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Refugue a pergunta capciosa

Toda hora chega alguém e pergunta: mas se no segundo turno estiverem Lula (ou alguém apoiado por ele) x Bolsonaro em quem devemos votar?

Ora, esta não é uma pergunta política válida. É um exercício de futurologia, em geral mal-intencionado. A eleição não é hoje. A política tem de perguntar o que fazer hoje. Hoje, que não é amanhã, os democratas devem impedir a polarização Lula (ou alguém apoiado por ele) x Bolsonaro. Ponto.

Em outubro de 2018 a pergunta poderá ser feita de novo e, aí sim, se acontecer o pior, ela será válida. Espero que ela não possa ser feita.

A pergunta é capciosa e, como tal, deve ser refugada pelos democratas. É como perguntar: você votaria em Kim Jong-un ou em Slobodan Milošević? Ou como perguntar: você votaria em Hitler ou em Stalin?

Capcioso – segundo o Google, hehe – é um adjetivo na língua portuguesa que qualifica algo ou alguém que procura enganar, induzindo ao erro. Uma pessoa com um comportamento capcioso tem a intenção maliciosa de confundir e enganar alguém, utilizando astúcia, sedução e esperteza.

Qual é a intenção maliciosa aqui? Depende do militante ou do fanático – ou, simplesmente da pessoa tola – que faz a pergunta. Se for um lulopetista, ele quer que você pense que o quadro já está dado e que votar em Lula é a única maneira de impedir a vitória do maluco Bolsonaro. Se for um bolsonarista, ele quer que você pense que o quadro já está dado e que votar em Bolsonaro é a única maneira de impedir a vitória do bandidaço Lula.

Trata-se, em ambos os casos, de um embuste estatista. Sim, é preciso entender que Lula e Bolsonaro são estatistas: um, dito de esquerda e, outro, dito de direita. Mas ambos populistas e antidemocratas, cada qual, porém, a seu modo.

Populistas e antidemocratas representam forças políticas diferentes na Europa. Na América Latina não é bem assim. O bolsonarismo é um populismo antidemocrático. E o lulopetismo é um neopopulismo (uma vertente do bolivarianismo) que, ao fim e ao cabo, também é antidemocrático. Por isso a classificação de Pappas não se aplica aqui. Aliás, a rigor, nem na Europa, pois não basta aceitar o jogo eleitoral para ser democrata. Hoje os populistas e os neopopulistas adotaram a via eleitoral contra a democracia.

Uma pessoa me disse no Facebook que será obrigado a apoiar Bolsonaro. Respondi: você só é (ou se sentirá) obrigado a apoiar Bolsonaro se for um autocrata ou um estatista anti-esquerdista, se for um analfabeto democrático ou se for um idiota. Em geral, se for tudo isso.

Da parte dos simpáticos a Bolsonaro, há também o que chamei de argumento “Bebê de Rosemary”: Lula nós já conhecemos e sabemos do que ele é capaz; mas Bolsonaro, não. É como pedir uma chance para o autocrata sem experiência se revelar um autocrata pela experiência. Este é um risco que a democracia não pode correr, sobretudo sabendo que o autocrata sem experiência está nos enganando.

A melhor coisa que aconteceu com Lula foi a candidatura Bolsonaro. A pior coisa que acontecerá com Bolsonaro é o eventual impedimento da candidatura Lula. Aí, quem sabe, haja chances para uma candidatura do campo democrático.

Mas isso não basta para os democratas. Ficar esperando que a justiça resolva os problemas da política não é um bom caminho. É preciso contar, desde já, com a possibilidade de Lula ser candidato e também com a possibilidade dele, sendo impedido de concorrer, transferir votos para um novo poste (pelo menos mais de 20%, alçando seu preposto ao segundo turno).

Por isso, não é hora de ficar escolhendo o candidato dos sonhos. O candidato necessário à democracia brasileira neste momento, provavelmente, não será o melhor e sim aquele que tiver potencial para quebrar a polarização Lula (ou alguém apoiado por ele) x Bolsonaro, impedindo que a disputa política seja capturada e fique aprisionada no campo autocrático, alijando os democratas.


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