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Sobre o conceito de “Ativista de Direitos Humanos”

Há gravíssimas violações dos direitos humanos, no mundo e no Brasil. Mas as chamadas esquerda e direita não ajudam. Vamos ver por que.

A propósito da brutal execução da militante Marielle Franco, ex-assessora parlamentar de Marcelo Freixo, do PSOL, militante neopopulista e vereadora do Rio de Janeiro, instalou-se uma discussão sobre uma suposta perseguição do Estado brasileiro aos ativistas de direitos humanos. É claro que as milícias e a banda podre da polícia carioca atacam esses militantes que os denunciam. O que não significa que isso seja promovido pelo Estado (ou pelo atual governo), como querem fazer crer os que se colocam contra a intervenção federal na área de segurança do Rio de Janeiro.

Os direitos humanos não estão em discussão neste artigo. Têm um valor universal, tal como a democracia. Se alguém usa a democracia contra a democracia, para autocratizá-la (como reza a estratégia do neopopulismo latino-americano, quer dizer, do chavismo e dos demais bolivarianismos e do lulopetismo), coloca-se fora do campo da democracia. Igualmente, se alguém usa os direitos humanos contra os direitos humanos, contrapondo os direitos humanos de alguns (supostamente do povo) contra os direitos humanos de outros (das chamadas elites), coloca-se fora do campo dos direitos humanos. É disso que se trata aqui. Da instrumentalização dos direitos humanos pelos chamados ativistas de direitos humanos (que são, na sua esmagadora maioria, militantes de organizações de esquerda, como o PT e o PSOL).

Precisamos examinar, portanto, o que é isto – que conceito é este – que chamam de “Ativista de Direitos Humanos”? A Sininho do PSOL, que dava retaguarda para meliantes praticarem violência nas manifestações pacíficas de 2013, está incluída? Militantes das FARC estão incluídos? Black Blocs também? O pessoal do Hamas (a Irmandade Muçulmana na Palestina), que luta contra o que chamam de imperialismo de Israel na Faixa de Gaza, deve ser igualmente enquadrado na categoria? E a turma do Hezbollah?

Não gosto do termo ativista. Parece alguém que quer agir sobre mim e não comigo (se estivesse disposto a agir comigo seria um interativista, não um ativista). Ativista dá a impressão de que quem não é profissional do ramo (da militância) é passivista.

Direitos humanos foi uma área colonizada por autocratas de esquerda. Quantos ativistas de direitos humanos se conhece que denunciam os crimes políticos da ditadura cubana e os atentados às pessoas comuns e às oposições cometidos pela ditadura venezuelana? Quantos protestos foram vistos dos ativistas de direitos humanos contra os colectivos – como La Piedrita (na foto) e Tupamaros, armados pelo bolivarianismo e treinados por militares cubanos – que tocam o terror na periferia de Caracas?

E a Yoani Sánchez? Não! Essa não – gritam os ativistas de direitos humanos – ela é inimiga da revolução, do povo e do Partido Comunista de Cuba e, portanto, não pode ser uma (verdadeira) ativista dos direitos humanos. A recepção hostil à Yoani, em sua última visita ao Brasil, organizada, entre outros, por ativistas de direitos humanos, que a acusaram, com gritos e cartazes, de ser uma agente da CIA e do imperialismo norte-americano, comprova o preconceito.

Lula nomeou um militante marxista-leninista para ser ministro dos Direitos Humanos. Onde já se viu regimes marxistas-leninistas respeitando direitos humanos? Carlos Marighella também era um ativista dos direitos humanos?

Agora se lê, numa página do Facebook intitulada Fala Akari (cujo endereço é Quilombo Akari) a seguinte nota de um tal Coletivo Fala Akari – dando continuidade à onda de instrumentalização do cadáver de Marielle Franco:

COLETIVO FALA AKARI: MILITANTES EM RISCO

Alguns integrantes do Coletivo Fala Akari, na maioria mulheres negras, já recebem ameaças há anos do braço armado do estado, principalmente de policiais do 41BPM.

Já houve episódios de militantes sequestradas e também de um outro quase ser alvejado por um tiro durante operação.

Não afirmamos em momento algum que policiais do dito batalhão estejam envolvidos na execução de Marielle Franco, porém como tivemos a ajuda dela para denunciar publicamente o que esses policiais vem fazendo em Acari e com sua execução logo em seguida, nosso risco aumenta.

