles Deleuze e Félix Guattari (1991), em O que é filosofia, ao dizerem que “a filosofia é a arte de formar, de inventar, de fabricar conceitos”) e, de certo modo, gera uma nova realidade cognoscível ou apreensível na medida em que inventa a sua explicação sobre ela.

A reflexão continua. Se você se interessou, deixe um comentário.

E se você quiser saber mais sobre o assunto, clique nos links:

É tempo de novos pensadores

Seja um novo pensador

Um roteiro de investigação para novos pensadores


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Deixe uma resposta

Loading…

Deixe seu comentário

Quem é a “nova direita” hoje no Brasil

Um novo vocabulário político