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Sobre o reflorescimento de narrativas nacionalistas (1)

Estou lendo, um pouco tardiamente, o livro de Shlomo Sand, intitulado A Invenção da Terra de Israel: Da Terra Santa à Terra Pátria. São Paulo: Benvirá (Saraiva Educação), 2014.

O original, Matai ve-ekh humtse’ah Erets-Yisrael foi publicado em 2012 e traduzido para o inglês como The Invention of the Land of Israel: From Holy Land to Homeland. London: Verso, 2012.

Pelo que vi até agora vale a pena acompanhar a produção de Sand. Ele é o autor de outro livro: A Invenção do Povo Judeu (2008). A edição francesa tem como título: Comment le peuple juif fut inventé. Paris: Fayard, 2008. Há também uma tradução inglesa (London: Verso, 2009). E uma tradução brasileira: São Paulo: Benvirá, 2011.

Por último, uma obra mais recente: Comment j’ai cesse d’etre juif. Paris: Flammarion, 2013. Também traduzido no Brasil: Como deixei de ser judeu. São Paulo: Benvirá, 2015.

Por que tudo isso? Bem, são leituras importantes para entender esse repentino reflorescimento do nacionalismo (e as narrativas bannonistas e olavianas da tal Civilização Ocidental Judaico-Cristã). Tudo pura invenção, é claro. Mas é preciso entender a mecânica da invenção.

Este é o primeiro artigo da série. Reproduzimos abaixo o primeiro capítulo de A Invenção da Terra de Israel, que trata da questão da criação de pátrias.

Faria apenas uma observação, por enquanto. Penso que Sand não tratou bem da questão da polis ateniense, que não era a cidade-Estado e sim a koinonia (comunidade) política. A democracia que vigorou nessa comunidade nos séculos 5 e 4 a. C. gerou de fato um sentimento de pertencimento e um orgulho dos seus habitantes, se se pode dizer assim, por serem um povo que, como disse Ésquilo em Os Persas, não era súdito nem escravo de ninguém. Mas a palavra patriota foi inventada (ou usada) contra esse sentimento (e não a favor), por membros do partido oligárquico que lutavam contra a democracia e, por isso, se proclamavam patriotas: porque queriam “voltar ao regime de nossos pais”, ou seja, à autocracia anterior às inovações de Clístenes, Efialtes e Péricles. A recuperação da narrativa de Platão – e da “pátria platônica” – não é um bom caminho neste caso, visto que o filósofo era um inimigo figadal da democracia e não atribuía à cidade o caráter comunitário que os democratas atribuíam, preferindo encará-la como lugar onde vivia o rebanho (a ser conduzido, é claro, por um rei-filósofo, “aquele que sabe” governar).

Sobre as ideias de nação e pátria, minha visão é bastante heterodoxa e está apresentada de modo resumido no artigo O Brasil e os brasileiros. Por que não somos assim, nem assado, publicado como Capítulo 2  do livro de Cristovam Buarque, Francisco Almeida e Zander Navarro (orgs.). Brasil, brasileiros. Por que somos assim? Brasília: Verbena Editora / Fundação Astrogildo Pereira, 2017. Mas não quero, não pelo menos agora, apresentar o meu ponto de vista sobre a questão colocada no título deste primeiro artigo, qual seja: por que o nacionalismo está ressurgindo com tanta força no final desta segunda década do século 21.

Criação de pátrias: imperativo biológico ou propriedade nacional?

O que é um país? Um país é um pedaço de terra cercado de fronteiras, geralmente não naturais, por todos os lados. Os ingleses estão morrendo pela Inglaterra, os americanos estão morrendo pela América, os alemães estão morrendo pela Alemanha, os russos estão morrendo pela Rússia. Existem 50 ou 60 países lutando nesta guerra agora. Com certeza, tantos países não podem ser todos dignos de se morrer por eles.

Joseph Heller, Catch-22, 1961.

As “fronteiras externas” do Estado têm que se tornar “fronteiras internas” ou – o que dá na mesma – fronteiras externas têm que ser constantemente imaginadas como uma projeção e proteção de uma personalidade coletiva interna, que cada um de nós carrega dentro de si e nos permite habitar o espaço do país como um lugar onde sempre estivemos – e sempre estaremos – em casa.

Étienne Balibar, “La Forme Nation: Histoire et Ideologie”, 1968.

A discussão teórica sobre nações e nacionalismo conduzida no final do século XX e começo do século XXI dedicou atenção apenas periférica à construção das terras pátrias modernas. O espaço territorial, o hardware no qual uma nação exerce sua soberania não recebeu a mesma consideração acadêmica que o software – as relações entre cultura e soberania política, ou o papel dos mitos históricos para se esculpir a entidade nacional. Não obstante, assim como os projetos de criação de nações não podem ser executados sem um mecanismo político ou um passado histórico inventado, eles também exigem uma imaginação geofísica do território a fim de fornecer apoio e servir de foco constante da memória nostálgica.

O que é uma terra pátria? É o lugar pelo qual Horácio certa vez disse que “é doce e adequado” morrer? Essa famosa frase tem sido citada por muitos devotos do nacionalismo ao longo dos últimos dois séculos (1) embora com um significado diferente daquele pretendido pelo eminente poeta romano do século I a.C.

Como muitos termos que usamos hoje derivam-se de idiomas antigos, é difícil distinguir a substância mental do passado das sensibilidades do presente. Toda conceitualização histórica empreendida sem esforço historiográfico meticuloso apresenta um potencial para o anacronismo. O conceito de “pátria” é um desses casos: embora o conceito exista em muitas outras línguas, nem sempre contém a mesma bagagem moral, conforme notamos.

Nos dialetos gregos mais antigos, encontramos o termo patria (πατρίδα) e, um pouco mais tarde, patris (πατρίς), que chegou ao latim antigo como patria. Derivado do substantivo “pai” (pater), o termo deixou sua marca em uma série de línguas europeias modernas, como no italiano, espanhol e português patria, no francês patrie, e encarnações em outras línguas, todas elas derivadas do antigo idioma dos romanos. O sentido do termo em latim deu origem ao inglês fatherland, ao alemão Vaterland e ao holandês Vaderland. Entretanto, alguns sinônimos baseiam-se no conceito de mãe, como o inglês motherland, ou no conceito de lar, como o inglês homeland, o alemão Heimat e o iídiche Heimland (דנלמייה). Em árabe, por outro lado, o termo watan (ﻧﻄﻮ) está etimologicamente relacionado ao conceito de propriedade ou herança.

Os estudiosos sionistas que conceberam a língua hebraica moderna, cuja língua materna era predominantemente o russo (e/ou o iídiche), adotaram o termo moledet (מדלות) da Bíblia, aparentemente seguindo o exemplo do russo rodina (Родина), que significa algo como local de nascimento ou de origem familiar. Rodina é um tanto semelhante ao alemão Heimat, e seus ecos de anseio romântico (e talvez sexual) parecem ter sido coerentes com a conexão sionista com a mitológica terra pátria judaica (2).

Em todo caso, o conceito de pátria, que chegou ao limiar da era moderna vindo do antigo Mediterrâneo através da Europa medieval, está associado a vários significados que, em geral, não correspondem ao modo como é entendido desde o surgimento do nacionalismo. Mas, antes de mergulhar no cerne da questão, devemos primeiro reconhecer e nos livrar de alguns preconceitos amplamente nutridos no que tange ao relacionamento entre os humanos e os espaços territoriais que habitam.

A pátria: um espaço vital natural?

Em 1966, o antropólogo Robert Ardrey lançou uma pequena bomba sociobiológica que na época causou reverberações surpreendentemente potentes entre um grupo relativamente amplo de leitores. Seu livro The territorial imperative: a personal inquiry into the animal origins of property and nations [O imperativo territorial: uma investigação pessoal sobre as origens animais da propriedade e das nações] (3) teve por objetivo desafiar o modo como pensamos sobre território, fronteiras e espaço vital. Para qualquer um que até então tivesse acreditado que defender uma casa, uma aldeia ou uma pátria fosse produto de interesses conscientes e de desenvolvimento cultural histórico, Ardrey buscou provar que espaço definido e consciência de fronteiras estão profundamente arraigados na biologia e na evolução. Ele sustentou que os humanos têm um impulso instintivo para se apropriar de territórios e defendê-los usando todos os meios necessários, e que esse impulso hereditário dita a maneira pela qual todas as criaturas vivas comportam-se sob diferentes condições.

Após extensas observações de uma variedade de animais, Ardrey chegou à conclusão de que, mesmo que nem todas as espécies sejam territoriais, muitas são. Entre animais de espécies diferentes, o territorialismo é um instinto congênito desenvolvido por meio de mutação e seleção natural. Uma meticulosa pesquisa empírica mostrou que animais territoriais lançam ataques ferozes contra invasores de seu espaço vital, particularmente os da mesma espécie. Conflitos entre machos de uma determinada espécie, que os estudiosos antes viam como reflexo da competição pelas fêmeas, na verdade são disputas brutais pela propriedade. Muito mais surpreendente foi a descoberta de Ardrey de que o controle de território infunde em seus proprietários energias que os forasteiros que tentam penetrá-lo não possuem. Existe entre a maioria das espécies “algum reconhecimento universal de direitos territoriais” que condiciona e orienta todos os sistemas de relações de poder dentro delas.

Por que os animais precisam de território?, pergunta Ardrey. Os dois motivos mais importantes dentre muitos são: (1) animais selecionam áreas específicas onde podem sustentar sua existência material por meio de acesso a comida e água e (2) o território serve como um amortecedor defensivo e proteção contra muitos inimigos predadores. Essas necessidades espaciais primitivas têm raízes no longo processo de desenvolvimento evolutivo e se tornaram parte da herança genética dos “territorialistas”. Essa herança natural produz uma percepção de fronteiras e proporciona a base para rebanhos e cardumes. A necessidade dos animais de defender seu espaço vital impulsiona a socialização coletiva, e o grupo unificado resultante entra em conflito com outros grupos da mesma espécie. Caso Ardrey tivesse se limitado a um relato do comportamento animal, seu estudo teria atraído muito menos atenção e permanecido tema de debate entre especialistas em etologia, a despeito de sua considerável habilidade retórica e linguagem pitoresca (4). Entretanto, suas metas teóricas e conclusões foram muito mais ambiciosas. Indo além das premissas empíricas dentro do campo da zoologia, ele também buscou entender as “regras do jogo” do comportamento humano conforme são transmitidas através das gerações. Expor a dimensão territorial do mundo vivo, acreditava ele, nos permitiria entender melhor as nações e os conflitos entre elas ao longo da história. Com base nisso,
ele chegou à seguinte conclusão decisiva:

Se defendemos o direito à nossa terra ou a soberania de nosso país, fazemos isso por motivos não diferentes, não menos inatos, não menos inextirpáveis que os animais inferiores. O cachorro que late para você por trás da cerca de seu dono age por um motivo indistinguível daquele que levou o dono a construir a cerca (5).

