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Três mitos sobre o “mito” propagados pelos bolsonaristas

As mentes rudes dos bolsonaristas (inclusive dos que têm curso superior, mas não sabem interpretar um texto, quanto mais fazer uma análise) não conseguem entender três coisas:

1) Bolsonaro não vai acabar com a corrupção;

2) Bolsonaro não vai acabar com os bandidos; e

3) Bolsonaro não vai acabar com o PT.

Diminuir os graus de corrupção na política, de bandidagem nas ruas (e dentro da própria policia) e desconstituir o PT como força orgânica (caso insista em manter seu projeto criminoso de poder), são tarefas para mais de uma geração. Estes são três mitos sobre o “mito” que vêm sendo propagados pelos bolsonaristas.

Vejamos por que.

1 – A instrumentalização política do combate à corrupção, usada e abusada com propósitos eleitorais pela famíglia Bolsonaro e seus sequazes, não significa o fim da corrupção. Só a reprovação social ampliada (consequência direta do aumento dos níveis do capital social) pode reduzir significativamente os graus de corrupção na política (e em outras atividades humanas): a Somália não vira uma Nova Zelândia da noite para o dia, em razão do número de cruzadas estatais contra a corrupção e de indignados discursos políticos de oportunistas.

O governo Bolsonaro e sua base parlamentar de apoio continuarão coalhados de corruptos. Além disso, boa parte dos que vociferam contra a corrupção, pegando carona no moralismo da população, ou são cínicos, hipócritas e falsários ou não são imunes à corrupção enquanto ela for um meio de funcionamento da política.

Um exemplo: Ônyx Lorenzoni, anunciado por Bolsonaro como o seu ministro-chefe da Casa Civil, admitiu no ano passado ter recebido R$ 100 mil em caixa dois da empresa de carnes JBS.

Outro exemplo: o candidato bolsonarista ao governo do Rio, chamado Witzel, organizou a “farra dos juízes”’ em 2010 e ainda ensinou aos seus pares como acumular benefícios de modo indevido. Além disso, ameaçou a dar voz de prisão ao seu oponente em pleno debate, caso julgue que Paes está faltando com a verdade.

2 – O discurso truculento contra a bandidagem não tem o poder de acabar com a bandidagem. Mesmo porque a bandidagem está enraizada nas instituições que teriam o dever de combatê-la. Todos os estudos mostram que não são os governos mais fortes que conseguem reduzir sensivelmente a bandidagem e sim os governos mais democráticos. Novamente, só o aumento dos níveis do capital social pode reduzir a bandidagem, nas ruas e nos órgãos de repressão e de controle do Estado. A bandidagem não tem origem na falta de conversão dos indivíduos a valores, no seu destemor a um deus punitivo ou na ausência de disciplinamento familiar (imposto por um pai-patrão) e sim em configurações sociais que favorecem sua reprodução (não sendo fator desprezível as condições socioeconômicas dos criminosos).

O estímulo à violência (e à impunidade) policial não resolve o problema, antes o agrava: a candidatura Bolsonaro é apoiada por bandidos-policiais (muitas vezes organizados em milícias). O armamentismo popular também não resolve o problema, podendo escalar a violência social numa proporção tal que a atuação dos órgãos controle se tornará ineficaz.

Um exemplo: na visita que fez ontem (15/10/2018) à sede do Bope, Jair Bolsonaro defendeu que qualquer pessoa que mate um bandido – não só policiais – não seja julgada por homicídio (e ainda terminou o seu discurso gritando “caveira” – saudação necrófila desse destacamento guerreiro). Caberia a pergunta: e os bandidos (incluindo os milicianos) também vão poder matar bandidos?

Uma contradição: em 2013, Bolsonaro apresentou projeto de lei para impedir a posse e uso de quaisquer armas de fogo pelos servidores públicos “no exercício de ações fiscalizatórias ambientais”, mesmo sabendo que os caras trabalham em áreas perigosas. Diz-se que foi retaliação do capitão, contrariado por ter sido multado por fiscais do Ibama ao praticar pesca irregular.

3 – A ideia de que basta Bolsonaro tomar posse para o PT desaparecer é de uma profunda ingenuidade. Bolsonaro não conseguirá nem desaparelhar o Estado dos petistas que o ocupam: em grande parte, esses petistas já são funcionários (e não detentores demissíveis de cargos de confiança); alguns, inclusive, de carreiras estratégicas de Estado e não podem ser removidos sem processos administrativos.

Ademais, o PT está enraizado na sociedade há décadas, não apenas nos rincões onde se concentram os clientes do Bolsa Família, mas também nos ambientes artísticos e culturais, nos meios de comunicação (80 a 90% dos jornalistas são petistas, criptopetistas ou simpáticos à Lula), nos sindicatos e associações profissionais, nos meios docentes e discentes e no funcionalismo das universidades e escolas, nos movimentos sociais que atuam como correias de transmissão do partido, nas organizações não-governamentais, nas burocracias dos organismos internacionais com representação no Brasil, nos escritórios de advocacia e nos órgãos estatais que continuarão, em boa parte, aparelhados (inclusive os tribunais superiores e o ministério público).

Por último o PT, apesar de tudo que fez, elegeu a maior bancada na Câmara dos Deputados, terá governadores e deputados estaduais, conta com significativo apoio da opinião pública mundial e dos organismos multilaterais e de um número considerável de governos estrangeiros.

Uma pergunta: como o capitão imagina que isso possa ser feito sem quebrar as normas do Estado de direito, de vez que a maior parte desses petistas não violaram as leis brasileiras?

E uma questão final: o que farão os bolsonaristas – que acreditam realmente nesses mitos – quando constatarem que nada disso que eles prometeram vai ser cumprido pelo presidente Bolsonaro?


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