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Sobre a boa provocação de Demétrio Magnoli ao PT

Por que os democratas devem resistir tanto ao vencedor quanto ao perdedor do segundo turno

Demétrio Magnoli publicou hoje um instigante artigo na Folha de São Paulo, reproduzido abaixo. O artigo é bom como provocação (ao PT). Poderia ser encarado como uma sugestão interna de autocrítica, feita para salvar o PT de si mesmo. Ou como uma maneira de ironizar a defesa da democracia que Haddad está transformando em eixo de campanha neste segundo turno. Em termos práticos, porém, como o PT não acatará a sugestão de Magnoli e os petistas e eleitores de Haddad não vão adquirir consciência crítica (seja lá o que for) na reta final de uma campanha transformada em guerra, o artigo pode ser interpretado – sobretudo pelo seu final – como uma declaração de voto no “menos pior”.

O artigo começa, de certo modo, avalizando a pesquisa do Datafolha de que quase 70% dos brasileiros acham que a democracia é um valor fundamental. Isso é falso (como já mostrei no artigo Sobre a propalada adesão da maioria dos brasileiros à democracia). Se houvesse tal adesão maciça à democracia, Bolsonaro não estaria vencendo a eleição, nem o próprio PT teria uma quantidade tão ponderável de votos.

Este pode parecer um ponto de menos importância, que talvez devesse ser deixado de lado, mas não é. Pois como os leitores (da carta-ironia de Magnoli) – cuja maioria confunde democracia com eleição – poderiam interpretar o que ele escreveu?

Poderiam interpretar assim: concordando ou não Haddad com sua carta, Magnoli sugere (ou insinua implicitamente) que votemos no PT (já que, havendo apenas dois candidatos, esta é a única maneira de derrotar Bolsonaro) e que isso seria escolher a democracia.

Magnoli diz, indiretamente (colocando as palavras na boca de um imaginário e impossível Haddad), que só há um candidato extremista: Bolsonaro. Ora, o PT – por tudo que fez – situou-se também num extremo, no extremo oposto. No centro é que não está.

O PT não é democrático, apenas usa a democracia contra a democracia (posto que abriu mão da tomada do poder em termos clássicos e adotou a via eleitoral). O lulopetismo é um neopopulismo que, como todo populismo, subverte a democracia. E escolhê-lo porque se avalia que Bolsonaro seja ainda menos democrático, não faz sentido a não ser do ponto de vista da realpolitik (que é sempre autocrática). Mal-comparando (e caricaturando) não podemos escolher Stalin porque avaliamos que Hitler é muito pior. Ou não podemos, para ficarmos em exemplos atuais, escolher Ortega porque avaliamos que Orban é pior.

A única conclusão coerente, para quem tem convicções democráticas profundas, é a oposta da sugerida obliquamente pelo articulista (ou com a ironia que corre o risco de ser interpretada obliquamente pelo leitor): como Fernando Haddad não escreverá a carta sugerida por Demétrio Magnoli, não podemos votar nele. Mesmo porque o PT não é perigoso somente no governo e sim liderando a oposição e transformando a política democrática em uma espécie de continuação da guerra por outros meios.

Eis o ponto. Se os democratas não se mantiverem críticos, em oposição aos dois populismos que ora se confrontam neste segundo turno, serão engolidos pelas ondas de defesa e ataque ao novo governo que se avolumarão a partir de janeiro de 2019 e não poderão exercer a  resistência democrática que se fará indispensável nos próximos mil dias. Essa resistência só será realmente democrática se for uma resistência tanto à situação bolsonarista quanto à oposição petista.