As aspirações territoriais dos seres humanos, então, são manifestações de um antigo imperativo biológico que molda os aspectos mais básicos do comportamento humano. Todavia, Ardrey vai ainda mais longe, sustentando “que o vínculo entre o homem e o chão que ele pisa deve ser mais poderoso que o vínculo dele com a mulher com quem ele dorme”, asserção que ele respalda com a pergunta retórica: “Em sua vida, você ouviu falar de quantos homens que morreram pelo país deles? E de quantos que morreram por uma mulher?” (6).

Essa declaração final não deixa dúvidas sobre a identidade geracional do autor. Como norte- americano nascido em 1908 e, portanto, criança durante a Primeira Guerra Mundial e depois dela, Ardrey estava muitíssimo ciente das baixas de guerra. Como adulto, conheceu muitos membros da geração da Segunda Guerra Mundial e testemunhou as guerras da Coreia e do Vietnã. Escrito no começo da Guerra do Vietnã, o livro dele incorpora aspectos significativos da situação internacional dos anos 1960. O processo de descolonização iniciado na esteira da Segunda Guerra Mundial mais do que duplicou o número de “territórios nacionais” existentes até então. Embora à Primeira Guerra Mundial se sucedesse o estabelecimento de uma onda de novas nações, o processo chegou ao ápice com o surgimento dos Estados do chamado Terceiro Mundo. Além disso, as guerras de libertação nacional travadas em locais como Índia, China, Argélia e Quênia pintaram um quadro de luta generalizada tendo por objetivo a aquisição de territórios nacionais independentes e definidos. No fim do combate, a disseminação do sentimento nacionalista fora das fronteiras do Ocidente dotou o planeta de uma ampla diversidade e o decorou com quase duzentas coloridas bandeiras nacionais.

A imaginação científica da sociobiologia tende a virar a história do avesso. Como o restante das ciências sociais, em última análise, a sociobiologia adapta sua terminologia para adequar-se a subprodutos conceituais de processos sociais e políticos testemunhados por seus profissionais no decorrer de suas vidas. Entretanto, os sociobiologistas, muitas vezes, ignoram que os eventos mais recentes da história em geral fornecem uma melhor explicação para eventos anteriores do que o contrário. Tomando a maior parte de seus termos da experiência social, esses pesquisadores da natureza então adaptam tais termos à tarefa de entender melhor o ambiente vital que estão estudando. A seguir, direcionam o foco para a sociedade humana e tentam entendê-la melhor usando terminologia e imagens do mundo natural originalmente emprestadas da conceitualização que acompanha e é produzida pelos processos históricos. Considere, por exemplo, como as guerras nacionalistas por território travadas na década de 1940 e os árduos combates por pátrias nacionais ocorridos entre o final dos anos 1940 e 1960 foram considerados catalisadores de processos evolutivos geneticamente arraigados na maioria das criaturas vivas.

A despeito das diferenças significativas entre os dois, o determinismo biológico da sociobiologia ostenta certa semelhança à igualmente famosa abordagem do determinismo geográfico desenvolvida pelo geógrafo e etnógrafo alemão Friedrich Ratzel e, mais tarde, por Karl Haushofer e outros. Embora Ratzel não tenha cunhado o termo “geopolítica”, ainda assim é considerado um de seus fundadores. Foi também um dos primeiros a incorporar com firmeza uma sofisticada consideração das condições biológicas à geografia política. Ainda que avesso a teorias racistas primárias, acreditava que povos inferiores eram obrigados a sustentar nações civilizadas adiantadas e que por meio de tal contato eles também atingiriam maturidade cultural e espiritual.

Como ex-estudante de zoologia que se tornou um defensor convicto das teorias darwinistas, Ratzel estava convencido de que uma nação era um corpo orgânico cujo desenvolvimento exigia a mudança constante de suas fronteiras territoriais. Assim como a pele de todas as criaturas se expande à medida que elas crescem, as pátrias também se expandiriam e deveriam necessariamente alargar suas fronteiras (embora também pudessem se contrair e até deixar de existir). “Uma nação não se mantém imóvel por gerações no mesmo pedaço de terra”, declarou Ratzel. “Ela deve se expandir, pois está crescendo” (7). Embora acreditasse que a expansão fosse contingente à atividade cultural, e não necessariamente agressiva, Ratzel foi o primeiro a cunhar a expressão “espaço vital” (lebensraum).

Karl Haushofer deu um passo adiante ao desenvolver uma teoria de espaço vital nacional; não por coincidência, seu campo de pesquisa, a geopolítica, tornou-se popular na frustrada Alemanha do período entre as duas guerras mundiais. Essa profissão acadêmica, que teve muitos proponentes na Grã-Bretanha, Estados Unidos e antes ainda na Escandinávia, buscava explicar as relações internacionais de poder com base nos padrões dos processos naturais. A sede de espaço veio a desempenhar um papel central no aparato teórico que tinha por objetivo fornecer uma explicação geral para o agravamento das tensões entre as nações-Estados no século XX.

A lógica geopolítica sustentava que cada nação, em meio à consolidação e crescimento demográficos, necessitava de espaço vital – ou seja, a expansão da terra pátria original. E, como a Alemanha possuía uma área territorial per capita menor que os países vizinhos, tinha o direito nacional e histórico de se expandir além de suas fronteiras. A expansão supostamente ocorreria em direção à regiões economicamente mais fracas que, quer no presente ou no passado, houvessem sido o lar de uma população “étnica” germânica (8).

A entrada tardia da Alemanha na corrida colonial iniciada no final do século XIX também ofereceu um ambiente apropriado para o florescimento das populares teorias de “espaço vital”. Os alemães sentiam-se frustrados pela divisão dos espólios territoriais das superpotências imperialistas e mais ainda pelos termos do acordo de paz que a nação fora forçada a aceitar no término da Primeira Guerra Mundial. Nesse contexto, de acordo com as teses mencionadas, a Alemanha tinha que se fortalecer territorialmente, conforme a lei natural que controlava as relações entre as nações ao longo da história. De início, geógrafos não alemães ficaram entusiasmados diante dessa orientação teórica.

Mas, quando a lei natural baseia-se inteiramente em origem étnica e terra, surge aí uma vinculação extremamente volátil entre geopolítica e etnocentrismo. Como resultado, a situação na Alemanha logo explodiu. Haushofer e seus colegas não influenciaram Hitler e seu regime tanto quanto efetivamente serviram a eles, ainda que de forma indireta, fornecendo ao Führer legitimidade ideológica para seu desejo insaciável de conquista. Após a derrota militar dos nazistas, suas teorias foram “cientificamente” erradicadas (9). As populares teorias de Ardrey também foram esquecidas rapidamente, e, embora as explicações sociobiológicas periodicamente recebessem maior atenção, sua aplicação à evolução das pátrias continuou a se desvanecer. A despeito do apelo da análise de Ardrey, a etologia no fim afastou-se do determinismo estrito que caracterizava a abordagem dele e de alguns de seus colegas quanto ao comportamento territorial (10).

Primeiro, ficou evidente que os primatas desenvolvidos mais próximos dos seres humanos – chimpanzés, gorilas e alguns babuínos – não são “territorialistas” de modo algum, e que o comportamento dos animais em relação a seu ambiente é muito mais variado do que o relato de Ardrey sugeria. Mesmo os pássaros, indiscutivelmente o tipo mais territorial de animal, exibem comportamentos que dependem muito mais das modificações no ambiente ao seu redor do que de impulsos hereditários. Experimentos envolvendo alterações nas condições de vida de animais provaram que o comportamento agressivo pode assumir novas manifestações no rastro de mudanças geobiológicas (11).

Antropólogos com conhecimento histórico mais amplo jamais devem ignorar o fato de que a espécie humana, que pelo que sabemos originou-se no continente africano, floresceu e prosperou devido exatamente a não ter se agarrado ao território familiar, mas migrado e avançado para conquistar o mundo com suas pernas leves e pés ligeiros. Com o passar do tempo, o planeta veio a ser cada vez mais povoado por tribos migrantes de humanos caçadores e coletores que se moviam para a frente sem cessar em busca de novos campos de sustento e praias com pesca mais abundante. Apenas quando a natureza provia suas necessidades básicas os humanos paravam em uma determinada área e a transformavam, em certo grau, em seu lar.

O que mais tarde vinculou os humanos à terra de forma estável e permanente não foi uma predisposição biológica para adquirir território permanente, mas o início do cultivo agrícola. A transição do nomadismo para o sedentarismo ocorreu primeiro no solo aluvial deixado pelos rios, que melhorava a terra para agricultura sem o complexo conhecimento humano exigido para se fazer isso. De forma gradual e crescente, o estilo de vida sedentário tornou-se familiar. Foi somente o cultivo da terra que proporcionou a base para o desenvolvimento de civilizações territoriais, lideradas por uma série de sociedades que, com o tempo, emergiram como grandes impérios.

Contudo, os primeiros reinos desse tipo – tais como Mesopotâmia, Egito e China – não desenvolveram uma consciência territorial coletiva compartilhada por todos aqueles que trabalhavam na terra. As fronteiras desses impérios imensos não puderam ser infundidas na consciência popular como limites delineadores do espaço vital de agricultores ou escravos. Em todas as civilizações agrárias, podemos supor que a terra fosse importante para os produtores de alimento. Podemos supor também que tais indivíduos tivessem um apego psicológico à terra que cultivavam. Entretanto, é duvidoso que possuíssem qualquer sentimento de conexão com territórios mais amplos do reino.

Nas civilizações antigas tradicionais, tanto nômades quanto agrícolas, a terra às vezes era concebida como uma deidade feminina responsável pelo nascimento e criação de tudo que vivia sobre ela (12). Tribos ou aldeias de diferentes continentes julgavam sagrados os trechos da terra que habitavam, mas essa atribuição de status sagrado não apresentava semelhança com o patriotismo moderno. A terra quase sempre era considerada propriedade dos deuses, não dos seres humanos. Em muitos casos, os humanos antigos viam-se como trabalhadores pagos ou arrendatários que usavam a terra de forma temporária e de modo algum como seus proprietários. Por meio de seus agentes religiosos, os deuses (ou Deus, com o surgimento do monoteísmo) concediam a terra a seus seguidores e, quando havia lapsos na obediência ritual, retomavam-na à sua vontade.

Local de nascimento ou comunidade civil?

