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Tentando matar a rede

O fim do pacto “somos amigos, mas não conversamos sobre política”

O PT está tentando matar a rede social – a rede que surge da livre-interação entre as pessoas – ao instalar uma guerra civil fria no país. É grave! Nunca aconteceu entre nós. E não pode ter um bom desfecho. Porque, ao fazer isso, por enantiodromia, o PT açula também “os instintos mais primitivos” de uma galera autoritária e conservadora, que não absorveu a democracia e que acha que tudo se resolverá prendendo, arrebentando e matando os celerados que investem contra o Estado democrático de direito.

Isso escala o nível do conflito, aumenta a desconfiança, espalha mais inimizade no mundo, derruindo o nosso capital social, esgarçando e centralizando a rede num grau jamais visto na história do Brasil. Essa guerra surda, de baixa intensidade, vai pervadindo todos os ambientes sociais, governamentais e sociais. A começar das universidades, já convertidas em aparelhos partidários, o estado de guerra se instalará, mais cedo ou mais tarde, em todas as organizações e até as famílias e os grupos de amigos serão atingidos (aliás, em parte, tal já está ocorrendo).

Isso significa que todas as pessoas, querendo ou não, serão atingidas. E que muitas amizades ou relações amistosas fortes que hoje ainda são mantidas serão desfeitas. Muito em breve não adiantará nem tentar fazer o conhecido pacto de “somos amigos, mas não conversamos sobre política”. Com o tempo, até os laços fracos serão afetados e, como na Bósnia (veja a foto de Sarajevo em 1993: os transeuntes correndo na rua com medo do inimigo), uma pessoa se perguntará de que lado está a pessoa ao seu lado no ônibus ou na fila do banco antes de se dispor a conversar com ela. Não será possível manter relacionamentos – mesmo fracos, de camaradagem eventual – sob influência dessa vibe guerreira.

As evidências são muitas. Cito apenas dois depoimentos colhidos hoje no campo de comentários a um post no Facebook:

Aline Larroyed Isso é a cara do que se criou no Leste Europeu durante o regime socialista. Morei por aquelas bandas… Uma amiga contava que se chegou a um ponto de se ter medo de falar com o próprio irmão à mesa de jantar…

Guga Casari Tem muita coisa curiosa que eu noto. Meu amigo mais próximo é um anti-Temer tenaz, eu tenho me recusado a conversar sobre política com ele, esperando que a passagem do tempo mostre o bom senso do impeachment. Tenho discutido feio com gente que estaria “do mesmo lado” que eu, pois de fato muitos dos estereótipos da elite branca acabam se mostrando verdadeiros. Bolsonaristas e militaristas saem de suas tocas cheios de “moral”. Também noto que diversas mulheres brasileiras de minha rede que moram no exterior (Europa, Austrália e EUA – só primeiro mundo) são petistas e ainda por cima dilmistas intransigentes. A maioria do pessoal alternativo, de comunidades, veganistas, budista e contra-culturalista, com quem tenho conexão também é. E pra completar a ansiedade em que estamos todos imersos não ajuda diálogos e entendimento, tudo parece movediço e a gente quer se agarrar em alguma coisa, ainda que seja nossa opinião restrita e mal formada, ou melhor a do grupo imaginário que fazemos parte e que avaliza e “empodera” aquela opinião e postura.

Pois é. Para além das aparências de simples disputa política, há algo gravíssimo acontecendo na sociedade brasileira. Há uma clivagem em curso, de cima a baixo, da qual não escapam as diferentes formas de sociabilidade (instituições, entidades, organizações, famílias, grupos informais). Isso está acontecendo a partir de alguns clusters que não representam, nem arregimentam, mais do que 10% da população brasileira. Mas esse número é suficiente para perturbar todo o campo social alterando decisivamente a topologia da rede. Esses clusters atuam como provedores de um programa, um programa reprodutor que não é inoculado somente (conquanto principalmente) nas universidades (e nos professores que vão infectar os seus alunos nas escolas do ensino fundamental e médio), mas também em todos os ambientes sob influência do PT e dos partidos estatistas aliados. Assim, temos:

[] as universidades (sobretudos nas áreas de humanas) e as escolas de ensino fundamental e médio (em especial por obra dos professores de história, mas não só);

[] os falsos movimentos sociais (que funcionam como correias de transmissão do partido e que são financiados com dinheiro público, não raro, com dinheiro do crime);

[] as ONGs e assemelhadas (que passaram a atuar na última década como organizações neo-governamentais, servindo de caixa 2 para contratação de gente que servia ao governo e que também eram sustentadas com verbas governamentais);

[] o movimento sindical (centrais, sindicatos, associações profissionais e assemelhadas, que passaram a ser pelegas e também são sustentadas com dinheiro público ou com recursos arrecadados compulsoriamente pelo Estado e que nem precisam desses recursos prestar contas);

[] os setores artísticos e culturais (que passaram a ser financiados com renúncia fiscal);

[] a rede suja de veículos de comunicação dirigidos por militantes (financiados com patrocínio de estatais, com verbas de propaganda governamentais e também com dinheiro do crime, como o site Brasil 247 e vários outros, como o Opera Mundi, o Correio do Brasil, a Revista Fórum, a Carta Capital, o Pragmatismo Político, a Rede Brasil Atual, O Cafezinho, o Diário do Centro do Mundo, a Conversa Afiada, o Viomundo, o Brasil de Fato, o Plantão Brasil, o Tijolaço, a Mídia Ninja, o Jornal GGN, a Carta Maior, o Caros Amigos, o Outras Palavras);

[] os escritórios de advocacia da linha do falecido Consigliere Thomaz Bastos; e (dentre outros),

[] os cargos de confiança na administração direta, nas estatais, nos governos estaduais e municipais conquistados eleitoralmente pelo PT e pelos demais partidos estatistas aliados.

