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Sobre fugir do conflito

Este texto foi publicado originalmente no Facebook em 15 de setembro de 2014, mas continua atual.

SOBRE FUGIR DO CONFLITO

Tenho compartilhado, com várias pessoas com as quais convivo em algumas atividades interativas, duas observações.

A primeira é que as pessoas que estão buscando e ensaiando novos processos de vida humana, em iniciativas de livre aprendizagem, de cocriação ou de ocupação de espaços públicos para se comprazer na convivência social, estão mais querendo experimentar do que estruturar discursos e referenciá-los em narrativas já existentes. Elas não estão teorizando. Elas não estão usando teorias já existentes para orientar e justificar as suas práticas. Simplesmente estão fazendo o que acham bacana. Não estão nem mesmo querendo se apresentar como grandes adeptas de causas, como acontecia há não muito tempo.

A segunda observação é que essas pessoas não têm a vibe militante. Não se parecem com gente que está guerreando, se preparando para se defender de inimigos ou para enfrentá-los e derrotá-los. Sobretudo não estão selecionando pessoas. Das novas pessoas que chegam não cobram nenhuma postura, nenhum alinhamento, nem procuram saber o que pensam em termos políticos, filosóficos ou religiosos. Não estão também querendo arrebanhar mais pessoas para algum propósito. E nem ficam aborrecidas ou desapontados quando pessoas tidas por importantes não aparecem. Os ambientes que configuram com sua convivência estão funcionando como naquela primeira proposição do Open Space: “a pessoa que vem é a pessoa certa”. Ora, isso não é nada menos do que fantástico: é o outro-imprevisível!

A impressão que se tem é que elas, se pudessem, criariam um novo mundo para elas, sem exigir que os outros participem desses mundos. Quando outras pessoas aparecem, então elas interagem (como se tivessem estado sempre ali), mas não se tornam parte, não conformam um corpo definido. E o mais bacana é que elas sentem que podem mesmo fazer isso. Agora – ao que parece – já é possível a emergência e a convivência ou a coexistência de múltiplos mundos altamente conectados.

No entanto tenho notado também uma certa tendência dessas pessoas a fugir do conflito quando por algum motivo ele se instala, sobretudo quando é tematizado segundo as velhas classificações, do tipo esquerda x direita, seguidor de tal filosofia x seguidor de outra filosofia ou ateu x religioso.

Talvez haja uma razão mais profunda, que não consigamos ainda captar, para explicar tal comportamento. E ele parece superar antigos comportamentos sectários de que temos amargas lembranças.

A seu favor podemos dizer que, nessas novas experiências, elas não estão mais lutando contra pessoas. Estão apenas desobedecendo. Sem nunca explicar – como vou fazer agora – por que se comportam assim, essas pessoas estão resistindo à determinadas configurações que reproduzem a cultura patriarcal, que induzem à ereção de estruturas hierárquicas e que condicionam a adoção de modos autocráticos de regulação de conflitos.

Sim, elas estão experimentando redes distribuídas e democracia por meio da desobediência prática (não teórica). Não fazer o que todo mundo faz, não ter um objetivo fixo e um planejamento para atingi-lo, talvez seja a forma mais eloquente de desobediência. Daí a recusa à luta.

Quem luta contra um inimigo é um obediente. Sempre obedece a alguém, a algum grupo definido por fronteiras de identidade: nós x outros. Mas é a luta contra inimigos que gera as configurações que programam alguém para obedecer-e-mandar (sim, é a mesma coisa), quer dizer, para erigir hierarquias. E na luta – que é uma forma de guerra, mesmo que não seja a guerra quente, travada com armas em campos de batalha – não se pode experimentar a democracia na vida cotidiana. Porque as exigências do combate só são compatíveis com dinâmicas autocráticas.

A paz como caminho (não-caminho) revolucionário é não-luta. Mas é desobediência civil e política que desconstitui a guerra, quer dizer, a construção de inimigos (e a manutenção de inimigos) como pretexto para organizar cosmos sociais estruturados segundo padrões hierárquicos e regidos por modos autocráticos.

Mas recusar a luta não é recusar o conflito. O problema não é o conflito, senão o modo de resolver o conflito. Não se pode escapar do conflito, como pensavam as pessoas pias, as pessoas evoluídas, as pessoas espiritualizadas, que queriam ir para um lugar (imaginário) onde não haveria conflito, onde tudo seria harmonia e concordância. Mas uma sociedade sem conflito estaria morta, congelada. A supressão do conflito – característica das distopias (e das utopias, sim, todas as utopias são autocráticas) – só pode acontecer em rebanhos, em sociedades obedientes, em mundos onde não há lugar para a sujeira e a imperfeição, para os desvios dos caminhos já pavimentados, para o erro no cálculo, para a falha na armadura, para o imprevisível e, enfim, para o acaso. Mas onde não há lugar para o acaso também não há lugar para a liberdade.

As pessoas que fugiam do conflito nunca eram melhores do que as outras. Pessoas cordatas não eram necessariamente pessoas boas. Boa educação, bons modos, abstinência de crítica, medo de ser mal-interpretado, desejo de ser admirado – tudo isso foi e ainda é, em grande parte, esforço de adequação, quer dizer: obediência, não desobediência.

O problema é que essas pessoas queriam ser aceitas por alguém que (supostamente) estaria acima delas. Elas queriam corresponder ao que esperavam delas. Mamãe programou-as para isso. E então elas saíam mundo afora atrás da mamãe: procurando aprovação. Mas não havia ninguém acima delas, a menos que elas se abaixassem. Quando elas se abaixavam, entretanto, por esse simples gesto elas já deformavam o campo social, configurando um ambiente favorável à reprodução da cultura patriarcal, hierárquica e autocrática.

Ao contrário do que lhes foi ensinado nas famílias, nas escolas, nas igrejas e nas seitas religiosas e filosóficas, padrões de inadaptação não são sinais de insanidade, pelo contrário: quando alguém se adapta a um meio doente, quem está doente é quem se adaptou. Se elas queriam se polir para passar lisas pelos esgotos, sem atritos, sem rusgas, então elas estavam doentes. Continuando nesse caminho, não raro uma pessoa assim almejava viver em lugares assépticos e de repente se pegava lavando as mãos compulsivamente com medo da sujeira. Não conseguiam ver que a pureza só existia na imagem que foram socialmente (Maturana diria: antissocialmente) compelidas a criar de si mesmas para satisfazer às expectativas mórbidas da sociedade de controle. E não descobriam que a persona é coletiva (e é também uma doença).

Então, depois de ser assaltado por tudo isso, me lembrei dos velhos alquimistas quando diziam que a matéria prima para a transformação está nos lugares mais vis e desprezados. E pensei, cá por minha conta, que se alguém não está sujo o suficiente, não pode ser aproveitado pelo simbionte (quer dizer, pelo outro-imprevisível). E que quem quer ser aproveitado não pode fugir do conflito.

Publicado originalmente no Facebook em 15 de setembro de 2014


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