Se Ardrey rastreou a origem do territorialismo nacional no mundo vivo da natureza, historiadores ligaram o nascimento da “pátria” que conhecemos hoje ao surgimento do termo em textos antigos. Entre os estudiosos do passado, tem sido uma prática generalizada escrever sobre as nações como se elas existissem desde o começo da civilização. De fato, não apenas muitos livros de história populares, mas também livros acadêmicos, retratam pátrias eternas, universais.
Como a matéria bruta primária do historiador, diferentemente da do antropólogo, é o texto escrito, a reconstituição do passado sempre começa e se baseia no que em geral são chamadas de fontes primárias. Claro que os historiadores têm interesse em saber quem produziu a fonte em questão, bem como as circunstâncias dessa produção, e normalmente acredita-se que um “bom” historiador deve primeiro ser um filólogo cuidadoso. Entretanto, raramente deparamos com estudiosos que nunca percam de vista o fato de que quase todas as fontes transmitidas de uma geração para outra (exceto restos materiais) foram produzidas por uma pequena classe de elites educadas que representavam de forma consistente apenas uma porcentagem minúscula de todas as sociedades pré-modernas.

Tais relatos são de extrema importância, pois, sem eles, o conhecimento histórico seria muito limitado. Todavia, qualquer suposição, decisão ou conclusão referente aos mundos do passado que não leve em consideração a subjetividade e a estreiteza da perspectiva intelectual de todo testemunho escrito – seja literário, legal ou de algum outro ramo da atividade social –, no fim das contas vale muito pouco. Os historiadores, que se presume estejam cientes das técnicas de suas reconstruções narrativas, devem reconhecer que nunca saberão os verdadeiros pensamentos e sentimentos daqueles que trabalharam a terra, da maioria silenciosa de todas as sociedades do passado que não deixaram restos escritos. Como sabemos, cada tribo, aldeia e vale tinha seu próprio dialeto. Membros de tribos nômades e agricultores ligados à terra, que possuíam meios de comunicação extremamente limitados e careciam de conhecimentos básicos de leitura e escrita, não precisaram desenvolver um vocabulário sofisticado para trabalhar, dar à luz ou mesmo rezar. No mundo da agricultura, a comunicação com frequência baseava-se no contato direto, em gestos e no tom de voz, em vez de abrangentes conceitos abstratos formulados pelos poucos membros educados da comunidade e registrados em textos escritos, alguns dos quais temos à disposição hoje.

Os escribas, filósofos e sacerdotes da corte real, em simbiose cultural e social com a nobreza fundiária, as classes urbanas abastadas e a classe dos guerreiros, proporcionaram grande quantidade de informações às gerações futuras. O problema é que os historiadores muitas vezes trataram esse material como um amplo banco de dados de fácil acesso, depositário de uma informação exaustiva sobre os sistemas básicos de conceituação e práticas da sociedade como um todo. Isso resultou na aplicação enganosa e indiscriminada de termos e expressões como “raça”, “etnia”, “nação”, “migração de povos”, “exílio de povos” e “reinos nacionais” a sociedades pré-modernas.

Fontes primárias são como o facho de um farol, iluminando pequenas regiões isoladas dentro de um mar avassalador de escuridão. Em última análise, cada narrativa histórica é mantida aprisionada pelos remanescentes escritos. Pesquisadores cuidadosos sabem que devem percorrer tais artefatos com cuidado e hesitação. Devem trabalhar sem ilusões, sabendo que o que escrevem se embasa em produtos históricos indicativos do espírito de uma pequena elite, representando a ponta de um iceberg que derreteu e jamais poderá ser plenamente recriado.

Esta seção oferece um breve exame de uma série de antigos textos mediterrâneos e europeus famosos. Embora a discussão subsequente, infelizmente, seja eurocêntrica ao extremo, sua estreita perspectiva deriva menos de alguma posição ideológica de minha parte do que das limitações de meu próprio conhecimento.

Começamos pela antiga sociedade mediterrânea, onde encontramos o conceito de pátria em obras literárias relativamente primevas. Quando o poeta clássico Homero refere-se à terra de nascimento de alguém na Ilíada, seu poema épico, faz uso repetido da palavra patrida (πατρίδα). A amada terra pátria é também o lugar do qual os guerreiros sentem saudade durante expedições ou em batalhas em locais distantes, e onde suas esposas, filhos, pais e outros membros da família permanecem. É o lar idealizado ao qual os heróis mitológicos retornam – pois, a despeito de seu heroísmo e grande resistência, eles também ficam cansados. É ainda o local sagrado onde os pais estão enterrados (13).

Cerca de uns trezentos anos depois, em sua peça Os persas, a mais antiga tragédia a sobreviver, Ésquilo descreve apaixonadamente a famosa batalha de Salamina, travada entre a coalizão helênica e os exércitos persas em 480 a.C. Nela, ele atribui o seguinte brado aos heróis: “Filhos da Grécia, vão!/ Libertem a pátria,/ libertem os filhos, esposas,/ os altares dos deuses de nossos pais,/ as tumbas onde jazem nossos antepassados./ Lutem por tudo que temos!”. Os remanescentes do exército persa invasor também retornam vencidos para a patrida e seus familiares a fim de lamentar a amarga derrota (14). Mas devemos prestar atenção também ao fato de que nem Grécia, nem Pérsia constituem a pátria dos guerreiros. Sua pátria era seu lar, sua cidade, seu lugar de origem. Era o pequeno território onde haviam nascido, do qual todos seus filhos, descendentes e vizinhos próximos possuíam conhecimento físico direto.

Peças posteriores, como Antígona, de Sófocles, Medeia, de Eurípedes, e outras obras do século V a.C., também apresentam a pátria como um lugar de importância incomparável que não deve ser abandonado, custe o que custar. Ser removido da terra pátria é sempre percebido como o despejo de um lar aconchegante e protegido, como um grande desastre e, ainda que raramente, como um exílio pior que a morte. A pátria é o conhecido, o seguro e o familiar, fora da qual tudo é estrangeiro, ameaçador e alienante (15).

Pouco tempo depois, quando os guerreiros de Siracusa combateram os atenienses, Tucídides escreveu que os primeiros lutaram para defender sua pátria, ao passo que seus inimigos, os atenienses, travaram a guerra para anexar uma terra estrangeira (16). O conceito de pátria aparece muitas vezes na História da Guerra do Peloponeso, mas não é um lugar único e universal para todos os helênicos. Embora os proponentes modernos do nacionalismo grego gostassem que fosse diferente, a patrida da literatura antiga não é idêntica à terra da Grécia e não pode ser concebida como tal. Historiadores usam o termo “pátria” apenas para se referir a uma cidade-Estado única, uma pólis específica. Por esse motivo, na recriação de Tucídides da famosa oração funeral de Péricles, é Atenas que é descrita como um objeto de admiração e adoração (17).

As referências gregas à ideia de pátria sugerem uma forma singular e fascinante de politização de um lugar territorial. A pátria e sua bagagem emocional não apenas se relacionam ao local geográfico, como são frequentemente aplicadas dentro de estruturas políticas específicas. Para entender melhor esse ponto, vamos dirigir nossa atenção à lógica de Platão por um momento.

Como Tucídides, o filósofo ateniense emprega o termo “pátria” para se referir não à grande Grécia, mas a uma pólis individual. Aqui, é a cidade-Estado soberana, junto com suas instituições e sistema de leis, que constitui a verdadeira patrida. Platão usa a palavra repetidamente não só no sentido do simples local de nascimento ou de uma área física com suas desejadas paisagens, mas primeiramente para a entidade política, inclusive todo o aparato da administração civil. Por exemplo, em seu célebre diálogo Crítias, Platão atribui as seguintes palavras a Sócrates, admoestando seu interlocutor:

Terá um filósofo como você fracassado em descobrir que é para nossa pátria ser mais valorizada, e ser bem superior e mais sagrada que mãe ou pai ou qualquer ancestral, e para ser mais considerada aos olhos dos deuses e dos homens de entendimento? […] e se ela nos leva a ferimentos ou à morte em batalha, para lá seguimos porque é o certo; tampouco pode qualquer um render-se ou bater em retirada ou deixar sua fileira, mas seja em batalha ou em um tribunal de justiça, ou em qualquer outro lugar, ele deve fazer o que sua cidade e sua pátria lhe ordenam; ou deve mudar de opinião sobre o que é justo: e, se ele não deve cometer violência contra o pai ou a mãe, menos ainda deve cometer violência contra a sua pátria (18).

Como em outros casos, aqui também a pátria platônica é uma cidade que constitui um valor supremo ao qual todos os outros valores estão subordinados. Sua singularidade e poder moral residem em sua existência como uma área de autogoverno exercido por cidadãos soberanos. Devido ao seu grande interesse pessoal nessa entidade politica, seus membros são obrigados a defender sua pátria – sua comunidade. Essa é também a origem da necessidade de santificá-la, incorporá-la a rituais religiosos, adorá-la em dias santos. As exigências patrióticas incondicionais de Platão giravam em torno de uma cidade-pátria que subordinava interesses individuais às necessidades e valores do coletivo.

Em muitos aspectos, o discurso ateniense relativo à pátria lembra o entendimento moderno do termo. Lealdade, dedicação ao lugar e disposição para fazer sacrifícios em seu nome são consideradas valores sagrados a não ser questionados e com certeza não ser discutidos em tom de sarcasmo. Na superfície, esse discurso parece representar os primórdios da consciência nacionalista que nos últimos dois séculos veio a desfrutar um status dominante na sociedade humana. Mas era a pátria de Tucídides, Platão e outros atenienses a mesma pátria nacional imaginada por Benito Mussolini, Charles de Gaulle, Winston Churchill e milhões de outros nacionalistas do século XX? No fim das contas, não há mesmo nada de novo sob o sol?

Na verdade, essas duas encarnações de pátria são tão diferentes quanto semelhantes. Assim como a antiga sociedade ateniense não empregava a democracia representativa, e sim a democracia participativa direta, ela também não tinha nenhuma familiaridade com o conceito nacionalista moderno e abstrato de pátria. A noção de pátria nos Estados democráticos da antiga Grécia limitava-se à lealdade patriótica à pólis, a pequena e supremamente tangível cidade-Estado cuja paisagem humana e física era bem conhecida por todos os cidadãos devido a seu conhecimento pessoal de seu tamanho e fronteiras. Eles encontravam-se diariamente com os outros habitantes na ágora e se juntavam a eles em reuniões gerais, celebrações e apresentações teatrais. Da experiência sem mediação brotavam a essência e a intensidade do sentimento patriótico, que era, para eles, uma das áreas mais importantes da consciência social.