Nesses clusters pode ser encontrado o grosso dos agentes do populismo de esquerda, quer dizer, do projeto neopopulista que, na sua versão brasileira, pode ser chamado de lulopetismo.

Como já foi dito no artigo Uma força obsessora começou a ser exorcizada, não é, convenhamos, um plantel pequeno de agentes. A atuação militante desse contingente (no espantoso número que foi conseguido após duas décadas de atuação do PT fora do governo e um pouco mais de uma década no governo) foi suficiente para operar uma alteração na rede, perturbando o campo social de maneira a deixá-lo desprotegido diante do poder gravitacional do líder (que atua como führer) e da propaganda partidária (pela qual sua narrativa é disseminada para amplos setores, inclusive da mídia, que – “emprenhada pelo ouvido” – passa a replicá-la gratuitamente). O objetivo é simples: transformar tudo (sobretudo a política democrática) numa questão de lado (um lado contra o outro lado). Impedir que as pessoas possam desenvolver uma capacidade crítica para questionar (as incongruências, as contradições e até os crimes cometidos pelos governantes e pelos dirigentes partidários) pela assimilação do duplipensar.

Esquematicamente (e grosseiramente) essa perturbação da rede, nos locais onde ocorre, pode ser representada pelo processo de centralização representado pelo vídeo abaixo:

 

Ou seja, localmente, um nodo que tinha à sua disposição múltiplos caminhos passa a ter apenas alguns (isto é o processo de centralização ou hierarquização). Isso acontece, inevitavelmente, quando há polarização. Todo mundo social surgido da divisão em lados, separa (ou desatalha) clusters, elimina conexões e exclui nodos em cada um dos lados do bloco que se forma. E o pior é que esses lados – sobretudo quando há bipolarização – acabam ficando estruturalmente semelhantes e sendo regidos por modos de regulação muito parecidos. Assim, uma radicalização à esquerda, faz surgir uma radicalização à direita, mas ambas hierárquicas e autocráticas. Gente querendo parar as universidades ou o país, convocando uma greve geral até que Dilma volte, faz surgir o aparecimento de gente querendo intervenção militar ou até coisas piores (como caçar e matar comunistas).

O mais grave, porém, vem agora. Não há o que fazer, a partir das instituições, para reverter esse quadro. Como já foi dito no artigo Uma década de guerra civil fria pela frente, a menos que…

O único processo capaz de, no médio prazo (e deve-se considerar aqui um horizonte de duas décadas ou de uma geração), desconstituir uma força autocrática politicamente organizada, socialmente enraizada e ideologicamente estruturada, é romper os laços que a constituem como corpo orgânico, extraí-la das organizações em que se incrustou e desconstruir as narrativas ideológicas que engendrou. Se isso for feito apenas de fora para dentro, não é trabalho de um dia, nem mesmo de uma década. A menos que haja uma formidável fermentação na sociedade que comece a expelir esse corpo estranho, produzindo anticorpos suficientes em todos os espaços públicos e privados (das universidades às instituições estatais, das ONGs e movimentos sociais às empresas e aos meios de comunicação).

A imagem que ilustra este post diz tudo. Um instantâneo da rede social violada em Sarajevo, em 1993, no início da guerra da Bósnia. As pessoas não conversam, nem mais olham umas para as outras. Apenas correm, com medo do que pode acontecer. É claro que na Bósnia ocorreu uma guerra quente. Mas a guerra fria e a política pervertida como arte da guerra (mesmo quando a violência não ocorra) têm o mesmo efeito de esgarçar e centralizar a rede social. Pois a guerra não é a violência e sim a construção e manutenção de inimigos como pretexto para erigir organizações hierárquicas regidas por modos autocráticos.

Assim, pelo menos em alguns meios hegemonizados pelos que agora nos chamam de “golpistas” correremos nós, como transeuntes bósnios. Nos esconderemos de nossos semelhantes para não sermos escorraçados dos ambientes em que eles pontificam (o que já está acontecendo nas universidades e logo ocorrerá – se já não – nos teatros, shows e viradas culturais, para não falar das manifestações de militantes nas ruas). Seremos chamamos de coxinhas, machistas, homofóbicos, racistas, direitistas, fascistas, nazistas, nazifascistas, imperialistas, agentes da CIA. E provocados a reagir e a combater, pois o objetivo deles não é nos vencer e sim nos construir e nos manter como inimigos.


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