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Reflexões sobre o resultado eleitoral: 58 milhões escolheram Bolsonaro, mas 90 milhões não

Escrevi no meu Facebook, no último dia 27 de outubro, o seguinte:

“Bolsonaro vai ganhar a eleição (ao que tudo indica), mas não terá o apoio da maioria dos brasileiros. No primeiro turno, 49 milhões de eleitores escolheram Bolsonaro, mas 98 milhões escolheram outros candidatos (ou escolheram ninguém). Vamos ver como será no segundo turno. Entendam. Quem ganhar vai ganhar pelas regras eleitorais vigentes, que devem ser obedecidas e não podem ser deslegitimadas. Mas isso não significa que possa se arvorar a porta-voz de todos os brasileiros. A maioria dos brasileiros – é bom que ele tenha isso em mente – não vai escolher Bolsonaro, assim como, se a situação fosse invertida, não iria escolher Haddad”.

Hoje cedo (às 06h38) fiz então uma atualização. Segue abaixo:

RESULTADOS DO SEGUNDO TURNO

Com 99,96% das urnas apuradas, Bolsonaro teve 55.14% (57.787.869 votos) e Haddad 44.86% (47.022.217 votos).

Não escolheram Bolsonaro ou Haddad: os que votaram em branco 2,15% (2.493.109 não-votos), os que votaram nulo 7,42% (8.614.546 não-votos) e os que não apareceram para votar 21,3% (31.370.372 não-votos).

Considerando que temos 147.306.275 de eleitores aptos a votar, é só fazer as contas (os resultados, aproximados, ainda não são definitivos).

=> Pouco menos de 58 milhões escolheram Bolsonaro, mas aproximadamente 90 milhões não o escolheram.

=> Cerca de 47 milhões escolheram Haddad, mas aproximadamente 100 milhões não o escolheram.

=> Não escolheram Bolsonaro, nem Haddad, 42.478.027 pessoas.

Alguns minutos depois, Reinaldo Azevedo publicou, no seu blog, as seguintes notas (os números divergem um pouquinho porque foram colhidos em fases diferentes da apuração, mas não alteram os argumentos).

QUATRO EXCELENTES POSTS DO REINALDO

Advertência dos números 1: Bolsonaro obteve, na verdade, 39,23% dos votos do eleitorado, e Haddad, 31,93%. Ou: nem Cesar nem Catilina

Reinaldo Azevedo, Blog da RedeTV, 29/10/2018 – 8:23

Vitoriosos e derrotados desta eleição têm de levar em conta alguns números se não quiserem brincar com fogo. A razia que a Lava Jato promoveu na política levou ao poder nomes que se apresentaram “contra o sistema” — e, por óbvio, Jair Bolsonaro, embora no 28º ano de mandato como deputado, é um deles. Soube encaixar o seu discurso e afiná-lo com a insatisfação de milhões de pessoas. Mas cumpre que se coloquem aqui alguns dados para a reflexão dos leitores e também dos protagonistas da peleja. O Brasil conta com 147.305.825 eleitores. Bolsonaro obteve 55,13% dos votos válidos. Em números: 57.797.423 — vale dizer: 39,23% do total de eleitores, e isso corresponde a bem menos da metade dos eleitores brasileiros. Os 44,87% de válidos do petista Fernando Haddad — 47.040.574 — representam, na verdade, 31,93% das pessoas aptas a votar. Parece-me que esses dados já deveriam ser suficientes para conter vocações cesaristas de quem governa ou a disposição de eventualmente melar o jogo de quem foi derrotado. O eleitor não está disposto a tolerar nem um César nem um Catilina. Há sinais positivos de ambos os lados. Em seu segundo discurso — o primeiro foi péssimo —, Bolsonaro falou em respeitar as regras da democracia, e Haddad afirmou apreço pelas instituições. É bom mesmo!

Advertência dos números 2: imensa massa de 42.465.941 de eleitores não quiserem saber nem de um candidato nem de outro. Cuidado!

Reinaldo Azevedo, Blog da RedeTV, 29/10/2018 – 8:18

É bom porque ainda que haja muita gente por aí a se oferecer para disputar o voto do eleitor se dizendo um não-político, a desesperança persistiu em muitos milhões. Os brancos (2,14%) e nulos (7,43%) somaram 9,57% dos votos no segundo turno: uma massa imensa de 11.094.674, maior do que a diferença que separou Jair Bolsonaro de Haddad: 10.756.849 pessoas. Outras 31.371.267 pessoas simplesmente não quiseram nem aparecer no pleito: somam 21,3%. Estamos falando de 42.465.941 pessoas que trabalham (ou procuram emprego), pagam impostos, ficam indignadas, têm problemas como qualquer um de nós e simplesmente não se sentem representadas por nenhum dos dois candidatos. Ou, então, estão mesmo descrentes da política. Nem uma polarização como essa — ou até por causa dela, sabe-se lá — foi capaz de movê-las para um candidato ou para o outro. Ocorre que toda essa gente também é alvo das políticas públicas implementadas pelo governo. Essas pessoas, note-se, podem até não votar. Mas, se preciso, sabem protestar.

Advertência dos números 3: abstenção no 2º turno superou em 1,43 milhão a do 1º; 57,797 milhões foram de Bolsonaro; 89,5 milhões não

Reinaldo Azevedo, Blog da RedeTV, 29/10/2018 – 8:13

Uma outra evidência de que a descrença é grande está no fato de que a abstenção no primeiro turno — 29.941.171 — foi menor do que no segundo: 31.371.267. À medida que o confronto se tornou mais duro, mais ideologizado e com menos espaço de interlocução, mais pessoas se desinteressaram do processo: um acréscimo de 1.430.096 pessoas. Tomara que os dois líderes da contenda final percebam que não basta apenas falar em conciliação — tendo as instituições como referência. É preciso também prestigiar a política em vez de amaldiçoá-la. Houve, nesta eleição, entre os que votaram, um clima de “agora vai ou racha”, com certos apelos na linha: “Esta é nossa última esperança”. E, ainda assim, muita gente preferiu ficar fora do jogo e não escolher ninguém. Pouco se sabe sobre o programa de Bolsonaro. Há sinais contraditórios. De toda sorte, é evidente que ele representa uma esperança de mudança para milhões de pessoas. Mas que fique atento, também, à maioria que não votou nele porque não compareceu, votou branco ou nulo ou escolheu seu adversário: estamos falando de 89.506.515 eleitores. E Bolsonaro será presidente também dessa maioria. Da mesma sorte, cumpre ao PT perceber que abstenções, brancos e nulos (42.465.941) não estão assim tão distantes dos 47.040.574 que apertaram o 13 na urna.

Advertência dos números 4: quase um terço do eleitorado – 30,87% – não quis votar nem em um nem em outro. Hora de votar na prudência

Reinaldo Azevedo, Blog da RedeTV, 29/10/2018 – 8:07

Sim, o país demonstrou uma divisão das urnas, com vantagem para o bolsonarismo. Mas este é também um país que anda desiludido. Quase um terço do eleitorado (30,87%) não se sente representado pelos postulantes que chegaram à final da peleja. Oh, querido leitor! É claro que o presidente que vai tomar posse, a despeito desses números, é dotado de legitimidade e poder legal para pôr em prática todas as prerrogativas que cabem ao chefe do Executivo. Mas, antes de mais nada, os números que aqui estão recomendam prudência.


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