Padrões autocráticos

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Reconhecimento de padrões autocráticos

Tudo começa com a leitura e reflexão exploratória na busca de “isomorfismos” (em sentido figurado ou metafórico), ou melhor, de características que permitam o mapeamento entre objetos para desvelar relações entre suas propriedades ou operações. No caso estamos buscando identificar padrões de organização e de regulação que permitam reconhecer a presença – em diferentes manifestações ou eventos – de matrizes hierárquicas e autocráticas próprias do estatismo. O estatismo é definido como um tipo de comportamento político conforme a uma visão estadocêntrica do mundo (que não reconhece, para além do Estado, a autonomia – e, em alguns casos, a legitimidade – de outros modos de agenciamento, como o mercado e a sociedade civil, as comunidades glocais e as redes (mais distribuídas do que centralizadas) de pessoas.

O estatismo não incide apenas no comportamento político que foi identificado como fascismo (nazismo ou nacional-socialismo), mas também naqueles de raiz marxista (marxista-leninista ou marxista-gramscista) que se declararam socialistas ou comunistas (do socialismo realmente existente) e, ainda, nos diversos tipos de jihadismo (com ou sem Estado formal instalado e reconhecido), como o jihadismo fundamentalista islâmico ou os jihadismos laicos (de caráter nacionalista e, via de regra, militarista), nas teocracias (como a iraniana) e nas ditaduras em geral e, por último, nas formas híbridas (como o neoexpansionismo da Rússia de Putin que pretende reeditar a guerra fria e a política de blocos – neste caso apenas como pretexto para consolidar uma hegemonia de longa duração de um grupo privado sobre a sociedade russa a partir do Estado controlado pela FSB).

Um exemplo de reconhecimento de padrões é o culto necrófilo do trabalho: A <=> B

| A = Na entrada dos campos de concentração nazistas (como Auschwitz I e Sachsenhausen, Dachau, Gross-Rosen e Theresienstadt, Auschwitz III / Buna / Monowitz e Flossenbürg), bem em cima de portões de ferro, havia a frase: Arbeit macht frei (O trabalho liberta)

| B = Na entrada dos campos de concentração soviéticos (Gulag), em geral em lugar bem visível, havia inscrições com frases de Josef Stálin. Uma delas era: “Honra e glória ao trabalho, exemplo de entrega e heroísmo”.

Quando se trata de padrões de organização ou comportamento, isomorfismos (lato sensu) são pistas de deciframento. Mas a “ciência” de reconhecimento de padrões está apenas começando.

Usamos a palavra isomorfismo em sentido figurado (e deslizado do seu sentido matemático original). Na álgebra abstrata, um isomorfismo é um homomorfismo bijetivo. Duas estruturas matemáticas são ditas isomorfas se há um mapeamento um-para-um entre os elementos das suas estruturas matemáticas. Essencialmente, dois objetos são isomorfos se eles são indistinguíveis com base apenas na seleção de suas características correspondentes. Isomorfismo é então o mapeamento entre objetos que mostra um relacionamento entre duas propriedades ou operações. Como toda metáfora é imperfeita e corre alto risco não ser bem-entendida.

Vejamos mais um exemplo. Robert Paxton (2004), em Anatomia do Fascismo, conta a seguinte passagem:

“O cabo Adolf Hitler, de volta ao serviço ativo no IV Comando dos Grupos do Exército, em Munique, após se recuperar da cegueira histérica que o acometera ao saber da derrota alemã, foi enviado pelo Serviço de Inteligência do Exército, em setembro de 1919, para investigar um dos muitos movimentos nacionalistas que vinham surgindo na desordem do pós-guerra. O Partido dos Trabalhadores Alemães (Deutsche Arbeiterpartei – DAP) havia sido criado ao final da guerra por um chaveiro patriota, Anton Drexler. Encontrando um punhado de artesãos e jornalistas que sonhavam em conquistar trabalhadores para a causa nacionalista, mas que não faziam ideia de por onde começar, Hitler se juntou a eles, recebendo o cartão do partido número 555. Ele logo se tornou um dos oradores mais hábeis do movimento e membro de seu comitê diretor.

