Diogo Reinaldo 2

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Sobre a polêmica Diogo Mainardi x Reinaldo Azevedo

Começo pela conclusão. Diogo, mesmo não entendendo muito de política, objetivamente, está prestando um serviço melhor à democracia do que o pretensioso analista Reinaldo, nesta sua última e triste fase em que resolveu empreender uma cruzada contra a operação Lava Jato (notadamente, por algum motivo sobre o qual não ouso especular, após a prisão de Marcelo Odebrecht).

Diogo quer que tudo caia no chão para ver se, a partir daí, surge alguma coisa nova. Não é assim que funcionam as democracias realmente existentes, mesmo as mais flaweds (como a nossa): sem transição (um período em que o velho e o novo convivem) não há saída democrática para a nossa (ou para outra qualquer) situação.

Ele, Diogo, está errado, mas não nos seus propósitos e sim porque não tem muita intimidade com o tema, embora seja um cara muito inteligente e culto. Reinaldo, por sua vez, quer salvar a parte do velho establishment que acha que tem salvação, talvez porque imagine que não se pode destruir as lideranças mais razoáveis que o país já produziu (basicamente as do PSDB, não adianta ele tentar negar) já que, sem elas, não haverá alguém capaz de compor um centro racional de governabilidade (sim, aqui há superavit de Hobbes e deficit de Spinoza: Reinaldo, no fundo, nunca entendeu muito bem a democracia) e correríamos o risco ou de cair nas mãos de aventureiros (como Bolsonaro ou Ciro) ou da volta da esquerda autocrática ao poder (com Lula ou Marina).

Em princípio as duas posições são legítimas. O que não é legítimo é o “método” reinaldiano de tentar fazer a nossa cabeça criando espantalhos, do tipo: todo mundo que não concorda com a sua posição é de extrema-direita (que ele chama de direita xucra) ou de extrema-esquerda (o que significa que ele acha que existe uma esquerda, não-extrema, aproveitável ainda para montar um novo centro de governabilidade).

Agrava a situação de Reinaldo um certo egotismo e uma vaidade exacerbada, o que não é justificável pela sua trajetória. Ele é um analista inteligente, sem dúvida, e labutou bastante para fazer seu nome na praça desvendando corretamente o caráter autocrático do projeto petista, mas não foi o único e nem foi o primeiro. Sua formação democrática é fraca (reduz a democracia ao Estado de direito – o que acaba levando-o a um obtuso legalismo) e sua experiência como dirigente de qualquer coisa praticamente não existe. Nunca organizou ou dirigiu nada: é um interpretador da política vista de fora. Diogo também não tem tais atributos, mas pelo menos não se gaba deles.

Não vejo nada demais no fato de O Antagonista criticar as posições mais recentes de Reinaldo (depois que ele virou uma espécie de assessor de imprensa de Gilmar Mendes – outra decepção nacional). Eu – que nada tenho a ver com direita ou esquerda – também as critico com frequência, não para brigar com o reizinho, mas porque acho que ele está prestando (assim como Gilmar) um imenso desserviço à democracia. Critico-o, basicamente, pela desonestidade intelectual e já repeti que o legalismo reinaldiano é apenas um modo safado de dizer que “a minha interpretação da lei é a correta e a sua é a falsa” (e “a sua”, aqui, se refere a de qualquer um que não concorde com ele, seja Diogo, Augusto, Fachin ou Celso de Mello).

Sim, acho que isso é desonesto, assim como dizer que Moro é candidato, é desonesto. Assim como insinuar que Carmen Lúcia é candidata, é desonesto. Assim como dizer que Diogo é de extrema-direita (ou da direita-xucra) é desonesto (porque ele, Diogo, realmente não é – não é um bolsonarista, um olavista, um militarista intervencionista, nada disso).

Esses truques são comuns e muito manjados na luta interna de qualquer organização autocrática: você empurra seu adversário para uma posição extrema para isolá-lo e ganhar ou pelo menos neutralizar seus aliados. Nós, que dirigimos organizações em que isso acontece, sabemos perfeitamente como funciona e quais são as consequências nefastas de aplicar tais métodos, mas ele – Reinaldo, sem experiência própria e prática dessas coisas – não: está apenas sendo insidioso e querendo “dar uma de ministro”.

O pior é que Reinaldo sabe que nada disso – das acusações que faz aos que discordam da sua visão – é verdade: e continua repetindo mesmo assim, o que é lamentável. Por isso escrevi outro dia que podemos não descobrir razões propriamente políticas para explicar a mudança na linha editorial da Veja, posto que essa explicação pode ter simples natureza econômica, mas não se pode explicar a mudança de Reinaldo sem convocar razões morais.

Neste ponto, convenhamos, Diogo é bem diferente de Reinaldo: ele pode não entender muito de política, mas, pelo menos, não é desonesto.

No recente episódio em que Diogo, destemperou-se e mandou Reinaldo dar a bunda, não vi nada demais. Não gosto muito desses xingamentos envolvendo partes anatômicas masculinas (a praia de conspiracionistas autoritários, como o filósofo de baixo calão Olavo de Carvalho, que não consegue participar de um debate de cinco minutos sem falar cem vezes de pica, cu e bunda), mas entendi a reação de Diogo como uma resposta a uma provocação do Reinaldo (que perguntava ao oráculo de Veneza o dia da prisão de Lula), não como a construção de uma teoria para desqualificá-lo.

Diogo Reinaldo

Já o Reinaldo está neste momento urdindo uma teoria solerte para tentar explicar o comportamento de Diogo a partir de seu suposto mercadismo (ou “dinheirismo”). Como o site O Antagonista tem um sócio empresarial, a alegação adquire ares de verossimilhança. Mas qual é mesmo o problema? A Veja, por acaso, não é também uma empresa e não nos entope de propaganda paga? A revista em que Reinaldo escreve seria imune à influência de seus financiadores (inclusive alguns grandes bancos)?

Reinaldo quer que acreditemos que Diogo faz tudo isso só para ganhar dinheiro, caçar cliques e, para tanto, o está detratando para ter seus quinze minutos de fama. Ora, isso é absolutamente falso, como diria o próprio Reinaldo, tão falso como uma nota de 3 reais.

Por isso concluo como comecei. Diogo Mainardi, mesmo não entendendo muito de política, objetivamente, está prestando um serviço melhor à democracia do que o pretensioso analista Reinaldo Azevedo, nesta sua última e triste fase em que resolveu empreender uma cruzada contra a operação Lava Jato.

P. S. Troquei a foto original de capa. Era uma bunda masculina. Mas as pessoas parecem ter problemas com essas coisas. O que deve revelar alguma coisa…


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