Com isso, alguns integrantes do Coletivo tiveram que sair da favela imediatamente para preservar suas vidas para que sigam na luta pelo povo.

Estamos recebendo muitas mensagens de apoio e solidariedade, uma delas foi essa fala que o companheiro fez na manifestação de ontem (15/03) na Cinelândia (RJ).

Quem quiser nos enviar notas de solidariedade ou links, iremos publicando!

AVANTE, COMPANHEIROS!

Em seguida vem um vídeo com um discurso inflamado de um militante de esquerda (“ativista de direitos humanos”) prometendo incendiar o Brasil. Além das óbvias ligações com o PT e o PSOL, existem grupos ainda mais macabros intervindo na atividade desses “ativistas de direitos humanos” que “lutam pelo povo” – como o insignificante partido, em formação, intitulado Unidade Popular pelo Socialismo. A estética – que, no caso, revela uma ética – é a mesma, exatamente a mesma, dos colectivos chavistas.

Tudo isso é apenas uma maneira, disfarçada, de fazer política antidemocrática, de dividir a sociedade em povo x elites para insuflar a luta de classes, inclusive livrando a cara de bandidos, encarados como rebeldes primitivos contra o sistema. Tudo em nome dos direitos humanos. A regra, para eles, é muito clara:

– Vamos denunciar a PM e as milícias por violações dos direitos humanos.

– E os narcotraficantes que tocam o terror e ditam as leis nas favelas?

– Esses não, companheiro. Esses são rebeldes primitivos: fazem parte da luta de classes do lado do povo contra as elites.

Como observou Claudio José Miranda, em comentário no Facebook, “está claro que o PSOL tem uma aliança tácita – não formal e explícita – com os narcotraficantes, ao só combaterem a polícia e os milicianos e pouparem os traficantes e criminosos em geral; ao serem contra a intervenção federal; ao defenderem penas brandas para os criminosos e ao colocarem estes como ‘vítimas da sociedade’. Em troca disso os traficantes deixam o PSOL atuar nas comunidades que eles controlam e, em época de eleição, fazem campanha para eles”.

Os velhos tucanos encaravam os petistas como uma espécie de juventude transviada, primos radicais, ou seja, no fundo, membros da mesma família de humanistas, lutadores do bem. Os petistas, por sua vez, encaram os psolistas da mesma forma. Parte da esquerda petista e psolista encara os bandidos como revolucionários com estratégia equivocada, ou seja, camaradas na luta de classes contra o sistema, rebeldes primitivos ainda não suficientemente doutrinados. Equívocos como estes nos trouxeram ao lugar onde estamos. Tucanos são lenientes e coniventes com petistas e petistas são lenientes e coniventes com psolistas e estes dois últimos são lenientes e coniventes com… bandidos.

O fato em análise neste artigo é que os tais “ativistas de direitos humanos” – em sua maioria – defendem os direitos de alguns humanos. São contra os direitos de todos os outros humanos que não rezem pela sua cartilha: ou seja, os direitos humanos, para eles, não são valores universais e sim de classe. Não são surpreendidos defendendo os direitos das mulheres nos países islâmicos. Nunca são flagrados defendendo os direitos dos oprimidos pelo crime organizado nas favelas (segundo eles, só a PM oprime). Jamais são vistos defendendo os direitos dos que consideram inimigos de classe.

Assim como aprendeu a usar a democracia contra a democracia (que é a característica central da via neopopulista), a esquerda, em geral, aprendeu a usar o biombo dos direitos humanos para fazer sua política antidemocrática. O PSOL, em particular, parece ter se especializado na instrumentalização do “potencial revolucionário” do crime (desde que seja cometido pelo povo pobre, oprimido e explorado). Para constatar isso, basta acompanhar de perto a atividade dos “advogados-militantes” desse partido nos presídios, conclamando os condenados a resistir à repressão da burguesia, das elites – sempre, é claro, em defesa dos seus direitos humanos.

A chamada direita, por sua vez, ao se colocar contra os princípios dos direitos humanos ou ao não valorizá-los, não ajuda em nada a desmascarar a instrumentalização praticada pela esquerda. Aliás, não é por acaso que parte considerável dos milicianos – que, muito provavelmente, executaram Marielle – é composta por admiradores de Bolsonaro.


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