Em inícios da década de 1920, Hitler foi colocado no comando da propaganda do DAP. Com o auxílio de oficiais do exército simpatizantes, como o capitão Ernst Röhm, e de alguns partidários ricos de Munique, Hitler ampliou em muito a audiência do partido. Perante quase duas mil pessoas reunidas numa grande cervejaria de Munique, o Hofbräuhaus, em 24 de fevereiro de 1920, Hitler deu ao movimento um novo nome – o National-sozialistische Arbeiterpartei (NSDAP, ou o partido “nazi”, abreviando) – e apresentou um programa de vinte e cindo pontos que misturava nacionalismo, anti-semitismo e ataques a lojas de departamentos e ao capital internacional. No 1 de abril que se seguiu, deixou o exército para se dedicar em tempo integral ao NSDAP. Cada vez mais, ele era reconhecido como seu líder, seu Führer (termo adotado – assim também como a saudação “Heil” – do líder pan-germânico Georg von Schönerer, muito influente na Viena do pré-guerra)”.

Em apenas dois parágrafos temos terabytes de dados para fazer mapeamentos um-para-um (bijetivos). Para quem está trabalhando com reconhecimento de padrões, este é um excelente exercício teórico. Em princípio, tudo é sinal, mas aqui eles abundam. Vamos apresentar, apenas a título de exemplo, algumas pistas:

1) O partido original se chamava Partido dos Trabalhadores (Arbeiterpartei). Por que tanta fixação no trabalho? Como vimos acima, o culto necrófilo do poder é um elemento importante. O novo nome desse partido manteve a denominação original, acrescentada do termo National-sozialistische (nacional-socialista). A introdução do termo nacional é de fácil explicação em razão do caráter nacionalista (e do ressentimento com a derrota alemã) do movimento: o nome original já dizia que o partido era dos trabalhadores alemães. Mas por que também socialista?

2) O programa do partido renomeado como Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores, já sob a liderança de Hitler, pregava ataques a lojas de departamentos e ao capital internacional. Não há como não fazer uma correspondência (atenção, apenas formal: estamos tratando de isomorfismo e não de intenções subjacentes ou aderentes a conteúdos) com a tática Black Bloc. É bom repetir: não estamos dizendo com isso que os Black Blocs sejam nazistas, pois as relações aqui não são de conteúdo (e não têm nada a ver com ideologia ou visão de mundo). São disposições estruturais que possibilitam – e mais do que isso: ensejam – comportamentos conformes (não por causalidade, mas por condicionamentos recíprocos).

3) Hitler ascendeu no Arbeiterpartei quando foi colocado no comando da propaganda partidária e iniciou uma vigorosa campanha de marketing financiada com doações das elites econômicas (as pessoas ricas) de Munique. As elites financiavam um partido de trabalhadores.

4) Até o momento em que assumiu a posição de mono-líder (um líder único com alta gravitatem) e de chefe (ou Führer, condutor), Hitler atuava como agente do Serviço de Inteligência do Exército. Ora, mesmo depois de uma “paz celebrada”, inteligência militar continua sendo guerra (essa é a essência característica da construção cultural militar: si vis pacem, para bellum). O paralelo militar na política (que leva à perversão da política como arte da guerra ou como continuação da guerra por outros meios na fórmule-inverse de Clausewitz-Lenin) aparece aqui em estado puro. Hitler era um agente em preparação de conquista de hegemonia no sentido leniniano do termo (que corresponde ao seu sentido original grego de comando de um exército) que exige mesmo a centralização da rede ou a deformação do campo social introduzida pela existência de um Führer.

5) A reunião que simbolicamente marcou a virada do pequeno partido dos trabalhadores (de quadros) em um partido socialista dos trabalhadores (de massa) aconteceu numa grande cervejaria. Os sinais aqui são mais fracos, mas isso não significa que não signifiquem alguma coisa…

Uma infinidade de outros sinais (alguns mais fortes, outros mais fracos) também está contida explícita ou implicitamente nos dois parágrafos acima: o ressentimento social (e a vontade de revanche) que levou um artesão a criar um partido dos trabalhadores; a ligação entre um patriotismo-trabalhador do pós-guerra e a ideologia de um pan-germanismo do pré-guerra; a indefinição generalizada (considerada sinal de desordem) sobre “por onde começar” – título de um texto de Lenin (1901) que antecedeu ao seu famoso Que fazer? (1902); a fusão de nacionalismo com socialismo (em maior ou menor grau verificada em todos os movimentos para consertar o mundo a partir de grandes experimentos sociais, sejam considerados de esquerda ou de direita: por exemplo, a fusão da figura de José Martí em Cuba com a trinca Marx-Engels-Lenin, criando o quatérnio em que se baseou por décadas a propaganda castrista); o papel assinalado à propaganda: antes de Joseph Goebbels, o propagandista número 1 era o próprio Adolf Hitler (o caminho da conversão de um cabo do exército em Führer foi o caminho da propaganda, do marketing) e os princípios hitlerianos (e depois goebbelianos) da mistificação das massas pela propaganda política são até hoje adotados em ditaduras, protoditaduras e democracias formais parasitadas por regimes neopopulistas manipuladores e autocratizantes.