Na verdade, o nível de comunicação e os meios limitados de disseminação cultural eram insuficientes para facilitar o surgimento de uma grande pátria democrática. A despeito do ditado de Aristóteles (conforme a tradução livre usual) sobre o homem ser por natureza um animal político, o animal humano clássico era o cidadão de uma cidade-Estado desprovida de forma, mapas precisos, jornais, rádio, educação compulsória e outros elementos. Portanto, quando o mundo helênico mais tarde foi unido sob a liderança de Alexandre da Macedônia, o velho patriotismo da pólis dissolveu-se, assim como a dimensão democrática desapareceu da vida cotidiana de boa parte da Grécia.

Além disso, as linhas éticas que demarcavam a democracia na antiga cidade-Estado estão longe de ser idênticas aos limites políticos da democracia moderna. Os cidadãos soberanos da pólis ateniense constituíam uma minoria da população total da cidade e dos agricultores que cultivavam as terras circundantes. Apenas os homens livres nascidos de pais que já possuíssem cidadania eram considerados autóctones e incorporados ao eleitorado e suas instituições eleitas. Mulheres, imigrantes, pessoas de descendência mista e os muitos escravos não tinham direitos e eram excluídos da autossoberania. A concepção universal de humanidade que surgiria e se estilhaçaria na era moderna ainda era desconhecida no mundo mediterrâneo, que era rico, sofisticado e completamente elitista (19).

A lealdade à pátria na forma de devoção a uma liga de cidadãos detentores do autogoverno representativo apareceria em algumas obras literárias redigidas em Roma durante a era republicana. Às vésperas do desaparecimento da República e sua transformação em um império imenso, inúmeros estudiosos agraciaram-na com louvores verbais que seriam preservados na cultura europeia até a era moderna. Já observamos a famosa declaração de Horácio nas Odes sobre a doçura de morrer pela pátria. Entretanto, mais do que santificar o solo nacional, o grande poeta quis expressar sua devoção à pátria republicana, ou res publica, logo após Júlio César tê-la sepultado para sempre.

Na Conjuração de Catilina, o historiador romano Gaio Salústio Crispo, um leal seguidor de César, identificou a pátria com liberdade em oposição ao governo de uns poucos (20). O mesmo é válido para Marco Túlio Cícero, estadista cuja contribuição para frustrar a conspiração antirrepublicana rendeu-lhe o distinto status de “pai da pátria”. Em seu famoso discurso contra o conspirador, ele repreende o oponente:

Tivessem seus pais temido e odiado você e sido refratários a todas as suas iniciativas para aplacá-los, você sem dúvida se retiraria para algum lugar longe das vistas deles. Mas agora a pátria, a mãe comum de todos nós, odeia e teme você, e há muito o considera um parricida decidido no desígnio de destruí-la. E não há você de respeitar a autoridade dela, nem se submeter a seu conselho, tampouco deter-se em temor ao poder dela? (21).

No fim, o muitíssimo aclamado orador, conhecido pela acuidade retórica, perdeu a vida nos eventos que levaram ao declínio e fim da estrutura republicana que lhe era tão querida. Entretanto, pouco antes de sua morte, ele registrou por escrito suas inabaláveis visões sobre a pátria em um diálogo de estilo socrático ecoado em muitas obras que apareceram na Europa ocidental às vésperas da era moderna. O famoso Tratado das leis, de Cícero, considera a associação comum entre pátria e república em uma formulação dualista:

Eu diria que Catão [um conhecido estadista romano] e cidadãos municipais como ele possuem duas pátrias; uma, aquela de seu nascimento, e outra, aquela de sua escolha […] Do mesmo modo, podemos justamente intitular como nossa pátria tanto nosso lugar de origem como àquela a que estivemos associados. É necessário, porém, que nos apeguemos por preferência ou afeição a esta última, que, sob o nome de comunidade, é a pátria comum de todos nós. É por essa pátria que devemos sacrificar nossa vida; é a ela que devemos nos devotar sem reservas; e é por ela que devemos arriscar e aventurar todas as nossas riquezas e esperanças. Todavia, esse patriotismo universal não nos impede de preservar uma afeição muito terna pela terra nativa que foi o berço de nossa infância e juventude (22).

Como a devoção à pólis helênica, a lealdade à república romana era um valor supremo, um atributo exaltado que transcendia até mesmo a nostalgia pelo local de nascimento e pelas paisagens da infância, pois era na república que o indivíduo era seu próprio soberano, um parceiro em igualdade no governo coletivo. Ali, um exército de voluntários civis, distintos do exército remunerado, podia ser mobilizado; ali, um indivíduo podia ser requisitado a morrer pelo lugar. Considerava-se justificado ser solicitado a se sacrificar em nome do público, visto que o público era a manifestação da soberania pessoal. Como já foi afirmado, essa concepção de pátria política, que permaneceria singular nesse mundo pré-moderno, lembra a pátria da era nacionalista moderna.

De fato, muitos intelectuais esclarecidos do século XVIII ficaram encantados com as declarações patrióticas que recuperaram do antigo mundo mediterrâneo e as julgaram evidência de um regime ideal de liberdade, um domínio sem tiranos ou reis. Todavia, um desses pensadores, o filósofo e historiador napolitano Giambattista Vico, recordou seus leitores que os nobres romanos, “em favor da segurança de suas várias pátrias, não hesitavam em consagrar a si mesmos e suas famílias à vontade das leis, que, ao manterem a segurança comum da pátria, garantiam a cada um deles um certo domínio monárquico privado sobre sua família” (23). Vico também não deixou de criticar seus próprios antepassados latinos, notando que “a verdadeira pátria era do interesse de uns poucos pais” (24).

A pátria republicana de Cícero, de fato, era uma oligarquia, consistindo de um grupo limitado de civis, com eleitorado e eleitos pertencendo sempre à mesma pequena elite. Mais importante para nossa discussão do conceito de pátria é o fato de que apenas aqueles fisicamente presentes na capital romana estavam qualificados para participar das eleições. Cidadãos que residissem fora dos limites da cidade em si eram destituídos tanto do direito de votar quanto do direito de ser eleitos. E como no tempo de Cícero a maioria dos cidadãos já residia fora da cidade, estavam desqualificados para desempenhar um papel ativo em sua amada pátria.

A expansão e o poder crescente da Roma imperial despiram-na de sua conexão com a pátria civil. Em vários aspectos, o império era uma enorme liga de muitas cidades-Estados que careciam de qualquer independência efetiva. No século III d.C., a transformação dos habitantes não escravos do império em cidadãos que careciam do direito de participar da formação da soberania obscureceu ainda mais as conexões emocionais e políticas contidas na noção de pátria republicana. Dessa maneira, facilitou a consolidação e disseminação de um monoteísmo universal – com laços com locais sagrados específicos – que viria a se basear em diferentes mecanismos psicológicos e diferentes associações intelectuais.

Os fundadores da Igreja cristã tentariam deslocar essa lealdade da pátria republicana para o reino celestial. Como todos os povos são iguais perante Deus, a velha devoção à pólis grega e à república romana dos donos de escravos seria ostensivamente substituída pela devoção à vida eterna que sucederia à vida neste mundo. Já em Agostinho vemos a expressão da ideia de que a cidadania, no sentido puro e verdadeiro da palavra, só podia ser encontrada na cidade de Deus. Se era apropriado morrer pela pátria, essa adequação provinha de ser o sacrifício praticado por alguém que acreditava fielmente no reino celestial de Deus (25). Essa concepção do amor pela patria aeterna tinha uma forte ressonância em largos círculos dentro da Igreja e serviu de fundamentação central à fé cristã.

Os exércitos civis da república romana desapareceram com a expansão do império; mercenários carregaram a bandeira de Roma não só por toda a enseada do Mediterrâneo, mas para os confins da Europa conquistada. Esse encontro histórico deflagrou a mudança no sonolento continente recoberto de matas, embora a fraqueza e desintegração do império tenham sido o que por fim libertou tribos e localidades europeias do jugo romano. Só então vemos o início do longo processo gradual concluído com a criação de uma nova civilização com uma estrutura completamente diferente de relações sociais. O feudalismo europeu emergente não tinha cidadãos, não solicitava morte patriótica heroica e não produziu lealdade a uma pátria político-territorial. Todavia, elementos do mundo conceitual mediterrâneo infiltraram-se na cultura e nas línguas da Europa através de uma variedade de canais, primeiramente pelas ações e crescente poder da Igreja cristã.

Conforme descrito com eficiência por Ernst Kantorowicz em Os dois corpos do rei, o conceito ateniense e romano de república desapareceu por completo em sociedades nas quais lealdade e dependência pessoal eram hegemônicas (26). Embora patria tenha se tornado uma palavra de uso comum, era geralmente empregada para se referir ao local de nascimento ou residência de uma pessoa. “Pátria” tornou-se sinônimo do conceito de “pequeno país” – pays nos dialetos franceses e Heimat nos dialetos alemães –, região onde se localizava a casa de uma pessoa, onde os filhos nasciam e eram criados e onde a família ampliada continuava a viver.

Reis e príncipes empregaram o termo de modo diferente. Segmentos da elite da sociedade aplicaram o conceito a uma variedade de entidades políticas, transformando reinos, ducados, condados e jurisdições de taxação e de atividade judicial em “pátrias”. O papado também não deixou de fazer uso dele, conclamando periodicamente o resgate da pátria a fim de defender a harmonia cristã e a segurança de todos os fiéis.

Normalmente, a disposição dos cavaleiros para morrer era um sacrifício em nome do senhor feudal ou da Igreja, ou, mais tarde, do rei e do reino. A fórmula pro rege et patria (pelo rei e pelo país) tornou-se cada vez mais popular nos séculos XIII e XIV e sobreviveria até as revoluções modernas. Mas, mesmo nos reinos mais organizados, havia uma tensão persistente entre a lealdade à pátria celestial e a lealdade às identidades nacionais que sempre estavam subordinadas a estruturas hierárquicas. Além disso, o éthos militar das sociedades europeias pré-modernas abrangia a devoção à pátria na forma de valores substantivos como honra, glória e remuneração financeira apropriada pela disposição do indivíduo em se sacrificar.

O lento declínio da sociedade medieval e os levantes dentro da Igreja também resultaram no revigoramento do conceito restrito de patria. O surgimento gradativo da cidade medieval, não apenas como centro comercial e financeiro, mas como uma força ativa na divisão regional da mão de obra, fez com que muitos na Europa ocidental a considerassem sua pátria primária. De acordo com Fernand Braudel, essas cidades foram o local de cristalização de uma forma primitiva de patriotismo nascente que deu forma à posterior consciência nacional (27).

