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Seja você também um jacobino

Um manual prático

O texto abaixo é, evidentemente, uma caricatura. Uma maneira jocosa de chamar a atenção para uma questão importante.

O jacobinismo é um comportamento político surgido no final do século 18, na França revolucionária (1789-1799), baseado numa ideologia da restauração. O nome faz referência ao convento dos dominicanos (jacobins), na rua Saint-Honoré, em Paris, onde se reuniam os membros de um clube (inicialmente chamado de Clube Bretão e, depois, de Sociedade dos Amigos da Constituição) que atuou como partido político revolucionário (antecipando, em parte, o que viriam a ser os bolcheviques). Os jacobinos preconizavam uma política centralizada, com o uso do Estado para derrubar o antigo sistema político, eliminando todos os seus membros. Embora representassem os interesses da nascente burguesia, eles manipulavam a pulsão moralista (e o sentimento de vingança contra a nobreza) dos descamisados da época (os sans-culottes) que queriam limpar o país de toda corrupção dos mais ricos (os nobres). Para tanto, chegaram a instaurar o Grande Terror (entre 1793 e 1794), que acabou ceifando a vida de seus principais expoentes.

No Brasil atual ecos desse comportamento político podem ser identificados em alguns grupos e veículos de comunicação que se engajaram na luta pelo impeachment de Dilma Rousseff – como O Antagonista – que conseguem ter grande influência sobre os moralistas, gente de mentalidade autoritária (quase todos analfabetos democráticos), que acha que é possível renovar o sistema político abolindo o sistema político, no limite negando a própria política ao não ver a necessidade de uma transição democrática. São aqueles que dizem que é “tudo farinha do mesmo saco”, que não há outro jeito senão explodir tudo de uma vez, já que todos os políticos estão contaminados.

Para ser um jacobino (na situação atual do Brasil) basta seguir algumas orientações, como as que vão resumidas abaixo.

I – ORIENTAÇÃO GERAL

1 – Aposte na terra arrasada como preparação apocalíptica para uma renovação cósmica capaz de parir novo céu e nova terra. Para tanto, é preciso jogar tudo no chão – não importa o quê ou quem – guiado pela esperança de que pior do que está não pode ficar e animado pela fé de que, depois que tudo queimar no mármore do inferno, uma Fênix renascerá das cinzas.

II – ORIENTAÇÕES PRÁTICAS

2 – É preciso limpar a política. A tarefa da purificação (prévia a qualquer regeneração) exige desapego de qualquer diferenciação. Portanto, em princípio, não defenda ninguém (a não ser os “agentes kármicos” que estão operando a tarefa da purificação). Todos são culpados até prova em contrário. Repita sempre: todos são farinha do mesmo saco.

3 – Como não há condições de limpar a política pela política, a purificação virá pela ação extra-política dos baluartes estatais da justiça (o judiciário não-corrupto) apoiado pela pressão da opinião pública. Portanto, a principal tarefa é açular a indignação das pessoas, alimentando-as continuamente com notícias sobre escândalos, divulgando as tramoias dos políticos e defendendo sempre os agentes da limpeza (mesmo quando eles violam as leis, pois o objetivo maior justifica os meios empregados; assim, se Janot e Fachin montaram uma armadilha ilegal e premiaram escandalosamente os Friboys, isso é apenas um detalhe: o importante é que sua ação concorre para a limpeza geral, sem a qual não poderá haver regeneração).

4 – Todos os que roubam querem, no fundo, apenas se locupletar e se dar bem na vida. Não há projeto estratégico de poder. Se alguém diz (ou não diz, mas descobre-se) que tem um projeto qualquer contra a democracia (por exemplo, bolivarianizar o nosso regime político), isso é mentira. É apenas disfarce para roubar. Se alguns constituem uma ameaça mais letal à democracia do que outros, isso pouco importa. Democracia é apenas uma palavra bonita (ou uma utopia). O que importa é limpar a política dos corruptos.

5 – Tudo é Orcrim (que é uma categoria de pensamento, não a designação de uma organização concreta). Aquela organização política criminosa concreta, dirigida por Lula e Dirceu, é igual as que foram montadas por Cabral e Cunha, pelos irmãos Friboi, pela Odebrecht e outras empreiteiras. Temer (como representante da velha política corrupta ou como administrador de uma base congressual fisiológica) só pode ser parte da Orcrim (e como ele é presidente, deve ser também o chefe de alguma coisa). Portanto, o Fora Temer é a orientação correta: o anti-temerismo deve ser a tradução atual do anti-petismo (não importando para nada se isso fortalece o Volta Lula). Pois todos devem igualmente arder no mármore do inferno.

6 – Deve ser afastada qualquer preocupação com o fato de a política de terra arrasada ensejar a ascensão de um salvador da pátria, um autocrata oportunista (como Bolsonaro). A democracia não pode ser critério para nada neste momento e sim a limpeza. Depois veremos o que acontece, mas depois é depois (e não é de nossa responsabilidade).

7 – Todos os crimes são iguais e todos os criminosos devem ser derrubados. Berlusconi (que era ladrão) é o mesmo que Mussolini (o ditador fascista). Temer é igual a Lula. Cunha é o mesmo que Dirceu. É preciso repetir isso à exaustão. Só assim podemos deixar claro que não temos corruptos de estimação, não tomamos partido, não temos lado (a não ser o lado dos agentes da purificação).

8 – Atire primeiro. Só depois pergunte: “Quem vem lá?” Divulgue qualquer suspeita como se fosse verdade. Se não for, não se desculpe: siga em frente. E continue acusando outros, e depois outros e mais outros: sem parar. Como tudo apodreceu mesmo, não importa para nada os critérios de justiça ou injustiça. O importante neste momento é a destruição.


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