Bem… a “ciência” (se é que existirá uma propriamente dita) de reconhecimento de padrões está apenas começando. Ela aqui, neste exemplo, está identificando padrões de hierarquia e autocracia que são próprios do estatismo.

A chamada inteligência democrática toma a democracia no seu sentido “forte”, quer dizer, no que ela é essencialmente (processo de desconstituição de autocracia) e por isso pode-se dizer que é impossível investigar-aprender democracia sem investigar-aprender autocracia. Como estamos há quase seis mil anos vivendo sob autocracias (e tivemos experiências estáveis de democracia em menos de meio milênio e ainda assim, na metade desse tempo, localizadas: no caso em apenas um local, Atenas entre 509 e 322 a. E. C.), toda nossa cultura é basicamente autocrática. A democracia como modo-de-vida (como queria John Dewey) é então um meio de desprogramar cultura autocrática (não no sentido neurolinguístico, da desprogramação do cérebro dos indivíduos e sim da rede social).

Em outras palavras: aprender democracia é desaprender autocracia. Compreendendo o que pode florescer em ambientes sociais fortemente centralizados e nos quais os modos de regulação de conflitos não são democráticos, podemos perceber os sinais e interpretar os sintomas do processo de autocratização da política onde quer que eles surjam, inclusive no interior de regimes formalmente democráticos. Pode-se, inclusive, aprender a detectar as tentativas contemporâneas de autocratização da democracia, baseadas no uso instrumental da democracia no sentido “fraco” do conceito (quer dizer, na utilização de alguns dos mecanismos, instituições e procedimentos da democracia representativa, como o sistema eleitoral), para enfrear o processo de democratização das sociedades, seja pela via da protoditadura (que se caracteriza, fundamentalmente, pela abolição legal ou de facto da rotatividade democrática), seja pelo emprego da manipulação em larga escala, como ocorre nas novas vertentes do populismo que vêm sempre acompanhadas do banditismo de Estado, da corrupção no governo (e nas empresas estatais), da perversão da política (como “arte da guerra”) e da degeneração das instituições por meio da privatização partidária da esfera pública e do aparelhamento da administração governamental. De qualquer modo, para conhecer o poder vertical – a sua “anatomia” e a sua “fisiologia”, vamos dizer assim – devemos estudá-lo em estado puro. Depois será mais fácil perceber seus indícios em nosso cotidiano, inclusive quando surgem em uma pequena organização.

Ainda que estudemos textos teóricos sobre a democracia e experimentemos a democracia como modo de administração política do Estado (que foi ao que se reduziu, nos últimos três séculos, a democracia reinventada pelos modernos), não conseguimos ter um entendimento profundo da democracia na medida em que nossas redes de conversações repetem circularidades inerentes que são próprias da cultura autocrática.

Em contrapartida, não é preciso qualquer esforço para aprender autocracia: começamos aprendendo na família monogâmica e depois vamos aprendendo na escola, na igreja, nas organizações juvenis, no quartel, na universidade, no trabalho em empresas hierárquicas, nas corporações, nos partidos e nos órgãos do Estado.

Aprender democracia exige então identificar matrizes de comportamentos que estão presentes nesses ambientes hierárquicos regidos por modos autocráticos. E é muito difícil fazer isso porque tais padrões estão escondidos sob camadas e camadas de discursos legitimatórios ou disfarçados por explicações funcionais e pragmáticas baseadas na inevitabilidade da hierarquia ou numa suposta competitividade inerente à natureza humana (a besta-fera – um Homo Hostilis – que existiria no interior profundo de cada um de nós, a espera de ser domada pela civilização ou pela religião, como apregoam alguns discursos liberais e conservadores).

Para identificá-los precisamos observá-los e estudá-los – como foi dito acima – em estado puro (por exemplo, num campo de concentração nazista; ou mesmo num campo dito socialista: seja um Gulag do período stalinista ou num campo atual da Coreia do Norte ou numa prisão política cubana).

