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Seja um novo pensador

O assunto teve início no artigo É tempo de novos pensadores. Este post dá continuidade à reflexão, embora ainda não entre em detalhes da proposta.

Comecemos com uma provocação. Não queira ser ensinado em filosofia (no sentido platônico do termo), ou seja, não queira saber reproduzir o pensamento dos grandes pensadores. Seja, você mesmo, um pequeno pensador (não há nada de errado em ser pequeno), mas seja um novo pensador.

POR QUE NOVOS PENSADORES

Há muito tempo venho dizendo que ideias não mudam comportamentos: só comportamentos mudam comportamentos.

No entanto, não se pode negar que existem comportamentos conformes a certas ideias (na verdade, todos os comportamentos o são, o que não significa que eles sejam causados por essas ideias). Uma vez sintonizado com algumas ideias, se você consegue desenvolver comportamentos compatíveis com elas, certamente alguma coisa vai mudar na sua rede mais próxima de relacionamentos (com um grau de separação) e essa mudança pode se propagar para pessoas que você não conhece, como alguns amigos dos seus amigos e boa parte dos amigos dos amigos dos seus amigos, transbordando os limites dos três graus de separação (o emaranhado social onde você está – e é, como pessoa).

Por isso as ideias são importantes, ainda que não decisivas em si mesmas se não desencadearem comportamentos compatíveis com elas. Se você se sintoniza com ideias épicas, de guerra (ou seja de construção de inimigos), de cruzadas (contra os infiéis), de limpeza ética (para purificar o mundo, punindo os maus), de heroísmo (que buscam alcançar atributos super-humanos em vez de qualidades mais-humanas), a chance é grande de vir a adotar comportamentos adversariais, baseados na desconfiança do outro, do diferente, do que cultiva outras crenças e modos de vida, que passa então a ser encarado como uma potencial ameaça em vez de um possível parceiro.

Se você se sintoniza com ideias do passado, da tradição, a tendência é desenvolver comportamentos que repetem passado (pois que tradição é isto) em vez de se colocar numa atitude aberta ao futuro, ao novo, adotando comportamentos inovadores. Platão foi um autocrata não porque tivesse ideias contrárias à democracia, mas porque adotou comportamentos conformes à essas ideias.

Por isso é tão importante pensar com a própria cabeça (e não com a cabeça dos outros), ser um novo pensador, quer dizer, pensar adiante. Pensamos sempre com ideias e alguém que vive no século 21 não pode deixar sua mente ser sequestrada por ideias dos séculos passados ou por pensadores contemporâneos que, baseados em ideias passadas, reproduzem pensamentos arcaicos e retrógrados.

É preciso estar sintonizado com as ideias das pessoas que estão explorando hoje as fronteiras do pensamento em vez de ficar apenas repetindo algum grande pensador do passado. Não que não se deva investigar o pensamento dos pensadores do passado, mas a atitude inovadora deve ser sempre a de relê-los no presente, tentando imaginar como eles pensariam diante dos desafios que estão diante de nós. Ou seja, é preciso conversar com os mortos, concordar com eles, às vezes, e contradizê-los, outras vezes, em vez de apenas reproduzir os ecos, no presente, do que eles disseram, no passado. Mais do que isso, é preciso evocá-los (ou invocá-los) para que eles se manifestem sobre problemas que não existiam na sua época. Do contrário eles permanecerão mortos.

Sim, de certo modo, isso significa conversar com os mortos, mas tornando-os vivos, quer dizer, lidando com os seus pensamentos que continuam vivos, através de nós, no ambiente em que estamos, em vez de tentar reproduzir, no presente, pensamentos mortos (que foram guardados, in vitro), como se fossemos decoradores de doutrinas ou máquinas arquivadoras. Se você consegue fazer isso, torna-se um novo pensador, mesmo que não tenha nenhum certificado, título ou diploma conferidos por algum tribunal epistemológico.

O QUE SÃO NOVOS PENSADORES

Não há ideia criada por um (único) sujeito. Toda ideia é cocriada. Toda ideia é clone de outras ideias (talvez com exceção da ideia de nada, mas mesmo esta, quando vira conceito de uma tradição religiosa – como o budismo -, já carrega aderências doutrinárias que são introduzidas pelos que a repetem em contextos distintos e, assim, de algum modo a interpretam e atualizam, quer dizer, a modificam).

Se você pensa com ideias, pensa sempre com o pensamento dos outros, mas é preciso ver que há duas atitudes básicas aqui. A primeira atitude é a do erudito, mais afeito à cultura livresca e à acumulação de conhecimento ensinado (ou recebido), que reproduz e interpreta essas ideias (dos outros) querendo manter-se fiel ao seu suposto sentido original (o que, a rigor, é impossível). A segunda atitude e a do livre-pensador que clona essas ideias, introduzindo variações que ocorrem em função das nuvens interativas em que está imerso, recriando-as de acordo com um fluxo do pensamento presente (que é sempre eventual e fortuito: o que é inaceitável pelos que querem a segurança da reprodução fiel das velhas ideias). Na verdade, todos fazem, querendo ou não, a operação descrita na segunda atitude. Mas não pensam sobre o que pensam da mesma maneira. E isso faz muita diferença, não propriamente em termos de conteúdo e sim do processo mesmo de pensar. Novos pensadores são novos não apenas porque tenham novas ideias (sim, eles também as terão) e sim porque pensam de uma nova maneira, open, sem medo de sujar ou deturpar os sentidos aceitos e autorizados pelos fiscais e juízes dos pensamentos alheios (reunidos em alfândegas ideológicas e tribunais epistemológicos em que se transformaram as academias).

Mal-comparando é a mesma diferença entre quem defende o multiculturalismo e quem aceita a miscigenação cultural. Novos pensadores não são avalizadores da fidelidade de reproduções autorais e sim miscigenadores, livres porque podem ser infiéis às origens da matéria com que trabalham. Os sofistas foram novos pensadores, para desespero de Platão. Há um problema epistemológico de fundo aqui: quando alguém se entrega ao fluxo do pensamento presente não consegue separar a doxa da episteme, nem subordinar a primeira à segunda.

A possibilidade de criar tem a ver com kairos, não com kronos. Quando um emaranhado de opiniões (atenção: não uma sistematização de conhecimentos) se conforma segundo determinadas configurações favoráveis à inovação, os novos pensadores aproveitam a oportunidade que se oferece naquele momento, pois sabem que as janelas se fecham rapidamente. Pois tudo é fluxo.

No que tange aos diferentes tipos de logos, os sofistas, como se sabe (ou melhor, não se sabe), estavam preocupados com o kairos ou a escolha do tempo adequado. E o kairos não é algo a ser alcançado pelo conhecimento (episteme) — é mais próprio da opinião (doxa).

A reflexão continua.


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