Reinaldo e Gilmar

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Reinaldo Azevedo

Um caso triste de mudança para pior

Uma trajetória curiosa, semelhante a de Gilmar Mendes, foi a do seu assessor de imprensa informal e agora também cabo eleitoral Reinaldo Azevedo. Não consigo explicar o que aconteceu com Gilmar – que conheci na década de 90, quando ainda usava barba, como responsável jurídico da Casa Civil – da mesma forma que não consigo explicar o que aconteceu com Reinaldo, que sempre admirei pela argúcia e pela resistência de primeira hora ao projeto do PT.

Mas os ventos mudaram e… mudaram os homens. Uma mudança pode ser boa ou ruim, do ponto de vista da democracia. No caso do Reinaldo, foi ruim. Com o declínio do PT, ele se entregou ao legalismo e a tal ponto que está virando uma espécie de troll da democracia, molestando a força tarefa da Lava Jato e alguns outros que não pensam como ele. Meu primeiro estranhamento com as suas opiniões, aconteceu quando da prisão provisória de Marcelo Odebrecht. Registrei tudo no artigo Embaraços do legalismo.

Em seguida mostrei, em outro artigo, por que Nenhuma Lava Jato resistiria ao legalismo.

Sim, leiam os dois artigos linkados acima. O primeiro deixa claro que ele, Reinaldo, de fato se esforçou – além do que seria razoável para um analista político – para que Marcelo Odebrecht fosse solto. Fez uma cruzada particular no seu blog, na Veja, publicando em sequência vários artigos para dizer que a prisão de Marcelo era ilegal ou injusta e que a Odebrecht, afinal, devia ser vista com outros olhos, na medida em que tinha alcançado excelência empresarial, inusitado tino comercial e outras bobagens. O segundo artigo deixa claro por que Marcelo solto atrapalharia as investigações.

Qualquer analista político sério teria vergonha de fazer esse papelão, mas não um legalista. O legalista acha que sempre tem razão porque se concebe como defensor perpétuo das leis, que interpreta como quer (quem sabe por algum mandato celeste ou unção divina). E até quando os juízes da Suprema Corte as interpretam diferentemente, ele os repreende, denuncia e, inclusive, pede o seu impeachment (como. por exemplo, o mesmo Reinaldo fez recentemente com Barroso).

Pois não é que o mesmíssimo Reinaldo Azevedo, que tentou por todos os meios dissuadir as pessoas de ir às ruas no 26 de março, vem agora – de maneira sórdida – tripudiar sobre a manifestação e sobre os grupos que a convocaram, dizendo que ela foi um fracasso, que o povo faltou ao encontro, que as mídias sociais (que ele confunde com redes sociais, pois suas leituras são do século passado) não têm a ver com a realidade. Sobre isso. aliás, publiquei o artigo 26/03: um sinal de que a sociedade está viva.

Os legalistas, como Reinaldo, acham que se obedecermos as leis tudo irá bem. Eles nos recomendam pendurar as chuteiras e ir para casa, sentar no sofá e ficar em frente da TV torcendo para que as instituições cumpram seu papel. Mas o legalismo, como sabemos, é apenas mais uma ideologia conservadora, que acaba sempre maltratando a democracia. Foi o que mostrei no artigo O perigo do legalismo.

O problema maior é que a guinada na trajetória de Reinaldo está sendo, além de curiosa, prejudicial à transição democrática que vivemos (ou que deveríamos estar vivendo). Ecoando sempre o que pensa seu candidato, Gilmar Mendes, do qual virou o principal porta-voz, ele também empreendeu uma cruzada contra a Lava Jato, em especial contra os procuradores da força tarefa, como Deltan Dalagnol, contra o juiz Moro e contra os delegados da Polícia Federal. Passou a perseguir essas pessoas diariamente, como se elas fossem as grandes responsáveis pela situação que estamos vivendo. Quer dizer, para ele, os principais riscos à democracia não vêm dos que cometeram os crimes e sim dos agentes da lei que tentam investigá-los e puni-los.

No balanço que fiz no artigo 26/03: um sinal de que a sociedade está viva, observei que

“se fosse pelos legalistas, não teria havido impeachment, pois as instituições sozinhas não teriam peito, nem condições objetivas, para remover Dilma da cadeira presidencial. Se fosse pelos legalistas, Dirceu, Palocci, Duque, Vaccari, Cabral, Cunha e Marcelo Odebrecht estariam todos soltos e tramando contra a Lava Jato, pois eles (antes de ser condenados – e não o foram todos ainda) sofreram prisões provisórias. E os legalistas consideram que a prisão provisória é um crime de lesa-divindade, maior do que todos os demais que já foram cometidos na história e que ainda serão. Só não se importavam muito quando os presos provisórios – que somam centenas de milhares no Brasil – eram pessoas comuns… Mas os legalistas – talvez a versão moderna daqueles que um homem comum de Nazaré chamou, há dois mil anos, de “sepulcros caiados” – não têm razão”.

Pois é. Uma inversão tão brutal na trajetória de vida de uma pessoa não se explica apenas por excesso de zelo na defesa do Estado de direito. Alguns dizem que não é improvável que se encontre alguma demão de cal escondendo sujidades. Não sei. Nunca acreditei nisso. Mas não posso deixar de sentir nessa mudança de trajetória um certo odor de hipocrisia. Outros levantam hipóteses relacionadas com o patrocínio de seus programas de rádio. Acho improvável, mas também não sei. E não quero e não vou especular.

De qualquer modo, seja qual for a razão, Reinaldo Azevedo é um caso triste de mudança para pior. É uma pena, pois trata-se de uma pessoa inteligente, que denunciou com rara precisão os perigos do lulopetismo para a democracia brasileira. Mas agora, depois dessa guinada legalista e, convenhamos, um tanto hipócrita, os democratas não podem mais levar a sério uma palavra do que ele diz.


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