Por isso, do ponto de vista da inteligência democrática, é tão importante estudar as 60 ditaduras que remanescem no mundo contemporâneo – em 2015 – (e sob as quais – pasme-se! – ainda vive mais da metade da população do planeta). Há uma quantidade imensa de material sobre isso não apenas na história, mas nas práticas institucionais atuais dos seguintes países: Afeganistão, Angola, Arábia Saudita, Argélia, Azerbaidjão, Barein, Belarus, Brunei, Burkina Faso, Burma, Camarões, Camboja, Cazaquistão, Chade, China, Comoros, Congo (Kinshasa | Brazzaville), Coréia do Norte, Costa do Marfim, Cuba, Djibuti, Egito, Emirados Árabes Unidos, Eritreia, Etiópia, Fiji, Gabão, Gâmbia, Guine, Guiné Equatorial, Guiné-Bissau, Irã, Jordan, Kuwait, Laos, Líbia, Madagascar, Marrocos, Mianmar, Nigéria, Omã, Palestina (Faixa de Gaza, sob controle do Hamas), Qatar, República Centro Africana, República Democrática do Congo, Ruanda, Rússia, Síria, Somália, Suazilândia, Sudão, Sudão do Sul, Tajiquistão, Togo, Turcomenistão, Turquia, Uzbequistão, Venezuela, Vietnam, Yemen e Zimbábue. A esses talvez ainda se possa acrescentar, em futuro próximo, Nicarágua, Bolívia, Equador e – oxalá não – democracias formais parasitadas por governos neopopulistas manipuladores e autocratizantes (como era a Argentina até o final do kirshnerismo, o Brasil sob a Era Lula e alguns outros).

 

APÊNDICE – SINAIS DE RECONHECIMENTO DE PADRÕES AUTOCRÁTICOS

Esta é uma lista demonstrativa (não-analítica) contendo apenas exemplos de indícios da presença de processos de autocratização da vida cotidiana, de reprodução de pressupostos hierárquico-autocráticos, em geral aceitos como verdades evidentes por si mesmas (ideias-implante básicas ou rotinas de um programa autocrático instalado na mente coletiva), da existência de acentuada hierarquização (topologias da rede social mais centralizadas do que distribuídas), da adesão por boa parte dos agentes a princípios de modos de regulação autocráticos, da existência de estado de guerra como dinâmica organizadora do cosmo social e do estatismo como ideologia e comportamento político.

A – INDICADORES (SIMBÓLICOS) DE AUTOCRATIZAÇÃO DA VIDA COTIDIANA

A1 – A limpeza e a pureza (a aversão à sujeira e à contaminação pelo contato com o que é impuro).

A2 – A predominância do branco (e da luz que espanca as trevas).

A3 – As formas geométricas retilíneas (as linhas e ângulos retos) na arquitetura de interiores e exteriores, urbana e rural (ruas, praças, prédios, plantações etc.).

A4 – A arquitetura monumental privilegiando a direção vertical e a repartição e separação dos espaços: muros, escadas, portas, fechaduras…

A5 – A sociedade totalmente organizada e uniformizada (as pessoas com uniformes ou roupas semelhantes, com cortes padrão de cabelo ou penteados canônicos, os conjuntos habitacionais com construções e aparência iguais etc.)

A6 – Os horários fixos válidos para determinadas atividades (eletivas ou compulsórias): a existência de uma espécie de regulamento geral das horas (ou tabela taylorista, com horas para trabalhar, descansar, dormir, fazer sexo, se divertir etc.)

A7 – O silêncio (a aversão ao alarido do chamado populacho ou da turba considerada vil e ao falar alto).

A8 – A ordem (e a aversão ao que é julgado como bagunça ou baderna).

A9 – O culto à bandeira, ao hino e aos símbolos pátrios (e à pátria) e a exaltação do patriotismo.

A10 – Os regulamentos e as numerosíssimas proibições (“levíticas”: para tudo ou quase haverá uma disposição ou modo-de-fazer correto).

A11 – A espada, a coroa, o cetro, o bastão (como símbolos de poder deslizados para a política).

A12 – O intrincado protocolo para qualquer cerimônia, os modos de tratamento canônicos, os numerosos títulos e as reverências ou prostrações para falar com o governante (ou coexistir em sua presença ou até sobreviver diante da sua passagem).

A13 – O culto (necrófilo) do trabalho e a exaltação do trabalhador.

A14 – As restrições à livre sexualidade e a deslegitimação da imaginação criadora.

A15 – A existência – e onipresença – de uma polícia política.