A carta que Haddad não escreverá

Demétrio Magnoli, Folha de S. Paulo, 13/10/2018

O que o candidato do PT à Presidência deveria dizer na atual campanha eleitoral

O Datafolha mostrou que a democracia é um valor fundamental para 69% dos brasileiros. Dirijo-me a essa ampla maioria para pedir um voto contra o autoritarismo. O Brasil experimentou uma ditadura militar de 21 anos. Eleger meu adversário seria colocar no governo um grupo de saudosistas da ditadura que testarão a resistência de nossa democracia. Minha candidatura tornou-se a única alternativa a isso. O segundo turno não pode ser um plebiscito sobre Lula ou o PT, mas um plebiscito sobre as liberdades públicas e individuais.

Verde-amarelo no lugar do vermelho? O marketing não substitui a política. Hora de assumir erros históricos, falar a verdade. O PT dividiu o país em “nós” e “eles”. Isso acaba aqui. Não qualificarei como “golpistas” os que defenderam o impeachment, a quem também peço o voto. Nunca mais usaremos o rótulo “fascistas” para marcar os que divergem de nós. Não mais usaremos o rótulo “racistas” para marcar os que discordam de políticas de cotas raciais. Adotaremos, perante a sociedade, o “protocolo ético” que meu adversário rejeitou. A pluralidade de opiniões é a substância da democracia. De agora em diante, nós a respeitaremos.

Democracia exige coerência. Lula respeitou a regra do jogo democrático ao não buscar um terceiro mandato sucessivo. Mas, reiteradamente, o PT ofereceu apoio ao regime ditatorial em Cuba, à ditadura instalada por Maduro na Venezuela, à escalada repressiva de Ortega na Nicarágua. Jamais concordei com isso, que acaba agora. Não cultivaremos ditadores de estimação. O Brasil defende a democracia aqui e lá fora. Na China e na Arábia Saudita, na Rússia e na Turquia, em Cuba e na Venezuela.

Nas democracias, uma fronteira separa as esferas da política e da Justiça. Todos, inclusive eu, têm o direito de concordar ou não com decisões judiciais —mas os partidos e, sobretudo, o governo, não têm o direito de misturar as duas esferas. Lula está recorrendo aos tribunais superiores contra sua condenação. Meu governo não se envolverá nesse assunto e não o politizará. Sem independência do Judiciário, não existe democracia.

A imprensa livre é um pilar imprescindível da democracia. Trump, lá, e meu adversário, aqui, clamam contra o jornalismo profissional, enquanto seus seguidores difundem falsificações por meio de empresas oligopolistas da internet. Mas é preciso olhar nossa imagem no espelho. Durante anos, o PT pregou o “controle social da mídia”, como se a crítica, justa ou injusta, precisasse ser restringida. Chega dessa ladainha rancorosa. Difamação, injúria, calúnia são assunto para os tribunais. Fora disso, o “controle da mídia” deve ser exercido exclusivamente pelos leitores, espectadores e ouvintes, ao selecionarem os veículos de sua preferência.

Todos têm direito à ampla defesa. A caça às bruxas sempre foi ferramenta de tiranos ou pretendentes a tiranos. Mas não existe uma “corrupção do bem”. A “nossa” corrupção é intolerável, tanto quanto a dos outros. Os governos do PT têm pesada parcela de responsabilidade política pelos escândalos do mensalão e do petrolão. No meu governo, protegeremos os recursos públicos da sanha de corruptos de qualquer partido, inclusive do meu.

A economia não é um fim em si mesma: serve para as pessoas escaparem ao círculo da pobreza, viverem melhor, realizarem seus sonhos. Mas isso só ocorrerá de forma sustentada se recuperarmos o equilíbrio das contas públicas. A depressão dos últimos anos foi semeada pela irresponsabilidade fiscal do governo Dilma. Aprendemos a dura lição. Não repetiremos o erro desastroso, fonte última da crise que redundou no impeachment.

A disputa não é entre dois extremistas simétricos. Hoje, só há um extremista: meu adversário, que usa a democracia como plataforma para iniciar uma aventura autoritária. Derrotá-lo não é escolher o PT, mas escolher a democracia.


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