Ao mesmo tempo, o gosto da sociedade da Renascença pela tradição clássica do Mediterrâneo resultou em outra invocação generalizada, ainda que não original, da antiga “pátria”, pois vários humanistas tentaram aplicar o conceito às novas cidades-Estados que emergiram como repúblicas oligárquicas (28). Em um momento extraordinariamente profético da história, Maquiavel ficou tentado até mesmo a aplicá-lo a toda a península italiana (29). Entretanto, a essa altura, em lugar nenhum a ideia de pátria reverberou do modo como havia reverberado na antiga Atenas ou na república romana, sem falar nos contextos territoriais das nações-Estados posteriores.

As monarquias absolutistas em desenvolvimento tampouco conseguiram produzir as expressões de lealdade e disposição de sacrifício pelo bem da pátria que se tornariam familiares após o fim dessas monarquias no período moderno tardio. Por exemplo, vamos considerar Montesquieu e Voltaire. Esses pensadores do século XVIII evidentemente entenderam por que os reinos não eram percebidos como pátrias e explicaram isso aos leitores. Em O espírito das leis, sua obra de 1748, Montesquieu, que possuía vasto conhecimento histórico, afirmou:

O Estado continua a existir independentemente do amor pela pátria, do desejo de glória verdadeira, da renúncia pessoal, do sacrifício dos mais caros interesses individuais e de todas aquelas virtudes heroicas que encontramos nos antigos e que conhecemos só por ouvir falar (30).

Voltaire, cujo conhecimento histórico era tão vasto quanto o de Montesquieu, abordou o valor da “pátria” em seu espirituoso Dicionário filosófico, de 1764:

Uma pátria é um conjunto de diversas famílias; e, assim como em geral defendemos nossa família por amor-próprio quando não temos interesse conflitante, do mesmo modo, por causa do mesmo amor-próprio, apoiamos nossa cidade ou aldeia, que chamamos de nossa pátria. Quanto maior a pátria, menos a amamos, porque amor dividido é mais fraco. É impossível amar ternamente uma família excessivamente numerosa que mal conhecemos (31).

De fato, embora incisivos em suas análises, ambos os pensadores estavam firmemente enraizados em uma era prestes a desaparecer. Estavam bastante familiarizados com a aplicação do termo ao relacionamento entre as pessoas e seu local de nascimento e as áreas em que eram criadas, mas não havia como saberem que esse conjunto de conexões mentais pessoais seria transformado e transferido para vastas estruturas políticas. As monarquias estabelecidas às vésperas da era moderna assentaram as fundações para o surgimento do nacionalismo, colocando em movimento centrífugo as linguagens administrativas que logo emergiriam como linguagens nacionais. O mais importante para nossa discussão aqui é o fato de que, embora carecendo das sensibilidades territoriais que acompanhariam o surgimento das democracias nacionais, elas começaram a esboçar, em alguns casos, o que se tornariam as futuras fronteiras da pátria.

Tanto Montesquieu quanto Voltaire eram pioneiros liberais e defensores firmes e corajosos das liberdades humanas. Entretanto, ambos os homens também exibiam um temperamento nitidamente antidemocrático; não se interessavam pelas massas iletradas como sujeitos políticos e foram, portanto, incapazes de imaginar a identificação coletiva das massas com um reino ou uma pátria política.

Não é coincidência que o primeiro patriota teórico a surgir no iluminismo europeu seja também sob muitos aspectos seu primeiro democrata antiliberal. Jean-Jacques Rousseau não abordou o conceito de pátria de forma sistemática e achou quase desnecessário esclarecer o que queria dizer quando fazia uso do termo, que empregou em profusão. Entretanto, algumas de suas obras contêm exortações explícitas para a preservação dos valores patrióticos, empregando retórica mais característica dos estadistas modernos que dos filósofos do século XVIII.

Em sua comovente “Dedicatória à República de Genebra”, que escreveu em 1754 e usou como introdução no Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens, ele já explica o tipo de pátria que preferiria:

Eu teria escolhido […] um Estado onde, com todos os indivíduos particulares conhecendo uns aos outros, nem as manobras obscuras do vício, nem a modéstia da virtude pudessem ficar ocultas à atenção e ao julgamento do público […] Eu teria, portanto, buscado como minha pátria uma república feliz e tranquila, cuja antiguidade se perdesse de algum modo nos recônditos sombrios do tempo […] Gostaria de escolher para mim uma pátria desviada, por uma afortunada impotência, do amor feroz pela conquista […] Teria procurado um país onde o direito de legislação fosse comum a todos os cidadãos, pois quem conhece melhor as condições sob as quais lhes convêm viver juntos em uma sociedade única? […] E se, além do mais, a providência tivesse combinado uma localização encantadora, um clima temperado, um país fértil e o mais agradável aspecto que houvesse sob os céus, para completar minha felicidade eu teria desejado apenas desfrutar de todas essas coisas boas no seio dessa pátria feliz, vivendo pacificamente em doce associação com meus companheiros cidadãos (32).

Em toda sua vida, Rousseau ansiou ver o estabelecimento de sociedades soberanas igualitárias dentro de territórios definidos que pudessem servir de pátrias naturais. Ao mesmo tempo, em seu O contrato social, esse filho republicano de Genebra, com suas muitas contradições internas, não hesitou em ponderar:

Como poderia um homem ou um povo apoderar-se de um vasto território e manter de fora o resto da raça humana, a não ser por uma usurpação criminosa, visto que a ação roubaria do resto da humanidade o abrigo e o alimento que a natureza deu a todos em comum? (33).

A despeito dessas declarações éticas e “anarquistas”, Rousseau permaneceu um pensador completamente político. Sua concepção igualitária do homem e a perspectiva universalista sobre a qual ela se baseava levaram-no à busca da liberdade, que sempre lhe foi querida apenas no domínio da política, ou seja, na construção da comunidade política. Todavia, o pai da ideia da democracia moderna também sustentou que a liberdade que buscava podia ser alcançada apenas em unidades pequenas, ou, mais exatamente, na forma de democracias diretas. Por esse motivo, a pátria ideal, de acordo com a teoria básica de Rousseau, deve permanecer pequena e tangível (34). Um profeta à espera da abertura dos portões da era nacionalista, Rousseau observou vivamente a uma grande altura e distância, mas permaneceu sem condições de entrar.

Territorialização do corpo nacional

Gritos de guerra patrióticos puderam ser ouvidos durante a revolta dos Países Baixos contra o reino espanhol no final do século XVI e ainda mais no início do século XVII. Durante a revolução inglesa de meados do século XVI, a ala radical dos niveladores identificou a pátria com a comunidade livre, que ficou plenamente mobilizada contra a tirania monárquica. E se no início da revolução norte-americana os rebeldes consideravam a Grã-Bretanha sua pátria, no final a atitude havia mudado, quando uma nova concepção de patriotismo começou a se difundir entre eles. “A terra dos livres e o lar dos bravos” (35) estava a caminho, para logo deixar sua marca na história.

Um dos marcos mais importantes na nova e promissora carreira da pátria na era moderna foi sem dúvida a Revolução Francesa, em especial na fase republicana. Se até então o conceito de pátria havia servido de ponto de referência para a elite política e intelectual – funcionários de Estado, embaixadores, acadêmicos, poetas, filósofos e outros desse tipo –, agora marchava confiante para os becos do povo. “La Marseillaise”, por exemplo, composta por um oficial subalterno da Alsácia, tornou-se um refrão popular, cantado pelo enorme batalhão revolucionário que chegou a Marselha e logo aprendido por muitos mais. “Vamos, filhos da pátria, o dia de glória chegou! Contra nós está a tirania”, cantavam os combatentes voluntários enquanto marchavam, trêmulos, para a batalha de Valmy em setembro de 1792, para lutar contra os exércitos mercenários do velho mundo. E aqueles que não foram feridos pela salva de tiros de canhão até conseguiram concluir a letra da canção: “Amor sagrado da pátria, apoie nossos braços vingadores. Liberdade, querida liberdade, lute com teus defensores!”. Por um bom motivo, a canção mais tarde foi adotada como hino nacional da França (36).

Nesse ínterim, porém, as conquistas de Napoleão estavam suscitando uma nova onda de exigências patrióticas fora da França, em regiões como os futuros territórios da Alemanha e Itália. Uma a uma, as sementes do patriotismo foram plantadas para, em breve, transformar a Europa em um jardim espetacular de nações e, com isso, de pátrias.

Dos tempestuosos anos 1790 na França aos levantes populares que sacudiram o mundo árabe no começo da segunda década do século XXI, quase todos os revolucionários e rebeldes juraram amor à liberdade e, ao mesmo tempo, declararam sua lealdade à pátria. A pátria ressurgiria em larga escala na Primavera das Nações de 1848 na Europa e também uniria os rebeldes da Comuna de Paris de 1871. E, embora a Revolução Russa se orgulhasse de seu internacionalismo, quando posta à prova durante a guerra pela sobrevivência contra a invasão nazista, a União Soviética reviveu o patriotismo como um eficiente mecanismo ideológico para a mobilização das massas. As duas guerras mundiais do século XX foram conflitos brutais travados em nome de uma superideologia orientadora que considerava o Estado a entidade responsável por proteger a pátria, ou pelo menos tentar trabalhar em seu benefício por meio da expansão das fronteiras. Como vimos, a aquisição de território foi considerada uma meta prioritária das lutas nacionalistas nas grandes campanhas pela descolonização que varreram o mundo da década de 1940 à de 1970. Tanto socialistas quanto comunistas do Terceiro Mundo foram patriotas em primeiro lugar, e só mais tarde enfocaram as distinções de filiação sociopolítica.

A principal pergunta que ainda precisa ser respondida é como a emoção profunda em relação a um pequeno local físico familiar foi traduzida em uma trama conceitual aplicada a vastos territórios que os humanos jamais poderiam conhecer pessoalmente em sua totalidade. Talvez a resposta resida na lenta porém decisiva territorialização da política na era do nacionalismo.

A despeito de sua grande importância histórica, os patriotas da revolução inglesa, os voluntários que cantaram a “Marseillaise” enquanto marchavam para a batalha durante a Revolução Francesa, os rebeldes contrários à ocupação napoleônica e mesmo os revolucionários de 1848 nas capitais da Europa constituíram minorias das populações no meio das quais conduziram suas atividades – minorias significativas, mas ainda assim minorias. E, mesmo que a pátria tenha se tornado um conceito-chave nas inquietas capitais, a maioria do povo permaneceu como lavradores, relativamente imperturbados pelas qualidades da liderança política que já estava oscilando para os tons culturais e linguísticos da modernidade.

O que as atraiu para a nova pátria ou, talvez mais precisamente, o que começou a construir o conceito de território nacional em sua consciência foi a legislação emanada de centros políticos e aplicada por todos os territórios. Essas leis eximiram número significativo de agricultores de obrigações feudais, taxas e outros encargos, e em alguns casos também proporcionaram reconhecimento decisivo de sua posse sobre a terra que cultivavam. As novas leis para a terra e as reformas agrárias serviram como meio primário para a transformação de monarquias dinásticas e grandes principados em nações-Estados cada vez mais estáveis e, como resultado, em regiões pátrias multidimensionais.