A16 – O sentimento geral de poder estar violando – nas menores ações privadas do dia-a-dia – alguma regra estabelecida conhecida ou ser interpretado como violador de alguma regra desconhecida e, por isso, cair em desgraça, ter suas aspirações ou demandas preteridas ou ser reprimido pela polícia política (supostamente onisciente).

A17 – A constante vigilância de todos sobre todos e a existência de mecanismos de delação espalhados (que podem ser usados por qualquer um).

A18 – A naturalização da ordem social que impede a percepção, deslegitima alternativas e promove a configuração social existente como necessária (de sorte a fazer com que as pessoas imaginem que as coisas ‘são’ assim e não que ‘estão’ assim).

A19 – A despessoalização: os seres humanos – as pessoas, sempre únicas – são transformados em indivíduos, não raro, designados por números (e não por nomes próprios; ou seus nomes são antecedidos por tratamentos niveladores (camarada, companheiro, irmão) ou sucedidos pelas designações dos cargos funcionais ou hierárquicos que ocupam.

B – IDEIAS-IMPLANTE (ROTINAS DO PROGRAMA BÁSICO)

B1 – A felicidade como ideal supremo.

B2 – A igualdade como ideal supremo (e como pré-condição para a liberdade); ou a ideia de que não pode haver (verdadeira) liberdade sem (ou até que se alcance a perfeita) igualdade.

B3 – A abundância como ideal supremo (que, para ser alcançado, exige a politização da economia como administração da escassez, em geral artificialmente introduzida).

B4 – A utopia (qualquer utopia) como modelo a ser alcançado no futuro (e que, para ser alcançada, exige algum tipo de sacrifício ou de restrição às liberdades no presente).

B5 – O esforço para consertar a natureza, a sociedade ou o ser humano (que teriam vindo com alguma espécie de “defeito de fábrica”).

B6 – A ideia de que existe uma sociedade igual para colocar no lugar da sociedade desigual (e de que essa sociedade igual estaria em alguma espécie de mundo paralelo pronta para ser trazida – ou realizada – a partir das contradições da sociedade desigual, elidindo a evidência de que a sociedade igual é somente o conjunto das relações igualitárias que se traçam aqui e agora por meio de atos singulares e precários).

B7 – A ideia de que a nação é uma grande comunidade de destino e a própria ideia de destino (ou da existência de leis ou disposições transcendentes ou imanentes à história).

B8 – A ideia de que existe uma História (assim mesmo, com H maiúsculo) e ela tem leis (que podem ser conhecidas por quem tem a teoria e o método corretos de interpretação da realidade).

B9 – A ideia de que a superestrutura da sociedade (a política, a cultura etc.) é determinada em última instância pela sua infraestrutura econômica.

B10 – A ideia de que o ser humano é inerentemente (ou por natureza) competitivo e de que as pessoas se movem buscando sempre maximizar a satisfação de seus interesses (que são, ao fim e ao cabo, egotistas).

B11 – A ideia de que não é possível mobilizar a ação coletiva a não ser a partir de lideranças destacadas.

B12 – A ideia de povo como rebanho à espera de um condutor, salvador (messias).

B13 – A ideia de povo eleito (escolhido ou ungido por alguma entidade transcendente que intervém na história para conduzi-lo para algum destino já configurado ou prefigurado).

B14 – A ideia de espaço vital (necessário à consumação do destino de um povo predestinado a cumprir um ideal ou de uma raça superior).

B15 – A ideia de que é direito do povo eleito dominar os demais sem limitações de qualquer natureza, sejam elas impostas por leis humanas ou divinas (sendo esse direito determinado pelo critério único do valor do grupo no interior de uma luta darwiniana).

B16 – O mito fundante: de que a nação teria alguma origem comum em um suposto evento épico ou glorioso (perdido nas brumas do passado).

B17 – A ideia de que não é possível organizar nada sem (uma boa dose de) hierarquia.

C – INDICADORES DE PRESENÇA DA HIERARQUIA

C1 – A existência de sacerdócio (a burocracia, a intermediação, a descentralização da rede em vez da sua distribuição).

C2 – A ordenação top down do Estado e da sociedade (os graus, degraus, a estratificação: camadas sobre camadas).

C3 – Ordem, hierarquia, disciplina, obediência, fidelidade imposta top down, punição e recompensa.

C4 – A busca e manutenção da estabilidade pela aproximação do estado de equilíbrio (e não feita e refeita no fluxo dos sistemas afastados do estado de equilíbrio).

