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Quinze declarações sobre a guerra

1 – Guerra não é violência. Tribos paleolíticas podem se enfrentar violentamente e isso não ser guerra. Grupos de jovens ditos civilizados (da civilização patriarcal em que vivemos) podem entrar em brigas de rua e isso não será guerra (a não ser que passem a se organizar para tanto de modo estável e que seu modo de vida passe a ser regido por dinâmicas conformes a esse padrão de organização).

2 – A guerra é um maneira de configurar o cosmos social para reproduzir um modo de vida patriarcal. Só existe guerra propriamente dita no patriarcado.

3 – A guerra é um engendramento social que visa construir inimigos como pretexto para erigir hierarquias regidas por modos autocráticos de regulação de conflitos.

4 – O objetivo da guerra não é destruir os inimigos  e sim construí-los e mantê-los (ou melhor, manter sempre inimigos, mesmo que não sejam os mesmos: uma hora pode ser a Lestásia, outra hora pode ser a Eurásia, para lembrar o 1984 de George Orwell). O objetivo da guerra não é matar pessoas (a rigor, um efeito colateral) e sim matar a rede (quer dizer alterar a topologia da rede social, centralizando-a ou reduzindo drasticamente seus graus de distribuição para criar um padrão de organização hierárquico, adequado à reprodução de modos autocráticos de regulação de conflitos).

5 – A guerra não precisa ser quente (violenta). Pode ser fria (a chamada guerra fria). Pode ser, inclusive, realizada como política adversarial: a política como continuação da guerra por outros meios (na fórmule-inverse de Clausewitz-Lenin), a política pervertida como arte da guerra.

6 – Outras atividades humanas – como os esportes competitivos ou a concorrência comercial – também podem ser pervertidas como arte da guerra (ainda que não sejam guerra stricto sensu).

7 – A guerra não precisa ser de movimento. Pode ser de posição, como na guerra de trincheiras. A conquista tática de posições orientada por uma estratégia é sempre guerra, mesmo que não haja confronto físico e emprego de armas (físicas). Pode ser feita com propaganda, pode ser uma guerra ideológica (ou dita cultural, como são, em parte, os jihadismos fundamentalistas contemporâneos e as estratégias gramscistas de conquista de hegemonia).

8 – Pode-se, inclusive, fazer guerra não-violenta. Basta ter uma estratégia e aplicar uma tática de não-violência contra um inimigo (na linha do que propõe Gene Sharp).

9 – Como percebeu Hobbes (1651) “a guerra não consiste apenas na batalha ou no ato de lutar, mas naquele lapso de tempo durante o qual a vontade de travar batalha é suficientemente conhecida… [já que] a natureza da guerra não consiste na luta real, mas na conhecida disposição para tal…”

10 – Toda vez que há estratégia e tática para lutar contra inimigos é sinal de que há guerra (desde que o modo de vida da sociedade que faz isso passe a ser regido pela necessidade de se precaver contra os inimigos; quer dizer, contra o outro que foi construído como inimigo).

11 – Não há guerra boa, do ponto de vista da democracia. Guerra como modo de regular conflitos e de alterar a morfologia e a dinâmica da rede social para se preparar para o conflito externo (por meio do chamado “estado de guerra”, instalado internamente) foi o meio pelo qual a tradicionalidade política pôde se prorrogar, não apenas derrotando inimigos de modo violento, mas também construindo continuamente tais inimigos com o intuito de preservar uma morfologia e uma dinâmica social que, erigida em função da guerra, constituiu-se como um complexo cultural. Usando-se uma metáfora contemporânea, trata-se de um programa (software) que foi instalado na rede social e adquiriu capacidade de modificar essa rede (hardware) para se auto-replicar.

12 – A guerra sintetiza o contrário da democracia: nega-se a legitimidade do outro, desvaloriza-se sua opinião – a ponto de não se permitir sequer o seu proferimento – e abole-se totalmente os espaços (públicos) onde as opiniões dos cidadãos possam interagir e se polinizar mutuamente (por meio da conversação na praça, i. e., no espaço público).

13 – Guerra, por sua própria natureza, impõe mitificação da história e da natureza humana, sacerdotalização do saber e hierarquização das relações sociais. A visão da história passa a ser orientada pela ideia de que existe uma (única) história, ou seja, há sempre uma filosofia da história pressuposta em qualquer empreendimento guerreiro e a história passa a ser, nessa filosofia, ou a consumação de um desiderato transcendente ou uma consequência de um mecanismo imanente guardado em seu ventre – um mecanismo embutido que lhe dá sentido – que a leva para um lugar ou outro. A visão da natureza humana passa a ser balizada pela hipótese de que existe um homo hostilis (inerentemente competitivo) condenado a lutar eternamente para fazer prevalecer seus interesses (egotistas) sobre os dos demais. A visão do saber passa a ser orientada pela ideia de que o progresso humano é consequência do avanço tecnológico de um homo faber (fabricante de ferramentas, que logo serão usadas como armas); e daí a mitificação do conhecimento técnico, entronizado como critério meritocrático (sacerdotal porquanto baseado no segredo que introduz opacidade nos procedimentos e organizado em graus de ordenação, quer dizer, de capacidade de reproduzir uma determinada ordem). A visão do poder passa a ser orientada pela ideia de que existem formas de organização social que seriam “naturais” ou inevitáveis para o estabelecimento daquele controle social sem o qual a sociedade seria destruída por seus inimigos externos ou por seus próprios integrantes (na base da bellum omnium contra omnes hobbesiana estão as ideias de ordem top down, piramidal, como controle centralizado ou multicentralizado, de fluxo comando-execução, de disciplina e obediência, enfim, de poder como capacidade de mandar alguém fazer alguma coisa contra sua vontade). Tudo isso passa a valer não apenas como repertório de expedientes e providências para destruir o inimigo externo (ou para não ser por ele destruído), mas também como norma para reger a vida interna das sociedades, mesmo em tempos de paz (tempos esses que devem ser dedicados à preparação para a guerra, na linha do “se queres a paz, prepara-te para a guerra”, o que deixa claro que a guerra é promovida à condição de uma realidade inexorável ou onipresente).

14 – A guerra destrói (ou desabilita) as noções de verdade e de moral. Não é a toa que se diz que na guerra a primeira vítima é a verdade: a verdade é substituída por uma narrativa funcional para caracterizar a verdade do inimigo como mentira, o que significa que a própria verdade é convertida em mentira a ser usada como arma contra o inimigo. Da mesma forma, não pode haver qualquer moral na guerra, pois haverá sempre a “nossa” moral contra a moral “deles” (os inimigos). Mas a existência de duas morais é, em si, um problema moral. Havendo uma moral válida (a “nossa”) ela sempre será superior à moral “deles” (dos inimigos). Isso é o fim de qualquer noção de moral. Pois os atos praticados em nome do processo que nos levará aos nossos objetivos serão sempre considerados como corretos e justificados pelos seus fins, enquanto que os atos cometidos pelos inimigos, mesmo que sejam corretos, não podem ser bons enquanto não nos levam para os objetivos que determinamos como bons. Pessoas impregnadas por tal metafísica justificarão qualquer coisa em nome de seus objetivos.

15 – Não há guerra boa, também, do ponto de vista humano. Não há um bom combate contra as forças do mal (posto que a operação macabra de separar o bem do mal já está na raiz da guerra). A guerra é – em si – o mal.


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