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Seis conselhos que o presidente Jair Bolsonaro não vai ouvir

Não sou conselheiro de Jair Bolsonaro. Este papel já é cumprido pelo “Rasputin da Virgínia”. E mesmo que o cargo estivesse vago, não me candidataria a ele, por total incompatibilidade de visões e comportamentos políticos. Sou um liberal-político, quer dizer, um democrata. E Bolsonaro é o oposto disso.

Sim – sem nunca pertencer ao governo ou a qualquer partido e sem receber nenhuma remuneração – já fui conselheiro da presidência da República durante 8 anos (de 1995 a 2002). Agora, nem isso seria. Eram outros tempos. E outro material humano.

Mesmo assim, nada me impede de dar gratuitamente, sem que me tenha sido pedido, os seguintes conselhos. Alguns, que querem logo a queda de Bolsonaro, podem até julgar contraproducente o que vou fazer. Se Bolsonaro ouvisse esses conselhos, aumentaria em muito as chances de exercer um governo mais estável, ainda que medíocre. E não é do nosso interesse que o governo dê errado, pois isso trará prejuízos não apenas os seus sectários, mas a todos os brasileiros.

Infelizmente, parece claro que Bolsonaro não vai ouvir nenhum desses conselhos. Seu governo dará errado porque já começou errado (desde a campanha) e porque (depois da posse) ele insiste em cometer, diariamente, os mesmos erros.

Seguem então meus seis conselhos.

Caro Jair Bolsonaro:

1 – Desvencilhe-se de todas as facções: dos conspiracionistas-antiglobalistas (tipo Steve Bannon e Olavo de Carvalho), dos monarquistas-tradicionalistas e evangélico-fundamentalistas, dos jacobino-restauracionistas (tipo os lavajatistas e antagonistas da terra arrasada) e, inclusive, dos militaristas-intervencionistas. Não importa o quanto essas facções tenham lhe ajudado a conquistar o cargo. A única lealdade que se exige de um presidente é ao conjunto da população.

2 – Em especial, livre-se do bolsonarismo. O eleito foi Jair Bolsonaro, não o bolsonarismo. Se Bolsonaro quiser continuar sendo bolsonarista será o representante de uma facção e não o representante da nação.

3 – Distancie-se das influências políticas familiares. Um presidente pode e deve continuar amando sua família, é claro, mas tem que aprender a separar a esfera privada da esfera pública (e a família do presidente está na esfera privada, não importa para nada que seus familiares – pai, mãe, esposa, filhos – tenham cargos políticos). A familiocracia (e, no caso, a filhocracia) mais cedo do que mais tarde dará problema (como já está dando).

4 – Reinvente-se. Quem é eleito presidente da República tem que mudar. Não é mais o que era. Não fala mais como falava. Não gesticula mais como gesticulava. Não tuíta mais como tuitava. Se foi eleito, a campanha acabou. Um presidente passa a ser patrimônio e servidor de toda a população, não é mais dono de si mesmo. É o primeiro funcionário público. E deve cumprir rigorosamente a liturgia própria do cargo.

5 – Conforme-se com a democracia (1). Seria muito pedir-lhe que se converta à democracia. Não é possível, nem mesmo necessário nas atuais circunstâncias: basta que se conforme. Mesmo que tenha um passado militar, um presidente da República, em uma democracia, chefia sempre um governo civil. O cargo que ocupa é civil, não militar. Quando se diz que o presidente da República é o comandante-em-chefe das Forças Armadas, isso significa que ele é a expressão de um poder civil que controla os militares. Não pode, portanto, ser tutelado por militares.

6 – Conforme-se com a democracia (2). Repetindo: não precisa se converter, basta que se conforme. Não faça guerra contra quem não apoia o governo (seja um ator político, um partido, uma organização ou uma instituição – como a imprensa). Não demonize a oposição (sem oposição, não há democracia). Converse com todos (a democracia é o regime do diálogo: com os iguais e com os diferentes). Não trabalhe com o conceito de “inimigo interno” (do contrário, jamais será o presidente de todos e sim apenas de uma facção).


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