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Sobre a insuficiência de se dizer conservador

“Só ainda não posso ser conservador porque não tenho mais o que conservar. O gerente do banco levou tudo o que tinha de valor aqui na minha residência…”

Agamenon Mendes Pedreira, um nazista de esquerda.

O humorista Agamenon, em artigo em O Antagonista, escreveu:

“Na verdade, os brasileiros são um povo de natureza muito conservadora. Fazem questão de conservar os seus privilégios, as suas verbas superfaturadas, as suas “boquinhas” e o seu direito de receber sem ter que trabalhar como qualquer um. Eu também quero”.

Deixando de lado a gozação (com razão), convém dizer mais alguma coisa sobre essa mania de algumas pessoas de se dizerem conservadoras. Já escrevi sobre isso um artigo mais alentado: Conservadores x inovadores não é a mesma coisa que reacionários x revolucionários.

A primeira delas é quase um epigrama:

A insuficiência de se dizer conservador é nunca dizer exatamente o que se quer conservar.

Em certo sentido eu também posso afirmar que sou conservador: quero conservar a democracia, os patamares de liberdade já alcançados, os direitos humanos conquistados e as experiências de redes mais distribuídas do que centralizadas que foram ensaiadas. Agora, se alguém se diz conservador porque quer conservar modos autocráticos de regulação de conflitos baseados na guerra (ou na política adversarial), teme que a ampliação da esfera das liberdades coloque em risco suas noções de ordem, hierarquia, disciplina, obediência, comando-e-controle e fidelidade – todas impostas top down, então não sou conservador nesse sentido.

O problema é que, em boa parte, os que se dizem conservadores querem conservar o que prorroga o velho passado e não o que abre novos caminhos para o futuro. Querem conservar a família monogâmica (aquela patriarcal, do pai-patrão), a religião (como proteção contra a experiência de deus), a escola (como burocracia do ensinamento e não como ambiente de livre-aprendizagem), a empresa-monárquica (que impede ou dificulta o empreendedorismo e a inovação) e uma forma de Estado (baseada numa metafísica da guerra como instituição permanente).

A segunda coisa a dizer é uma retificação. As hordas bolsonaristas – Bolsonaro, sua família, seu guru Olavo e seus sequazes – que infestam as mídias sociais e certos departamentos do governo (incluindo a presidência da República), não são conservadoras e sim reacionárias. É diferente. Elas não querem conservar nada do que existe. Elas são revolucionários para trás. Elas querem restaurar o que não existe mais, voltar mil, dois mil anos se for preciso (como afirmou Ernesto Araújo) para resgatar o gene da civilização ocidental que foi alterado pela engenharia cultural promovida pelos inimigos de deus, da religião judaico-cristã (que não existe e nunca existiu), da nação e da pátria e da família: os comunistas sem-deus, os capitalistas sem-pátria aliados aos comunistas sem-deus, os globalistas.

Isso é um delírio. Mas é um delírio muito perigoso. Vários conservadores, que se deixaram contaminar pela narrativa olavista, viraram reacionários.

A terceira coisa que deve ser dita é que não faz nenhum sentido a afirmação, repetida por 11 em cada 10 apoiadores de Bolsonaro nos dias que correm, de que “sou liberal em economia e conservador nos costumes”. Ora… 9 em cada 10 idiotas que repetem esse mantra não são liberais nem conservadores e sim apenas reacionários.

À democracia não importa que você seja liberal em economia ou conservador nos costumes. Pode ser ou pode não ser. O que interessa é se você é liberal em política.

Dizer-se liberal em economia (adepto de alguma doutrina economicista do liberalismo-econômico) não é um passaporte válido para a democracia. Já se sabe que liberais em economia podem ser i-liberais em política. Que o digam os Chicago Boys de Pinochet. Não raro um liberal-econômico vive doidinho para encontrar um ditador que resolva nomeá-lo czar da economia de um Findomundistão qualquer – para que ele, então, possa provar que suas teses estão certas (em geral, contra as teses de seus pares: é conhecida a anedota que diz que se você juntar 10 economistas é provável que tenha 11 respostas diferentes para o mesmo problema macro-econômico).

E os liberais-econômicos mais radicais ainda fazem política disfarçada. Às vezes querem empreender também algum tipo de reengenharia social, como Filippo Tommaso Marinetti, que não era economista, mas parecia, e acabou encontrando seu Duce na Itália fascista.

Dizer-se conservador nos costumes, não afeta em nada a democracia, que aceita quem diz isso como um player válido. A menos que queira transformar o que deveria ser valor privado em norma pública. Qualquer um pode ser conservador o quanto quiser no seu comportamento privado. O que não pode é impor seus padrões de comportamento aos demais a partir da coerção, sobretudo usando o poder de Estado. Se quiser fazer isso, virará um reacionário, quer dizer, um retrogradador.


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The winter is coming? No. The winter is here.

Urgente! A sociedade civil brasileira precisa defender a democracia