A grande urbanização responsável por muitas mudanças sociais nos séculos XIX e XX e pelo desapego das massas a suas “pequenas pátrias” constituiu outra importante precondição que permitiu a muita gente aceitar, pelo menos em termos conceituais, um grande território nacional não familiar. A mobilidade deu origem a variações até então desconhecidas de necessidade de inserção social, e essa necessidade foi atendida pela identidade nacional, que ofereceu a promessa sedutora de facilitar a adesão individual e coletiva e a radicação dentro de uma área geográfica maior.

Esses e muitos outros processos políticos, legais e sociais foram apenas o tiro de largada, ou melhor, o convite. Os convidados ainda tinham uma longa e exaustiva estrada a percorrer antes de encontrar um porto seguro em suas extensas pátrias imaginadas.

É importante lembrar que pátrias não produziram nacionalismo, mas, pelo contrário, as pátrias surgiram do nacionalismo. A pátria se mostraria uma das mais surpreendentes e talvez a mais destrutiva das criações da era moderna. O estabelecimento de nações-Estados deu novo significado às áreas sob seu domínio e as fronteiras que as delineavam. Por meio da construção de um profundo sentimento de inserção em um grupo nacional, um processo cultural-político criou britânicos, franceses, alemães, italianos e mais tarde argelinos, tailandeses e vietnamitas a partir de variadas misturas de culturas e linguagens locais. Esse processo invariavelmente produziu um leque de emoções relacionadas a espaços físicos definidos. A paisagem tornou-se um componente fundamental da identidade coletiva, formando as paredes, por assim dizer, da casa na qual a nação em desenvolvimento era convidada a residir. O historiador tailandês Thongchai Winichakul oferece uma análise persuasiva dessa dinâmica em seu delineamento da evolução da nação-Estado siamesa. O “geocorpo” da nova nação, ele afirma, foi uma condição para sua formação, e foi acima de tudo o mapeamento moderno que facilitou a criação dessa entidade territorial (37). É costume referir-se aos historiadores como os primeiros agentes autorizados de uma nação, mas esse título deve ser concedido também aos geógrafos que empreendem seu mapeamento. Enquanto a historiografia ajudou o Estado nacional a disciplinar seu passado primitivo, foi a cartografia que ajudou a efetivar sua imaginação e seu poder sobre o território.

A precondição material, tecnológica, para a expansão da imaginação territorial foi o lento desenvolvimento e propagação dos meios de comunicação de massa. Fatores políticos e culturais completaram o processo ao criar veículos estatais eficientes para a formulação e disseminação de ideologia. Da revolução da imprensa no século XV – que se tornou cada vez mais sofisticada ao evoluir para um meio abrangente e que cobria vários domínios – à abertura das escolas e ao advento da educação compulsória no final do século XIX e século XX, a relação entre cultura de elite e cultura popular mudou por completo, assim como a relação entre as culturas dos centros urbanos e da periferia rural. Não fosse a imprensa, os mapas dos reinos e os diagramas cada vez mais sofisticados do mundo físico produzidos pelos geógrafos teriam sido vistos por pouquíssima gente. Não fosse o fornecimento de educação pública para todos, apenas um pequeno número de pessoas teria conhecido e tido condições de identificar as fronteiras de seus países. A confecção de mapas e a educação tornaram-se um complexo natural e integrado que serviu para esculpir um espaço familiar definido. Por esse motivo, mapas que propagam e inculcam as fronteiras da pátria no âmago da consciência de cada estudante ainda adornam as paredes das salas de aula hoje em dia. Com frequência, além desses mapas estão penduradas grandes imagens das paisagens das diferentes regiões da pátria. Essas reproduções e fotografias exibem vales, montanhas e aldeias, mas nunca cenários urbanos (38). Quase sempre, a representação visual da pátria é acompanhada de uma pitada de anseio romântico por um enraizamento ancestral na terra.

Como parte da nacionalização intensiva das massas, infundir na população o amor pela pátria naturalmente dependia do conhecimento de sua geografia. E, assim como a cartografia física permitiu aos humanos conquistar a terra e adquirir seus muitos tesouros, o mapeamento político ajudou os Estados a capturar o coração dos cidadãos. Como já vimos, ao lado das lições de história referentes ao passado da entidade nacional, as aulas de geografia estabeleceram e esculpiram sua encarnação territorial. Dessa maneira, a entidade nacional foi simultaneamente imaginada e moldada tanto no tempo quanto no espaço.

Entre os resultados disso estava a complicada relação entre as leis de educação e de alistamento militar compulsórios. Anteriormente, a fim de defender o território sob seu controle ou se apropriar do dos outros, os reinos eram forçados a contratar exércitos que não tinham conhecimento do território e das fronteiras dos reinos que os contratavam – um problema gradativamente resolvido pelas nações-Estados modernas por meio do alistamento militar compulsório, baseado na crescente disposição da maioria dos cidadãos para servir no exército de seu respectivo Estado contanto que um território definido permanecesse a seu dispor. Assim, as guerras modernas tornaram-se de natureza cada vez mais longa e “total” e, como resultado, o número de vidas ceifadas cresceu de forma exponencial. No novo mundo globalizado, a disposição de morrer pela pátria, que no antigo Mediterrâneo havia sido privilégio de poucos, tornou-se direito – e obrigação – de todos.

Entretanto, seria um equívoco concluirmos que tantas pessoas transformaram-se em ardentes patriotas unicamente como resultado de doutrinação ou manipulação das elites dominantes modernas. Não fosse a capacidade de reprodução mecânica e sistemática, sem jornais, livros e, mais adiante, transmissões de rádio e noticiários de cinema, e sem a intensiva formação pedagógica de um sistema geral de educação estatal compulsória, os cidadãos teriam permanecido muito menos cientes do papel do espaço nacional em suas vidas. A fim de identificar sua pátria, as pessoas tinham que saber ler e escrever e tinham que consumir porções saudáveis do farto bufê conhecido como “cultura nacional”. Podemos concluir, portanto, que, como mecanismos ideológicos do Estado, as novas escolas e os novos meios de comunicação foram diretamente responsáveis pela criação sistemática de pátrias e de patriotas.

Ainda assim, o motivo básico para o amplo consenso referente à obrigação do sacrifício em massa pelo bem do povo e da terra em que este vivia foi o notável processo de democratização que teve início no final do século XVIII e se espalhou pelo globo. Ao longo da história, impérios, reinos e principados haviam pertencido a indivíduos; a pólis grega e a república romana eram controladas por poucos. Agora supunha-se que o Estado moderno, quer liberal democrático ou autoritário democrático, estivesse sujeito à autoridade formal de todos os seus cidadãos. A partir de certa idade, todos os habitantes deveriam gozar de cidadania e, por isso, em princípio, ser os mandantes soberanos e legais do Estado. A posse coletiva do Estado pelo corpo civil também significava a posse coletiva de seu espaço territorial (39).

Como sabemos, o surgimento do Estado moderno, com seu código criminal e sistema civil-legal, foi uma das primeiras condições para o estabelecimento da propriedade burguesa. A legitimação da propriedade privada no Estado moderno foi estabilizada e reforçada pela ampliação da democratização e da soberania dentro dele. Em outras palavras, o sentimento abstrato da sociedade a respeito da posse coletiva da terra dentro das fronteiras de seu Estado também serviu indiretamente para reforçar o reconhecimento do capital acumulado por membros abastados da sociedade, e a prosperidade do capital não foi facilitada apenas pelo monopólio estatal sobre a violência, mas também por seu controle absoluto sobre todo seu território.

Nesse sentido, o território é a propriedade comum de todos os acionistas do empreendimento nacionalista. Mesmo os completamente destituídos têm algo que lhes pertence, e os pequenos donos de propriedade são também senhores dos grandes ativos nacionais. Essa concepção de posse coletiva gera um sentimento de satisfação e segurança com o qual nenhuma utopia política ou promessa de futuro consegue competir. Essa dinâmica, que escapou à maioria dos anarquistas e socialistas do século XIX, foi comprovada no século XX. Operários, escriturários, artesãos e agricultores marcharam juntos durante os sangrentos conflitos nacionais, motivados pela imaginação política de que estavam lutando pela pátria sob seus pés, o que fortaleceu sua firmeza, bem como por um Estado cujos líderes eram seus representantes oficiais. Esses representantes democráticos ficavam encarregados de administrar a propriedade das massas – ou seja, de defender o território sem o qual o Estado não poderia sobreviver.

Isso nos leva à fonte dos intensos sentimentos coletivos que turvariam e inflamariam a modernidade nacional. Quando Samuel Johnson declarou no final do século XVIII que o “patriotismo é o último refúgio dos canalhas”, anteviu com exatidão o tipo de retórica política dominante nos dois séculos seguintes: quem quer que se apresentasse como o mais leal cão de guarda da propriedade nacional se tornaria o rei sem coroa da democracia moderna.

Assim como toda propriedade tem seus limites legais, todo espaço nacional é limitado por fronteiras agora sujeitas à lei internacional. Entretanto, ao passo que é possível quantificar o valor exato da propriedade privada, inclusive da terra, isso não é válido para a propriedade nacional coletiva; como os ativos em questão não possuem mercado, é difícil calcular seu valor exato.

No começo do século XIX, Napoleão ainda pôde vender o grande território da Louisiana da América do Norte sem gerar qualquer protesto de parte daqueles que haviam recém-começado a se tornar franceses. E, em 1867, quando a Rússia vendeu o Alasca (pela reles soma de US$ 7,2 milhões), os russos mal reclamaram, e alguns norte-americanos até protestaram contra a aquisição como um desperdício inútil de seu dinheiro. Tais atos de quantificação financeira e transferência de propriedade estatal subsequentemente perderam totalmente a validade e não se repetiriam no século XX.

Em contraste, do começo do século XX em diante, novas guerras patrióticas tiraram a vida de imenso número de vítimas. Um exemplo foi a Batalha de Verdun, de 1916, uma das mais sangrentas e ferozes da Primeira Guerra Mundial. Em um pedacinho de terra de ninguém, uma área de uns poucos quilômetros quadrados, mais de 300 mil soldados franceses e alemães foram mortos ao longo de um período de meses, e bem mais de meio milhão ficaram feridos e incapacitados. Com certeza, nem todos os soldados permaneceram nas trincheiras úmidas e pútridas por sua própria vontade. Embora naquele estágio da chamada Grande Guerra eles estivessem bem menos sedentos por ela do que no início, a maioria ainda estava devotada ao imperativo supremo de defender a pátria e impregnada de um desejo patriótico de evitar ceder um quilômetro que fosse de seu território. No século XX, a perspectiva de morrer pela pátria infundiu nos combatentes masculinos um sentimento de que nenhum outro tipo de morte podia garantir tamanha nobreza atemporal.