C5 – As opções pré-ordenadas e a redução dos caminhos possíveis (levando à escolhas sempre limitadas).

D – PRINCÍPIOS DO MODO DE REGULAÇÃO AUTOCRÁTICO

D1 – O conflito como uma disfunção (malfunction).

D2 – A resolução do conflito pela eliminação (ou recuperação, restauração ou conserto de um defeito) do elemento ou polo conflitante.

D3 – A regulação do conflito pela imposição da vontade da maioria (ignorando-se os desejos das minorias).

D4 – As restrições à liberdade (de opinião, de ir-e-vir, de imprensa, de manifestação, de organização, de difusão de ideias por qualquer meio, inclusive no ciberespaço etc.).

D5 – O segredo nos negócios de Estado (e nos negócios do chefe de Estado e de suas organizações), a opacidade das instituições e procedimentos: inexistência de transparência e impossibilidade de accountability.

D6 – A ideia de que democracia é o poder do povo ou o poder da maioria da população (pervertendo a ideia fundante – ou o meme democrático original – de que ela é ‘o poder de qualquer um’, quer dizer, a indiferença das capacidades para ocupar as posições de governante ou de governado).

D7 – O regime político baseado em votação por maioria, em que as minorias não têm direitos (ou têm menos direitos do que a maioria).

D8 – O julgamento de que a oposição não é legítima e de que os que se opõem aos chefes do Estado ou aos seus representantes ou delegados são traidores ou sabotadores.

D9 – A caracterização (e inculpação) de quem desobedece, diverge, desvia ou destoa como traidor.

D10 – A ideia (meritocrática) de que quem deve governar (dirigir o Estado, o país, a cidade e, por decorrência, a sociedade) é quem sabe mais.

D11 – A sociedade regulada por um algoritmo, sem necessidade de um chefe ou comandante.

E – A GUERRA COMO DINÂMICA ORGANIZADORA DO COSMO SOCIAL

E1 – A separação nós x eles (e todas as separações decorrentes dessa separação primordial: bem x mal, explorados x exploradores, povo x elites, esquerda x direita, socialistas x liberais, fieis x infiéis de qualquer religião ou seita, nacionais x estrangeiros, leste x oeste, sul x norte, brancos x não-brancos, heterossexuais x homossexuais etc.)

E2 – A ideia e a prática da política como arte da guerra, ou como continuação da guerra por outros meios (a fórmule-inverse de Clausewitz-Lenin).

E3 – O culto do conflito e a guerra como instituição permanente (e como realidade inexorável, sobretudo a guerra não-ocorrida como guerra-quente ou conflito violento – como o é toda guerra – mas latente e eternamente presente nos períodos considerados de paz.

E4 – A ideia e a prática de que governar é comandar (uma força, um contingente, um exército, um povo).

E5 – O culto do herói.

E6 – A ideia de que a luta de classes é o motor da história.

E7 – A ideia de que a violência é a parteira da história.

E8 – A ideia da beleza da violência e a eficácia da vontade, quando voltadas para o êxito do grupo que tem uma causa redentora ou reformadora do mundo.

E9 – A construção e manutenção de inimigos.

F – O ESTATISMO COMO IDEOLOGIA E COMPORTAMENTO POLÍTICO

F1 – A ideia de Estado como materialização do espírito ou da vontade divina (ou de alguma realidade ou entidade transcendente).

F2 – O culto do Estado (e a ideologia estatista, ou seja, a visão estadocêntrica do mundo).

F3 – A sociedade como dominium do Estado (no sentido feudal do termo) e a ideia de que é o Estado que deve dirigir a sociedade.

F4 – O partido fundido ao Estado, que conquistou hegemonia sobre a sociedade e transformou a sociedade em um ente privado.

F5 – A existência de um líder supremo, benfeitor, condutor, com alta gravitatem e carisma, que ocupa o centro do Estado para fazer uma ligação direta com as massas bypassando as mediações institucionais.

F6 – Os direitos encarados como privilégios (ou concessões de um benfeitor).

F7 – Os cidadãos reduzidos a súditos (do Estado e, às vezes, do chefe de Estado).

F8 – As pessoas – todas as pessoas – transformadas em funcionários (stricto ou latu sensu) do Estado.

F9 – A ideia de que o Estado – quando nas mãos certas – é o grande agente transformador da sociedade e a ele compete educar as massas para produzir o Homem Novo.

 

 

 

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