Fronteiras como limites da propriedade espacial

“Território é sem dúvida uma noção geográfica, mas é antes de tudo uma noção jurídico-política: a área controlada por um certo tipo de poder” (40). A despeito da exatidão dessa afirmação de Michel Foucault, ela falha em capturar o verdadeiro status do espaço nacional. A escultura final do território nacional é empreendida com o apoio entusiástico dos indivíduos transformados em cidadãos, ou seja, seus proprietários legais. Também requer a concordância dos Estados vizinhos e, em algum estágio, a autorização da lei internacional. Como no caso de todas as manifestações sociolegais, a fronteira é primeiramente um produto histórico de relações de poder que em dado momento foram reconhecidas e congeladas.

Fronteiras fluidas entre grandes e pequenos territórios existiram ao longo de toda a história, mas eram diferentes das fronteiras da era moderna. Não eram linhas geométricas, mas sim largas faixas que careciam de definição e permanência; no caso de objetos naturais – montanhas, rios, vales, florestas, desertos – que separavam os reinos uns dos outros, o objeto inteiro servia de fronteira. No passado, a autoridade a que muitas aldeias pertenciam era incerta, e, verdade seja dita, muitas não tinham interesse em descobrir. Eram os governantes que tinham interesse em registrar seus nem sempre tão leais contribuintes.

Muitas das fronteiras internacionais de hoje foram delineadas de maneira arbitrária e acidental, e o delineamento ocorreu antes do surgimento das nações em questão. Impérios, reinos e principados demarcaram as áreas sob seu controle por meio de acordos diplomáticos ao término de guerras. Mas os numerosos conflitos territoriais do passado não resultaram em guerras mundiais prolongadas e, em muitos casos, o impulso primordial para a luta armada não foi um anseio pela terra em si. Antes do crescimento do nacionalismo, as fronteiras territoriais nunca foram um tema sobre o qual não se pudessem fazer concessões sob quaisquer circunstâncias.
Nesse contexto, a rica obra empírica de Peter Sahlins é muito instrutiva (41). Sahlins traçou cautelosamente a evolução da fronteira entre França e Espanha nos Pirineus do século XVII em diante, e observou que a soberania sob o antigo regime era aplicada muito mais aos habitantes que ao território. A lenta e prolongada formação da fronteira, que começou como uma linha imaginária marcada de forma extremamente imprecisa por meio de rochas não contíguas, atingiu um momento decisivo durante a Revolução Francesa. Em 1868, porém, quando se chegou a um acordo sobre a fronteira final, o território havia se tornado a propriedade oficial da nação. A transição de uma zona de fronteira fragmentada para áreas territoriais nitidamente demarcadas representou a domesticação do espaço e sua transformação em pátria (42).

Benedict Anderson desenvolveu a mesma ideia em seu livro pioneiro, Comunidades imaginadas:

Na concepção moderna, a soberania do Estado é plena, terminante e uniformemente operacional sobre cada centímetro quadrado de um território legalmente demarcado. Mas no velho imaginário, onde os Estados eram definidos por centros, as fronteiras eram porosas e indistintas, e as soberanias desvaneciam-se de modo imperceptível umas nas outras (43).

Como os capitalistas na fase da acumulação primitiva de capital, todas as nações-Estados em seu primeiro estágio de evolução são famintas por espaço e por isso impelidas a expandir suas fronteiras e aumentar sua propriedade fundiária. Os Estados Unidos, por exemplo, nasceram com uma inclinação inerente para anexar territórios. De fato, recusaram-se a reconhecer suas fronteiras e admitiram apenas áreas fronteiriças “flexíveis” que presumivelmente seriam incorporadas em algum momento futuro. Esse foi o comportamento típico de todos os Estados de colonizadores, seja na África, Austrália ou Oriente Médio (44).

A Revolução Francesa, por seu lado, perseguiu a ideia de “fronteiras naturais”, e com base nisso os revolucionários empenharam-se em expandir seu Estado na direção de grandes rios e montanhas elevadas, com frequência situados bem além das fronteiras “artificiais”. Dessa forma, a imaginação revolucionária francesa, seguida pela imaginação napoleônica, reivindicou a região do Reno e os Países Baixos como partes orgânicas da grande França. Desde o princípio, a revolução nacional-socialista da Alemanha invocou a lógica do “espaço vital”, que para os nazistas incluía Polônia, Ucrânia e oeste da Rússia, e teve impacto decisivo na deflagração da Segunda Guerra Mundial.

Não por coincidência, as primeiras nações-Estados também tornaram-se as principais potências coloniais. As causas e condições para sua expansão territorial sem dúvida foram impulsos econômicos e o crescente poder e superioridade tecnológica da Europa ocidental. Entretanto, o apoio entusiástico das massas patrióticas à expansão colonial também desempenhou um papel importante no ímpeto insaciável de alargar o território sob controle imperial. Ao mesmo tempo, a frustração sentida pelas grandes massas dos Estados que perderam a divisão dos espólios territoriais empurrou muitos para os braços de um nacionalismo radical mais agressivo.

Mesmo nações-Estados que surgiram no Terceiro Mundo em oposição ao domínio colonial começaram a estabelecer seus territórios em ferozes conflitos de fronteira. As disputas entre Vietnã e Camboja, Irã e Iraque, e Etiópia e Eritreia, por exemplo, não diferem substancialmente dos conflitos um século antes entre Grã-Bretanha e França, França e Prússia, e Itália e Áustria. A onda de nacionalismo democrático na Europa oriental resultou nas batalhas finais travadas na antiga Iugoslávia para a formação das fronteiras “corretas” do velho continente.

O processo de transformar terra em propriedade nacional normalmente teve início nos centros de poder, mas subsequentemente penetrou na consciência social mais ampla, alimentando e complementando o processo de apropriação de baixo para cima. Diferentemente da situação nas sociedades pré-modernas, as próprias massas serviram como sumo-sacerdotes e guardiões da nova terra sagrada. E, como nos rituais religiosos do passado, a área sagrada foi inequivocamente separada da área secular circundante. Assim, no novo mundo, cada centímetro de propriedade comum tornou-se parte do território nacional santificado que jamais poderia ser entregue. Isso não quer dizer que o espaço secular externo jamais pudesse tornar-se interno e sagrado, pois a anexação de terra adicional ao território nacional sempre foi considerada uma ação clássica de patriotismo. Da pátria, porém, era proibido tirar até um torrão de terra.

Uma vez que as fronteiras tornaram-se o indicador da extensão da propriedade nacional, não apenas como uma linha na superfície da terra, mas sim como uma linha de separação que também corria fundo sob o solo e demarcava igualmente o espaço aéreo, imediatamente assumiram uma aura essencial de honra e de sublimidade. Algumas dessas demarcações basearam-se na história distante, outras em pura mitologia. Nesses contextos, todo fiapo de conhecimento primordial que indica a presença ou controle do cerne ostensivo ou grupo “étnico” majoritário de uma nação moderna sobre qualquer pedaço de terra é usado como pretexto para anexação, ocupação e colonização. Todo mito marginal ou lenda trivial do qual seja possível explorar um grama de legitimidade para direitos territoriais e demarcação torna-se uma arma ideológica e um tijolo importante na construção da memória nacional (45).

Antigos campos de batalha tornam-se locais de peregrinação. Os túmulos dos ditadores fundadores de reinos, bem como os de rebeldes brutais, tornam-se sítios históricos oficiais. De forma compatível com isso, os defensores laicos do nacionalismo impregnam paisagens inanimadas de elementos primordiais e até mesmo transcendentais. Revolucionários democráticos, inclusive socialistas que pregam a irmandade das nações, invocam memórias saudosas de passado monárquico, imperial e até mesmo religioso a fim de afirmar e estabelecer seu controle sobre um território tão amplo quanto possível.

Somada à obtenção agressiva e imediata da posse, em geral era necessário inscrever o espaço nacional na longa duração para dotá-lo de um ar de eternidade atemporal. Sendo relativamente abstrata, a grande pátria política sempre precisou de pontos de referência estáveis no tempo e de características espaciais tangíveis. Por esse motivo, conforme já foi afirmado, geógrafos, assim como historiadores, tornaram-se parte da nova teologia pedagógica. De acordo com essa teologia, a terra nacional usurpou a hegemonia de longa data do divino e, em grande medida, converteu os céus: na era moderna, pode-se falar de Deus com muito mais ironia que das terras ancestrais.

Durante os séculos XIX e XX, a grande pátria abstrata foi de longe o poder mais dominante na política nacional e internacional. Milhões morreram em seu nome, outros morreram por seu bem, e multidões empenharam-se em continuar vivendo apenas dentro de suas fronteiras. Como todos os outros fenômenos históricos, entretanto, seu poder nunca foi absoluto; e é preciso dizer que não é eterno?

A pátria não só possuía fronteiras externas que delineavam seu território, como também tinha uma fronteira interna que limitava sua presença psicológica. Gente que lutava sob o peso da vida ou não tinha condições de sustentar a família com dignidade tendia a migrar para outros países. Ao fazer isso, trocava de território nacional da forma como a maioria das pessoas substitui um traje que outrora era atraente, mas agora está puído – com nostalgia, mas determinação.

A emigração em massa não é menos característica da modernização que a nacionalização de populações e a construção de pátrias. A despeito da dor de arrancar as raízes e viajar para destinos desconhecidos, muitos milhões de pessoas que enfrentavam a pobreza, crises econômicas, perseguição e outras ameaças do tipo na era moderna tentaram realocar-se em um espaço vital que parecesse prometer um meio de vida mais seguro que seu país de origem. O difícil processo de estabelecer novas raízes em uma pátria adquirida também transformou imigrantes em patriotas e, mesmo que o processo nem sempre fosse bem-sucedido na primeira geração, a nova pátria inevitavelmente fincava raízes profundas dentro dos corações e mentes das gerações seguintes.

Ao longo da história, os fenômenos políticos surgem e por fim desaparecem. A pátria nacional que começou a tomar forma no final do século XVIII e se transformou no espaço “normal” e normativo de todos aqueles que se tornaram seus cidadãos, começou a mostrar os primeiros sinais de exaustão no final do século XX. É claro que o fenômeno ainda está longe de desaparecer, e nos cantos “remotos” do planeta as pessoas ainda morrem por pedaços da terra nacional. Em outras regiões, porém, as fronteiras tradicionais já estão começando a se dissolver.

A economia de mercado que há tempos demoliu a pequena pátria e desempenhou um papel importante na construção de pátrias nacionais e no delineamento destas dentro de fronteiras impenetráveis começou a erodir parcialmente suas criações prévias, auxiliada nesse esforço pela elite política e, em maior extensão, pela mídia audiovisual e online. O declínio do valor do cultivo agrícola como meio de gerar riqueza econômica também ajudou a enfraquecer o poder psicológico do patriotismo do passado. Hoje, quando franceses, alemães ou italianos deixam sua pátria, nem o Estado nem seus cães de guarda estão presentes na fronteira. Os europeus agora deslocam-se dentro de espaços territoriais que adotaram fronteiras completamente novas.

Verdun, que pode ser um símbolo da insensatez do patriotismo do século XX, tornou-se um popular local turístico. Ironicamente, hoje em dia, em Verdun ninguém repara no passaporte ou identidade nacional dos europeus que o visitam. Embora as fronteiras terrestres recém-organizadas da Europa sem dúvida sejam mais acentuadas e por vezes não menos brutais que as anteriores, os territórios dentro delas não mais possuem todos os atributos das velhas pátrias políticas.

Ao que parece, os franceses nunca mais irão morrer pela França, e os alemães muito provavelmente jamais irão matar pela Alemanha de novo (e vice-versa). É muito provável que os italianos, por sua vez, continuem a tradição personificada pelo discurso inflamado do idoso cínico italiano de Catch-22, de Joseph Heller, que aparece como epígrafe na abertura do presente capítulo.

Embora o assassinato em massa convencional tenha se tornado cada vez mais problemático e complicado na era nuclear, não podemos descartar a possibilidade de que os humanos descubram novos meios de matar e ser mortos no futuro. Entretanto, se o fizerem, é bem provável que seja em nome de uma nova, e por enquanto desconhecida, versão de política.

Notas

1. “Dulce et decorum est pro patria mori.” Horácio. Odes, 3.2. In: Odes and Epodes. Cambridge: Harvard University Press (Loeb Classical Library), 2004, pp. 144-5. Essa frase foi escrita entre 23 a.C. e 13 a.C. Em sua encarnação sionista, o mesmo sentimento foi articulado usando-se as palavras “É bom morrer por nosso país”, atribuídas a Josef Trumpeldor, um colono judeu pioneiro que foi morto em 1920 em um confronto com árabes locais. Como Trumpeldor havia estudado latim na juventude, pode de fato ter citado Horácio pouco antes de morrer.

2. Sobre a relação entre o termo russo rodina e o termo alemão Heimat, ver Bickle, Peter. Heimat: a critical theory of the German idea of homeland. Nova York: Camden House, 2002, pp. 2-3.

3. The territorial imperative: a personal inquiry into the animal origins of property and nations. Nova York: Atheneum, 1970.

4. Para mais sobre isso, ver Gorer, Geoffrey. “Ardrey on human nature: animals, nations, imperatives”. In: Montagu, Ashley (org.). Man and aggression. Londres: Oxford University Press, 1973, pp. 165-7.

5. Ardrey. Territorial imperative, p. 5.

6. Ibid., pp. 6-7.

7. Citado em Murphy, David Thomas. The heroic earth: geopolitical thought in Weimar Germany, 1918-1933. Ohio: Kent State University Press, 1997, p. 9.

8. Para mais sobre Haushofer, ver ibid., pp. 106-10.

9. Levou um bom tempo para a geopolítica recuperar-se de sua experiência sob o domínio nazista, mas na década de 1970 ela já havia sido reintroduzida como um campo de estudo legítimo. Ver Newman, David. “Geopolitics renaissant: territory, sovereignty and the world political map”. In: ____ (org.). Boundaries, territory and postmodernity. Londres: F. Cass, 1999, p. 15.

10. Ver especificamente o famoso livro de Lorenz, Konrad. On aggression. Londres: Methuen, 1967.

11. Sobre esse assunto, ver Crook, John Hurrell. “The nature and function of territorial aggression”. In: Montagu, Ashley (org.). Man and aggression, pp. 183-217.

12. Os exemplos incluem Gaia, a deusa primordial da terra na mitologia grega, e a deusa cananeia Asherah.

13. Por exemplo, ver Homero.The Iliad, Ann Arbor: University of Michigan Press, 2007, 5.212; 9.41, 46 [Ilíada. 2 vols. São Paulo: Arx, 2003].

14. Ésquilo. The Persians. Nova York: Oxford University Press, 1981, p. 59. A História de Heródoto também faz uso escasso do termo, primeiramente para indicar lugar de origem. Ver, por exemplo, Heródoto. The History. Chicago: University of Chicago Press, 1987, 3.140, 4.76.

15. Ver, por exemplo, Sófocles. Antígona, II, 183, 200, e Eurípedes. Medeia, II, 34, 797ss.

16. Tucídides. A história da Guerra do Peloponeso. Brasília: Editora da UnB, 1999, 6.69.

17. Ibid., 2.34-46. A escola estoica às vezes empregou o termo “pátria” para se referir ao cosmo inteiro. Além disso, embora a Grécia nunca fosse reconhecida como uma pátria, alguns helênicos educados possuíam uma consciência de identidade cultural compartilhada que provinha do “sangue compartilhado” ou da similaridade linguística e ritual. Por exemplo, ver Heródoto. The History, 8.144, e as famosas palavras de Isócrates no Panegírico, 50.

18. Platão. The trial and death of Socrates: four dialogues. Trad. Benjamin Jowett. Nova York: Dover Publications, 1992, 51.

19. Sobre o complexo relacionamento entre autoctonia e política em Atenas, ver os artigos no fascinante livro de Loraux, Nicole. Né de la terre: mythe et politique à Athènes. Paris: Seuil, 1996, e também Detienne, Marcel. Comment être autochtone. Paris: Seuil, 2003, pp. 19-59. Sobre o surpreendente conceito espartano de espaço e sua atitude singular em relação à terra ancestral, ver Malkin, Irad. Myth and territory in the Spartan Mediterranean. Cambridge: Cambridge University Press, 1994.

20. Crispo, Gaio Salústio. The Catiline conspiracy, 58.

21. Cícero. The Catiline conspiracy, Oração 4.7. In: Duncan, William. Cicero’s selected orations translated in English. Londres: impresso para G. G. J. and J. Robinson and J. Evans, 1792, p. 127.

22. Cícero, Marcos Túlio. The political work s of Marcus Tullius Cicero. Londres: Edmund Spettigue, 1841, pp. 78-9.

23. Bergin,Thomas G. & Fisch, Max H. (orgs.). The New Science of Giambattista Vico. Ithaca: Cornell University Press, 1984, pp. 23- 4.

24. Ibid., p. 255.

25. Ver a discussão de Agostinho em A cidade de Deus, 5.16, 17.

26. Kantorowicz, Ernst H. The k ing’s two bodies. Princeton: Princeton University Press, 1983, pp. 233-4. Ver também o brilhante artigo de Kantorowicz. “Pro patria mori in medieval political thought”. American Historical Review, 56:3 (1951), pp. 472-92 [Os dois corpos do rei: um estudo sobre teologia política medieval. São Paulo: Companhia das Letras, 1998].

27. Braudel, Fernand. Capitalism and material life 1400-1800. Glasgow: Collins, 1973, p. 399 [Civilização material, economia e capitalismo. 3 vols. São Paulo: Martins Fontes, 1995].

28. Sobre as pessoas do período renascentista, ver Viroli, Maurizio. For love of country: an essay on patriotism and nationalism. Oxford: Clarendon Press, 1995, pp. 24-40.

29. Maquiavel, Nicolau. “An appeal to take back Italy and liberate her from the Barbarians”. In: ____. The prince. Wellesley: Dante University Press, 2003, pp. 131-4. A despeito desse capítulo e de alguns outros comentários em suas outras obras, seria um exagero retratar Maquiavel como um idealizador patriota da Itália, como faz William J. Langdon em Politics, patriotism and language. Nova York: Peter Lang, 2005.

30. Montesquieu, Charles de Secondat. The spirit of the laws. Cambridge: Cambridge University Press, 1989, p. 25 [O espírito das leis. São Paulo: Martins, 2005].

31. Voltaire, François Marie Arouet. Philosophical dictionary. Nova York: Penguin Classics, 2004, p. 327.

32. Rousseau, Jean-Jacques. Discourse on the origin of inequality. Indianápolis: Hackett Publishing Co., 1992, p. 25 [Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. São Paulo: Martin Claret, 2010].

33. Rousseau, Jean-Jacques. The social contract, 1.9. Nova York: Penguin Classics, 1968, p. 67 [O contrato social. Porto Alegre: L&PM, 2007].

34. Como de hábito, em seu conselho à avantajada confederação polonesa, Rousseau também articulou uma visão contraditória: implementar políticas patrióticas agressivas, inclusive a doutrinação das massas. Ver, por exemplo, Considérations sur le gouvernement de Pologne (1771). Paris: Flammarion, 1990, pp. 172-4.

35. Excerto da letra da canção patriótica norte-americana “The star-spangled banner”, escrita em 1814 e que se tornou o hino nacional dos Estados Unidos em 1931.

36. Sobre o despertar patriótico durante a revolução, ver Contamine, Philippe. “Mourir pour la patrie: Xe-XXe siècle”. In: Nora, Pierre (org.). Les lieux de mémoire II, La nation. Paris: Gallimard, 1986, pp. 35-7.

37. Winichakul, Thongchai. Siam mapped: a history of the geo-body of a nation. Honolulu: University of Hawaii Press, 1997.

38. Gilbert, Paul. The philosophy of nationalism. Boulder: Westview Press, 1998, p. 97.

39. Para uma das primeiras discussões sobre a relação entre soberania e território, ver a obra de Jean Gottman, fascinante mas não histórica: The significance of territory. Charlottesville: University Press of Virginia, 1973.

40. Foucault, Michel. Dits et écrits, 1954-1988. Tomo III. Paris: Gallimard, 1994, p. 32.

41. Sahlins, Peter. Boundaries: the mak ing of France and Spain in the Pyrenees. Berkeley: University of California Press, 1989.

42. Ibid., pp. 6-7, 191-2.

43. Anderson, Benedict. Imagined communities: reflections on the origin and spread of nationalism. Londres: Verso, 1996, p. 19 [Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008].

44. Sobre a diferença entre fronteiras e zonas fronteiriças, ver Prescott, J. R. V. Political frontiers and boundaries. Londres: Unwin Hyman, 1987, pp. 12-51.

45. Para uma discussão desse tema baseada em uma abordagem teórica completamente diferente, ver Smith, Anthony D. “Nation and ethnoscape”. In: Myths and memories of the nation. Oxford: Oxford University Press, 1999, pp. 149-59.


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